Mais do que os danos provocados pela retirada de árvores das calçadas, a derrubada de mata nativa causa prejuízos enormes ao meio ambiente. Não há números exatos sobre a extensão das áreas degradadas nos últimos anos em Bauru, mas algumas regiões, a olhos vistos, estão cada dia menos verdes.
É o caso da zona Norte da cidade, onde áreas de cerrado foram loteadas e vendidas sem que os compradores tivessem compreensão de que não poderiam ser exploradas. Com um grande "elefante branco" nas mãos em termos econômicos, muitos proprietários decidiram, por conta própria, providenciar o desmatamento irregular dos terrenos, segundo explica o tenente Ernani Francisco dos Santos, comandante do 1.º Pelotão de Polícia Militar (PM) Ambiental de Bauru.
"Por desconhecimento das leis ou não, a retirada de vegetação tem sido muito frequente em bairros onde a expansão urbana é crescente. Geralmente, primeiro o proprietário ateia fogo na área e, depois, retira a vegetação", aponta. De acordo com o tenente, a região mais problemática neste aspecto é o Vale do Igapó, mas bairros como o Jardim Colonial, Jardim Manchester e Vila Aviação também têm sido bastante degradados nos últimos dez anos.
"É claro que, neste período, muitos núcleos habitacionais nasceram em Bauru e, pontualmente, fragmentos de vegetação foram retirados em vários bairros da cidade. Mas, visualmente falando, o corredor de cerrado localizado na zona Norte, indo à Nordeste, é a que mais foi atingida", considera o comandante.
De maneira geral, na zona urbana, as árvores nativas são retiradas para dar lugar a prédios, conjuntos habitacionais e obras de infraestrutura. Enquanto a zona Norte é a mais afetada pelos abates irregulares, a zona Sul concentra a maior parte das supressões autorizadas pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), órgão vinculado ao governo paulista.
Procurada pela reportagem, a entidade não informou o número de licenças emitidas neste ano para a derrubada de árvores em Bauru. Mas, segundo informou a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, 50 anuências de supressão foram assinadas pela prefeitura a pedido da Cetesb somente de janeiro a abril de 2011. O número de árvores abatidas e a área abrangida pelas licenças não foram divulgadas.
Replantio
Para emitir as autorizações, o governo sempre exige um replantio de mudas quatro vezes maior do que o número de cortes autorizados. Mas a eficácia dessa compensação ambiental é contestada por especialistas e, muitas vezes, executada sem sucesso. Uma prova de que a medida não substitui a vegetação nativa é que o cerrado vem diminuindo a uma taxa de 1,5% ao ano em todo o território paulista (leia mais abaixo).
"E mesmo as áreas em que não há intenção de ocupação estão sendo degradadas. A Fazenda Bauru, próximo ao Jardim Chapadão, assim como a reserva da Unesp (Universidade Estadual Paulista) são alvos constantes da falta de consciência ambiental. As pessoas jogam lixo, entulho e ateiam fogo. É um absurdo", indigna-se o presidente da Organização Não-Governamental (ONG) SOS Cerrado, Amilton Marques Sobreira.
Com a destruição destas áreas, perde-se não somente a riqueza de espécies arbóreas, mas também o habitat de centenas de animais, cuja importância para o equilíbrio ecológico, em muitos casos, é ainda desconhecida. "Essas espécies da fauna e da flora, ao interagirem, executam uma série de funções que não temos capacidade de dimensionar em sua totalidade. E nós não sabemos se dependemos e o quanto dependemos destas funções. Podemos estar destruindo algo que nos fará falta num futuro breve", comenta Osmar Cavassan, professor de ecologia da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
As árvores do cerrado também desempenham o importante papel de reter as águas pluviais, que são devolvidas à atmosfera em forma de umidade, o que propicia a ocorrência de novas precipitações necessárias à agricultura e, portanto, à sobrevivência humana.
Flagra
Em setembro do ano passado, a ONG SOS Cerrado fotografou o desrespeito à natureza em um lote da quadra 1 da avenida José Sandrin, próximo à Universidade Estadual Paulista (Unesp). Em uma área de cerrado, um trator trabalhava aparentemente sem licença para operar, já que a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) confirmou à reportagem não ter emitido nenhuma autorização para a exploração da área.
No local, segundo Amilton Marques Sobreira, presidente da ONG, seriam construídas quitinetes estudantis. A informação é que o projeto de construção previa a retirada de 6 mil metros quadrados de mata.
Compensação resolve?
Para o presidente da ONG SOS Cerrado, Amilton Marques Sobreira, as medidas de compensação ambiental são um equívoco da legislação estadual, já que não reproduzem, em absoluto, a mata nativa e todos os benefícios decorrentes de sua diversidade biológica. "O primeiro problema é que, raramente as áreas de compensação estão próximas das árvores que foram derrubadas. O segundo, é que a fauna que existia na mata nativa será expulsa ou morta. Isso não é compensado com uma área produzida, geralmente, sem a mesma qualidade", aponta.
Outro obstáculo à compensação eficaz é encontrar áreas com vegetação nativa degradada, mas com potencial para se transformarem em reservas ambientais, se recuperadas. "Devido ao grau avançado de destruição do cerrado, estes locais se tornaram raros", aponta Osmar Cavassan, professor de ecologia da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Segundo ele, uma alternativa à compensação que vem sendo estudada é a chamada restauração ecológica, que, mais do que plantar de árvores, implica em recompor ecossistemas com a introdução, inclusive, de fauna nativa. Mas, segundo Cavassan, por serem processos mais caros e demorados, ainda são difíceis de serem implementados.