Os portadores do vírus HIV precisam suportar uma série de dificuldades. Não bastasse a queda da imunidade do organismo, expondo a vida em risco mesmo diante de uma simples gripe, tem de aguentar um tratamento chato, cheio de efeitos colaterais. Mas nada se compara ao poder de destruição do preconceito. Principalmente, quando esse preconceito fecha as portas do mercado de trabalho.
"Um fator importante na vida do portador do HIV é ter a família ao seu lado, mas mesmo sem a família ainda é possível sobreviver. Mas se você não tiver um emprego não terá o que comer, o que vestir, onde morar, nem como pagar suas contas", enumera Soares (nome fictício a pedido do entrevistado), 39 anos. "Entre todas as dificuldades que enfrentamos, a maior delas é conseguir uma vaga no mercado de trabalho", afirma.
E o preconceito independe do tamanho da cidade. A empresa pode ser de São Paulo ou de Bauru, a dificuldade é a mesma. E Soares passou por experiência amarga nas duas cidades. Na Capital, ele comenta que a funcionária de recursos humanos de uma empresa que estava contratando mostrou até a mesa que seria ocupada por ele. "Ela tinha garantido que a vaga era minha. Fiz a coleta do sangue para os exames admissionais e ela me mandou retornar na outra semana com a documentação e duas fotos. No dia seguinte, ela me ligou dizendo que houve um equívoco, e que a vaga que seria minha já tinha sido preenchida. E que era para eu ficar no aguardo, assim que tivesse outra vaga, eles me chamariam. Estou esperando até hoje", relata.
Segundo ele, apesar de ser proibido, muitas empresas fazem exame de HIV. "O empresário pensa, a empresa é minha, o exame está nas minhas mãos e o médico sou eu quem pago. Ele vai tirar uma gota do sangue e fazer o teste de HIV, ninguém vai saber que foi feito", observa.
Em Bauru, Soares passou pelo mesmo problema. Ligaram da empresa marcando uma entrevista de emprego. Quem atendeu o telefone foi uma funcionária da casa de apoio onde ele mora. Durante a entrevista, a pessoa quis saber para que servia a casa. Soares explicou sem dizer que lá era um lugar de apoio a portadores de HIV.
No dia seguinte, a funcionária da empresa ligou novamente para o lugar sem se identificar e quis saber para que servia a casa de apoio. "Depois que ficaram sabendo que o local cuida de pessoas com aids, não me ligaram mais", lamenta.
Antes de chegar à casa de apoio, Soares passou por outros abrigos e mesmo neles foi vítima de preconceito e discriminação. "Separaram meu copo, meu prato, meus talheres, me colocaram em uma mesa longe dos demais, dormi em um quarto sozinho, tomava banho em um banheiro que ninguém usava, me isolaram completamente sem necessidade. Em um jantar de confraternização, enquanto todos celebravam juntos, eu fiquei isolado lá num cantinho", conta.
Na opinião dele, somente a correta divulgação do que é a aids vai acabar com isso. "A informação é a marreta para derrubar o muro do preconceito. Só por meio dela as pessoas vão ficar sabendo que não se pega HIV em um aperto de mão", diz.
Segundo ele, apesar de terem se passado 30 anos desde a descoberta do vírus, ainda há muita gente mal informada. "Uma grande parte acha que ao visitar um portador do vírus está correndo o risco de ser contaminada. Quando na verdade o que ocorre é o contrário. É mais fácil alguém saudável transmitir para nós uma bactéria, um vírus, do que nós passarmos para ela. Quem não tem HIV está com o sistema imunológico fortalecido, enquanto nós somos fracos", justifica.
Para Soares, as campanhas de alerta e esclarecimento da aids deveriam ocorrer o ano todo e não apenas por ocasião do Dia Mundial de Luta Contra a aids, comemorado todo dia 1 de dezembro, ou no Carnaval. "E no resto do ano? A transmissão ocorre a todo momento", argumenta.