10 de julho de 2026
Articulistas

Farinha pouca, meu angu primeiro?

Estela Almagro
| Tempo de leitura: 3 min

Com este velho adágio, indago da conveniência e oportunidade do texto publicado ontem, neste mesmo espaço, assinado pelo presidente estadual tucano, Pedro Tobias : "Só quem deve teme". Escrevo, não para
contestar, mas para esclarecer que concordo plenamente. Senão, vejamos. Informações sigilosas de uma importante testemunha estão ajudando a desvendar um esquema internacional de propina que, segundo denúncias, teria sido montado no Brasil pelas multinacionais Alstom e Siemens.

Uma figura que acompanhou de perto contratos firmados nos últimos anos pelas duas empresas com os governos do PSDB em São Paulo, para a compra de trens e manutenção de metrô, passou a fazer novas revelações e a es-miuçar os caminhos do propinoduto europeu em direção ao Brasil. A francesa Alstom e a alemã Siemens foram alvos de investigações na Suíça e na Alemanha por causa da acusação de pagamento de suborno a políticos e autoridades da Europa, África, Ásia e América do Sul. Somente a Siemens teria feito pagamentos suspeitos num total de US$ 2 bilhões.

Um tribunal de Munique acusou a empresa alemã de ter pago propina a autoridades da Nigéria, Líbia e Rússia. O ex-diretor Reinhard Siekaczek acrescentou que o esquema de corrupção atingiria ainda Brasil, Argentina, Camarões, Egito, Grécia, Polônia e Espanha. Já a propina paga pela Alstom em diversos países ? incluindo o Brasil - pode ter sido superior a US$ 430 milhões, de acordo com os cálculos da Justiça suíça. No Brasil, a empresa foi acusada, por exemplo, de pagar US$ 6,8 milhões em propina para receber um contrato de US$ 45 milhões no metrô de São Paulo. No governo tucano. Mas isto não causou nenhuma indignação ao deputado Pedro Tobias, que colocou-se radicalmente contrário à instalação de CPI na Alesp para investigar o ocorrido. Seria o exercício democrático da ética de conveniência, onde "não necessáriamente só quem deve teme"? Mas isto não é tudo.

Há 83 engavetamentos de CPI na Assembléia Paulista, 70 na gestão Geraldo Alckmin e 13 no de José Serra. Entre elas estão uma CPI da Máfia caça níqueis; um dos Cartões Corporativos que tinha como alvo de investigação os gastos de R$ 108 milhões, "aplicados" casas noturnas, uma CPI das ONGs no Governo Alckmin (60 contratos sem licitação e prejuízo de R$ 80 milhões); uma das rodovias para investigar as privatizações tucanas e os pedágios mais caros do mundo; de obras superfaturadas do Rodoanel, na Nova Marginal e da Jacu Pêssego; do rebaixamento da Calha do Tietê... todas arquivadas, sob a batuta implacável do novo regente estadual tucano. Como disse Millor Fernandes, "nada mais falso do que uma verdade estabelecida".

Assim, mesmo estranhando que o enriquecimento de Verônica Serra e seu marido, demonstrados na polêmica do sigilo fiscal de 2010, não tenha causado nenhum espanto ao presidente estadual tucano, proponho ao deputado Pedro Tobias a exercitar o entusiasmo demonstrado para questionar a conduta do ministro Palocci, para restabelecer o papel de fiscalização que a Alesp perdeu nos últimos 20 anos. Graças à eficiência tucana, que ainda se vê no direito de propalar que "só quem deve teme". Eu concordo, deputado!

A autora, Estela Almagro, é vice-prefeita de Bauru