10 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de Pescador: Rio Vermelho


| Tempo de leitura: 2 min

Início da década de 50. Estávamos acampados há uma semana em um descampado sobre a barranca mais alta do rio Mondego, sob uma enorme árvore solitária, a uns cem metros do seu afluente, quando começou a soprar um vento sul gelado. O céu tornou-se cinzento e o frio, insuportável.

Mudamos o acampamento para baixo, no vale do rio Vermelho, para ter a proteção do barranco e das árvores. Tudo em vão. Roupas sujas ensacadas foram reutilizadas. À noite, dormíamos ao redor de uma fogueira. E foi na noite seguinte, ainda mais fria, que escutei pela primeira vez o tiro na poção do Mondego. Ingenuamente, indaguei: "Será que tem gente caçando? Parece que o tiro foi no rio". Aí, um companheiro mais traquejaado do que eu, falou, sorrindo: "Nada... Foi batida de jaú!".

O rio Vermelho deságua no Mondego, onde este faz uma grande curva à esquerda. "Empurrando" a água e a areia do fundo do mesmo, formou uma poção formidável, muito profundo, que abrangia toda área da curva, com rebojos assustadores. Lugar ideal para peixes de couro, incluindo o jaú, que embora não seja um peixe comprido, tem o corpo volumoso e pode pesar além dos 100 quilos.

Segundo o companheiro informou, são peixes dessa espécie que, por motivo desconhecido, eventualmente sobem durante a noite à superfície e, com a calda em concha, malham-na de forma tal que poduz um estampido tão alto que se chega a duvidar que seja produzido por um peixe.

Apesar da abundância aparente de peixes, nossa pescaria no local não foi excepcional, mas foi boa: quatro jaús (o maior com 25 quilos), alguns pintados, cacharas, surubins, razoável quantidade de pacus e muitas jurupocas e jurupecens. Alguns foram fisgados à luz do gasômetro e lanterna, nas margens.

Ninguém se dispunha pescar ali, de bote, à noite. Ficamos lá duas semanas. A primeira foi boa, mas a segunda... Frio e chuviscos torturantes inibiam as ações. E nos fizeram bater em retirada antes do tempo.


Trecho do livro "Caçadas e Pescarias", de Adauto Dias Giafferi Prado