08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Festa do Amor: humano e divino


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Celebra-se hoje a solenidade de Pentecostes, o envio do Espírito Santo prometido por Jesus. Neste ano, a celebração de Pentecostes coincide providencialmente com o dia dos namorados e enamorados. Conjuga-se oportunamente nesse dia o amor humano com o amor divino, considerando que o Espírito Santo, terceira Pessoa da Trindade Santa, é o Amor. Sabemos que não há oposição entre amor humano e amor divino. Quando esses dois amores são integrados pelo ser humano surge o amor verdadeiro e duradouro. Por essa razão, o papa Bento XVI aborda no início de sua primeira Encíclica Deus Caritas est o tema do amor nas expressões eros e ágape, mostrando a diferença e unidade entre ambos.

O papa nesse texto não nega a dimensão eros do amor, antes, propõe sua purificação. "O eros inebriante e descontrolado não é subida, êxtase até o Divino, mas queda, degradação do homem. Fica assim claro que o eros necessita de disciplina, de purificação, para dar ao homem, não o prazer de um instante, mas uma certa amostra do vértice da existência, daquela felicidade para que tende o nosso ser" (n.4). Portanto, o amor eros (prazer) não é anulado mas integrado com a outra dimensão do amor, o ágape (doação, compromisso). Na dimensão ágape "o amor torna-se cuidado do outro e pelo outro. Já não é busca de si próprio, procura ao invés o bem do amado, torna-se renúncia, está disposto ao sacrifício" (n.6) O ser humano é muito mais que instinto e a sua grandeza está justamente no poder de educar sua vontade e de orientar seu prazer para o bem de si e do outro. "São necessárias purificações e amadurecimentos, que passam também pela estrada da renúncia. Isso não é rejeição do eros, mas a cura em ordem à sua verdadeira grandeza" (n.5).

Segundo Bento XVI, o amor tem dois movimentos: ascendente e descendente. Trata-se de dar e receber, integrando as duas dimensões na única realidade do amor. A pessoa "não pode limitar-se sempre a dar, deve também receber. Quem quer dar amor, deve ele mesmo recebê-lo como dom" (n.7). Na verdade o amor duradouro é uma resposta de amor ao amor recebido. Eu amo porque me sinto amado, sobretudo por Deus, fonte de todo amor. Quem ama se eleva, torna-se melhor. "Sim, o amor é êxtase; êxtase não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus" (n.6).

Em tempos de "amor líquido" (Bauman), isto é, sem vínculo, compromisso e durabilidade, a Igreja propõe o resgate da única realidade do amor e a integração das dimensões eros e ágape. "No fundo, o amor é uma única realidade, embora com distintas dimensões; caso a caso pode uma ou outra dimensão sobressair mais. Mas quando as duas dimensões se separam completamente uma da outra, surge uma caricatura ou, de qualquer modo, uma forma redutiva do amor" (n.8).

Celebrar Pentecostes significa celebrar o Amor e a Unidade. Por essa razão, durante a semana que antecedeu Pentecostes rezamos pela unidade dos cristãos que passa pelo ecumenismo (conviver na mesma "casa" respeitando as diferenças). Com o olhar da fé poderemos ver melhor e além. Pedro, que conviveu com Jesus e estudou na "escola" do Mestre teve dificuldade para se abrir ao novo e superar uma mentalidade estreita. Assim como Pedro podemos "começar a entender" que Deus não faz diferença entre as pessoas (cf. At 10, 34). Com a Graça de Deus e o esforço pessoal podemos gradativamente superar os preconceitos e resistências. Para isso, é necessário docilidade aos sinais dos tempos para viver a sábia síntese apresentada por Santo Agostinho: "Nas coisas essenciais a unidade, nas duvidosas a liberdade e em tudo a caridade (amor)".

Sigamos amando e nos amando na certeza de que "o amor move o sol e as outras estrelas" (Dante). Feliz festa do Amor: Pentecostes e enamorados.


Luiz Antonio Lopes Ricci, sacerdote e colaborador de Opinião