11 de julho de 2026
Economia & Negócios

42% das famílias não quitam dívidas

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 4 min

Facilidade de obtenção de crédito e falta de planejamento financeiro levaram mais famílias brasileiras a se endividarem, a tal ponto que não vislumbram mais como vão conseguir quitar os compromissos. Os números do Índice de Expectativa das Famílias, divulgados na última semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revelam que 41,3% das famílias pesquisadas não conseguem arcar com suas dívidas.

O estudo realizado em um universo de 3.810 domicílios em mais de 200 municípios de todo o País mostra que em maio deste ano a dívida média de cada família era de 4,7 mil. E na maioria dos casos os débitos correspondem entre uma a duas vezes a renda mensal dos entrevistados. Ao analisar as regiões, a pesquisa constatou que os moradores do Centro-Oeste do Brasil estão mais confiantes e 25% afirmaram que têm condições de quitar toda a dívida. Já as famílias da região Norte são as que se encontram em pior situação e 54,2% pontuam que não terão como arcar com suas dívidas.

De acordo com os dados do Ipea, o endividamento reflete na aquisição de bens duráveis, como automóveis. Pelo levantamento, apenas 50,3% consideraram um bom momento para compras deste tipo, contra 58,2% registrados em janeiro. "Há espaço para políticas públicas de maior acesso ao crédito. Mas com a elevação do número dos que tem dificuldades para pagar as dívidas, as instituições financeiras deverão reavaliar a concessão de crédito. Não se imagina um período de recessão, mas uma acomodação do consumo. Há um otimismo comedido", afirma o presidente do Ipea, Márcio Pochmann, em material divulgado à imprensa.

O economista Mauro Gallo observa que a incapacidade do brasileiro em quitar suas dívidas é fruto de falta de planejamento financeiro crônica. E o mau comportamento financeiro também reflete em Bauru. "É um problema geral. Principalmente para financiamentos de longo prazo. Por exemplo, no caso de automóveis. Muita gente financiou o carro em 72 meses, mas não dá para garantir que em seis anos nada vai acontecer. Não se planeja para esse período. E se surge alguma obrigação durante esse prazo?", questiona.

Para o especialista, ao comprar um automóvel, por exemplo, a pessoa não pensa que está adquirindo um gerador de gastos. "Tem o combustível, os impostos, reparos e também os custos dos passeios que o carro pode proporcionar. Ao comprar o carro, muita gente só calcula o impacto da parcela no orçamento e esquece de computar tudo isso", pontua.

Gallo ressalta que para não se ver com a renda comprometida por dívidas, a melhor saída é comprar o produto á vista. "Muita gente fala que se não fizesse financiamento não conseguiria adquirir um bem. Mas as financeiras ganham muito em cima disso. Costumo dizer que no final você compra um financiamento e ganha uma TV de brinde, por exemplo", diz.


Brasileiros continuam otimistas

A pesquisa também mostra que os brasileiros continuam otimistas em relação à situação socioeconômica, com índice de 62,9 pontos, valor ligeiramente inferior ao do mês anterior. Porém, cinco pontos atrás do melhor resultado dos últimos nove meses, obtido em janeiro: 67,2%.

Segundo o estudo, 56,2% das famílias acreditam que o Brasil passará por melhores momentos nos próximos 12 meses no que diz respeito à situação econômica. O resultado é 2,9 pontos percentuais menor que o registrado no mês anterior: 59,1%. Por outro lado, os números revelam que 33,4% dos entrevistados acreditam que o País passará por piores momentos econômicos. Esse é o pior índice registrado nos últimos nove meses.

Para o economista Mauro Gallo, os próximos anos serão favoráveis para a economia. "Com a Copa do mundo em 2014 e as Olimpíadas, bem ou mal, teremos muita atividade econômica. O problema vai ser depois de 2016. Como vamos pagar por tudo isso", questiona.

No entanto, as famílias também estão otimistas em relação ao emprego. Para 76% dos entrevistados não há perigo de demissão. A região Norte é a mais otimista e 93% estão seguros em relação ao posto de trabalho. O morador do Nordeste é o mais inseguro. Por lá, 31,9% dos pesquisados acreditam que podem perder o emprego.

Por outro lado, 56,2% dos brasileiros não vislumbram qualquer possibilidade de ascensão profissional nos próximos meses. E, dessa vez, os moradores da região Norte são os que menos acreditam nessa melhoria, com 73%. Já 55,9% dos entrevistados da região Sul acham que a situação profissional vai melhorar.

Na avaliação de Gallo, o emprego realmente deve se manter estável nos próximos anos. "Porém, ascensão profissional, melhoria de salários, não deve acontecer. Muito pela queda de rentabilidade de algumas empresas. Isso leva a um achatamento salarial e também à diminuição da abertura de promoções", avalia.

Outro ponto levantado pelo economista é a carência de profissionais capacitados. "Mutias vezes, a promoção não é feita, pois não existe pessoa qualificada para o cargo", observa. Por isso, Gallo ressalta que mesmo com estabilidade no emprego o profissional precisa se manter atualizado e investir na qualificação.