08 de julho de 2026
Articulistas

Rostos descontentes

Jorge Rufino da Silva Júnior
| Tempo de leitura: 2 min

Basta olharmos para as feições tristes e descontentes de cada criança que se encontra nas esquinas das grandes e mais movimentadas avenidas pedindo "dinheiro" nos semáforos para os que ali passam, para notarmos a insatisfação e o desejo tímido que elas possuem de ?sair correndo daquele lugar?. Ah, eu disse dinheiro? Não, o que essas crianças pedem, não é dinheiro. O que elas pedem, ou melhor, imploram, é atenção. Mas você, caro leitor, assim como tantas outras pessoas, na correria do dia-a-dia, não obteve tempo ainda para reparar o quanto essas crianças precisam de ajuda. É sempre assim. É só doar alguns ?cascalhos? e está tudo certo. O indivíduo ?sai? achando que já fez sua ?boa ação do dia?. O que ele não vê é que carinho e atenção não se compram. Há quem diga que elas são analfabetas, ignorantes, sujas. É isso mesmo, sujas, e, por isso, não há quem se aproxime delas ou lhes dêem a devida assistência.

Estas crianças, por sua vez, sentem-se invisíveis perante a sociedade, uma vez que não têm sequer o reconhecimento dos motoristas quando elas param para desenvolver o que aprenderam ou consideram que aprenderam de melhor. O malabarismo. Mas, se pararmos para pensar, essas crianças têm um enorme potencial e capacidade para desenvolver outras atividades. E devem desenvolver outras atividades. Mas falta oportunidade. Oportunidade esta que deveria ser pensada, analisada, revisada e aplicada por nós, cidadãos abarroados e insatisfeitos.

"Mas aí vêm aquelas pessoas e dizem: - "Essas crianças deveriam estar trabalhando ao invés de ficar pedindo esmolas." Oras, como é que elas vão trabalhar se não lhes oferecem oportunidades? Ou ainda: - "Que trabalho sujo que elas fazem!". Não, não é trabalho sujo. Elas só estão tentando sobreviver.

Parece estar havendo uma inversão de papéis. Repare, gente que exerce trabalho sujo ocupa ou já ocupou cargos elevadíssimos. Basta pesquisarmos alguns nomes como Palocci, Azeredo e outros que não ouso nem citar. E as pessoas que exercem trabalho limpo? Que espaço elas ocupam na sociedade? Acho interessante refletirmos sobre essa questão e prestarmos solidariedade a esses seres indefesos.

Quando questionadas sobre por que exercem este serviço, muitas crianças demonstram ?vergonha? ao admitirem que precisam do dinheiro para colaborar com as despesas de suas casas. È triste ouvir isso, mas é a realidade. E todos os dias somos ?obrigados? a nos deparar com estes seres infelizes, vítimas, muitas vezes, da violência e não fazemos nada para mudar. Olha, sujos são os olhares desatentos e insolentes de uma população ignorante que não sabe ?enxergar? o valor que um sentimento verdadeiro possui.

O autor, Jorge Rufino da Silva Júnior, é estudante do primeiro ano do curso de Relações Públicas pela USC