10 de julho de 2026
Geral

Região central ainda preserva raridades que contam histórias

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

Cruzar a região central de Bauru, na maioria das vezes, pode significar trânsito lento, agitação, barulho, fumaça de escapamento... Mas também há uma gama de achados que só a região possui e que, com um pouco mais de calma e disposição para gastar a sola do sapato, dão mil faces à principal concentração comercial da cidade .

Para muitos bauruenses, principalmente quem é da gema, o "verbo" batistar - criado para designar o fato de simplesmente passear sem compromisso pelo Calçadão da Batista de Carvalho - é conjugação antiga e até mesmo trivial. No entanto, até para quem conhece o Centro "de cabo a rabo", certas particularidades também podem passar despercebidos, mas basta pisar um pouco no freio para que aticem nossa curiosidade.

Mergulhado entre as prateleiras de um dos maiores sebos da cidade, no piso superior de um prédio antigo no cruzamento da avenida Rodrigues Alves com a rua 13 de Maio, o segurança Jânio Ribeiro dos Santos, de 44 anos, ao menos uma vez por semana, dedica algumas horas para garimpar itens que sustentam uma de suas maiores paixões: a leitura.

"Toda semana, sempre que posso, dou uma paradinha aqui. Não tem como ficar pouco tempo, depois que o ?vírus? pega a gente, não tem jeito", brinca o aficionado por revistas especializadas no setor automotivo. "Mas leio de tudo", garante Santos, ainda avesso à leitura eletrônica.

"Hoje tem de tudo na Internet, mas não é a mesma coisa. Posso até pesquisar sobre algo no computador, mas enquanto não vejo no papel não sossego", admite.

O leitor voraz comemora. Afinal, tornam-se raros locais onde é possível mesclar a leitura contemporânea com clássicos da literatura, revistas de diferentes segmentos, quadrinhos e uma variada gama de publicações direcionadas, que valem como ouro para profissionais e estudantes.

Em meio a pilhas e mais pilhas de títulos no segundo andar, o barulho do vai e vem do trânsito da Rodrigues que entra pela janela se mistura à nostalgia. Não é sempre que se depara, ao descer a escadaria, com um pôster na parede com o "galã do momento", Sérgio Chapelin. Sim, o senhor grisalho das sextas-feiras à noite na TV, ao menos o que apontava uma edição da finada revista "Amiga", era "o cara" lá pelos idos dos anos 1970.

Só que a quase escondida sala na sobreloja guarda alguns tesouros que vão além das simples curiosidades. Verdadeiras raridades literárias adormecem a espera de quem se habilita a levá-las para casa.

Um professor pernambucano, comenta Roberto Francisco de Bau, proprietário do Sebo, chegou a desembolsar R$ 3 mil por uma obra sobre Charles Darwin, o pai da Teoria da Evolução. "O livro é de 1808, comprei numa chácara antiga, em meio a muito material", lembra o comerciante, que cuida de um acervo estimado em quase 500 mil itens. Entre as raridades, recorda ele, de tão ocultas, se revelam somente após a batida do martelo.

Já houve publicação autografada por gente importante, vendida sem que o dono da loja soubesse, ao menos antes de fechar o negócio. "Um livro do jurista Pontes de Miranda (Francisco Cavalcanti) estava autografado aqui o tempo todo. Só vi logo após vender. O mesmo aconteceu com uma revista Fatos e Fotos (extinta publicação do não menos extinto grupo Bloch Editores) sobre a Copa de 70", relaciona. "Numa foto em branco e preto, havia a assinatura, em caneta preta. Quando vi a tradicional bolinha em cima do P, de Pelé", recorda.

Para evitar "prejuízos" e vender por um preço de acordo com a raridade do item, Roberto assegura controlar melhor o conteúdo das publicações, tanto é que as principais joias, diferencia, não ficam expostas.

____________________

Loja especializada em controle remoto exibe marcas e modelos fora de linha


Entre as curiosidades da região central, o que não falta numa loja do Calçadão da Batista é esse tipo de acessório. Também escondido numa pequena porta, após uma escadaria e algumas outras sobrelojas que abrigam desde cadeira de dentista até escritório de advocacia, o ponto comercial é especializado em controles remotos. Desde os modelos mais comuns e procurados para reposição, principalmente de aparelhos de TV, CD e DVD, a loja conta com algumas peças, literalmente, raras.

Os periféricos, conta o dono da loja, são para equipamentos não menos escassos, principalmente de marcas e modelos fora de linha, como os bons e velhos televisores Telefunken, bem vivos na memória de quem está na faixa dos 30 anos para cima, Gradiente, entre outras. Caso não haja o modelo no estabelecimento, ele garante garimpar pelas peças pedidas pelos clientes, muitos vindos de fora. "Em alguns casos, os originais não são mais fabricados, mas conseguimos encontrar outros que vêm no mesmo formato e código", observa.