09 de julho de 2026
Articulistas

A experiência de San Francisco

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Mark Twain tinha suas razões quando resmungava por ter passado um rigoroso inverno no verão de São Francisco. A partir do entardecer, Frisco, como os nativos chamam a cidade, é varrida por um vento frio que vem do Pacífico por causa das correntes geladas. Fora esse probleminha, que se resolve com uma blusa de lã, há muitas razões para se visitar San Francisco. Dias de sol pleno, sem neblina, vento ou chuva são preocupantes. Diante de tanta bondade, será que não vem terremoto? Encontrei a cidade toda embandeirada com as cores do arco-íris. Além de berço da geração beat, do movimento hippie, é um centro de lutas pelos direitos dos homossexuais. A onda verde é outro movimento consolidado para servir de exemplo ao mundo. Os habitantes são obrigados a entregar o lixo doméstico separado para a reciclagem e compostagem. Nos quartos dos hotéis existem sacos de papel sobre a mesa como a intimar o hóspede a ali colocar papel, latas e vidros.

O movimento é tão sério que o prefeito vai trabalhar de bicicleta para incentivar o uso de meios de transporte não-poluidores. Metade da população usa o transporte público. Todos andam com sua garrafinha de água reutilizável e sacolinha de pano. San Francisco ganhou o título de cidade que menos desperdiça no país. Seus habitantes têm o hábito de apagar a luz quando caminham de um cômodo para outro e de a andar a pé. Boa parte da frota de táxis é híbrida. Usam carros elétricos e a gasolina.

O cenário de casas vitorianas, os bondinhos que dão um ar retrô e o antigo presídio de Alcatraz atiçam a imaginação do viajante mais calejado. San Francisco não é só Fisherman?s Wharf, o cais dos pescadores por onde passam 15 milhões de pessoas todos os anos, atrás dos seus restaurantes com frutos frescos do mar. O parque da Ponte Golden Gate é maior que o Central Park. São mais de um milhão de árvores, lagos, jardins, fontes e cascatas. O Young Museum, dentro do parque, está com uma mostra especial de 150 obras de Picasso que sucedeu à temporada de Van Gogh, Gauguin e Cézanne. A Academia de Ciências da Califórnia não se resume ao seu acervo.

O espírito natureba do povo se manifesta no próprio prédio, inaugurado há dois anos. É todo planejado para consumir energia natural e produzir cada vez menos resíduos. A luz natural é essencial na iluminação de ambientes, que não têm ar-condicionado, mas são bastante arejados graças ao "teto vivo" da construção, onde vivem 1 milhão e 700 mil exemplares nativos da região. As plantas também transformam o dióxido de carbono em oxigênio. A água da chuva é reutilizada. Quem quer saber o que é "prática ambiental" deve ir a San Francisco. Até na culinária isso de reflete. As palavras mais ouvidas são sustentável, fresco, local e orgânico. Nos restaurantes, os cardápios seguem as estações do ano e valorizam os ingredientes da região porque são usados na época certa. Em janeiro, ninguém usa tomates porque não é tempo.

Fui conhecer o Fairmont, o "Titanic dos Hotéis", na Colina dos Nobres (Nob Hill). O hotel, em estilo neo-clássico, luxuosíssimo, no dia seguinte à sua inauguração foi destruído pelo terremoto de 1906. O tenor Enrico Caruso, que estreava a ópera Carmen, era hóspede, mas se salvou. As donas do hotel, herdeiras de minas de prata em Nevada, reconstruíram tudo, ainda com mais luxo e alicerces à prova de abalos sísmicos. Virou "A Rosa das Cinzas". Nesse hotel, estiveram hospedados todos os presidentes dos Estados Unidos, desde William Taft até Barack Obama. O armistício da Segunda Guerra Mundial foi assinado nos seus salões, onde também nasceu a Sociedade das Nações, hoje ONU. Ella Fitzgerald, Nat King Cole e Marlene Dietrich cantaram no Ball Room, onde Tony Bennedt interpretou pela primeira vez "I Left My Heart in San Francisco". Rodolfo Valentino e muitos outros deixaram por lá marcas de suas passagens.

Muita coisa para um pobre bauruense ainda emocionado depois de admirar o maior e mais bonito buraco do mundo, o Grand Canyon, de 1.600 metros de fundo. É uma lição atrás da outra. Esse negócio de dizer que partir é morrer um pouco é fórmula francesa com pretensão universal. Os índios havasupai, que moram por lá, dizem que a chegança é pior que a partida. Choram sinceramente na chegada porque quem foi perdeu o que se passou na sua ausência. O lugar é aqui.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC