Na mesma semana em que assisti a diversas reportagens televisivas sobre concursos públicos, tive oportunidade de ler matéria do JC sobre a polêmica causada pela letra da música "Estilo Vagabundo". E fiquei feliz.
Feliz porque me lembrei com carinho dos meus tempos de ensinos fundamental e médio. Letras de músicas de Tim Maia, Milton Nascimento, Djavan, Zé Ramalho, Cazuza e Skank sempre tiveram lugar nos livros de gramática e de literatura, ao lado de grandes mestres da prosa e da poesia. E sabe quem sempre aparecia por lá? Adoniran Barbosa com seus sambas, sua "tauba", seu "revórver", sua "frechada" e seu "fumo" (isso mesmo: do verbo ir). E com isso entendíamos a relação entre o uso da linguagem e o contexto social.
Dizem que a língua é dinâmica. Deve ser mesmo, pois nunca precisei de palavras de baixo calão na sala de aula para aprender que existem realidades lingüísticas específicas, quer em textos censurados ou tarjados. Lembro-me do professor Darvino Concer dizendo que a linguagem que utilizamos é como o traje que vestimos. Não seria adequado ir à praia de terno e, tampouco, comparecer a um jantar de gala trajando sunga.
Ao observar a letra do rap, você conseguiu identificar se existem redondilhas ou dodecassílabos? A qual escola literária ela pertence? Há coesão? Quantos predicados verbais e nominais existem? Será que podemos iniciar a oração com próclise (na norma culta, é claro)? Quais são os complementos nominais? Você consegue apontar as orações coordenadas e as subordinadas? Existe voz passiva? Embora possa estar enganado, não me lembro de ter visto palavras tão chulas nos processos seletivos de USP, Unesp e Unicamp, as mesmas que integram o convênio mencionado pela reportagem.
A língua deve ser muito dinâmica mesmo. Até o MEC está aprovando livros didáticos que ensinam a norma popular para o uso da concordância. "Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado." Defendem que a norma culta não é a "língua viva". E, por conta desse e de outros argumentos, o ensino vai ficando cada vez mais morto. Que saudades de Adoniran Barbosa e sua "tauba"!
Robson Tirotti Felipe