Eles são uma legião estimada em 20 mil pessoas que, nesta época do ano, deixam Bauru para retornar às suas cidades de origem. Jovens, extremamente dispostos e sociáveis, os estudantes universitários representam um importante nicho de mercado que, com a chegada das férias, provoca um impacto negativo na economia local.
Nos pequenos comércios instalados nos arredores de instituições de ensino, em bares, restaurantes e até mesmo no robusto setor supermercadista, a redução no faturamento já começa a ser sentida em razão da ausência destes consumidores que não possuem família em Bauru. Até a próxima semana, quando finalizarem provas e trabalhos, eles devem arrumar as malas e partir para a casa dos pais, retornando a Bauru apenas no início de agosto, quando as aulas serão retomadas.
"Entrego meu último trabalho no dia 1º de julho e, no dia seguinte, vou embora para casa, em Leme", sentencia a estudante de jornalismo Sara Sacchi e Souza, 19 anos. Recém-instalada em Bauru, ela conta que gasta cerca de R$ 1,5 mil mensais para se manter, longe da proteção paterna. Quando entra em férias, entretanto, o apartamento que ela divide com mais duas estudantes nas imediações da Universidade de São Paulo (USP) fica vazio. "Ninguém fica, todo mundo vai para casa rever pais e amigos antigos", completa.
Neste ano, Sara e os demais universitários que vivem atualmente em Bauru devem injetar cerca de 134 milhões na economia, considerando a participação estimada em 2% no potencial de consumo total de R$ 6,7 bilhões projetado para 2011, conforme a IPC Marketing Editora, responsável pelos cálculos do estudo IPC Maps. E ela é apenas um exemplo do que este segmento representa para os estabelecimentos da cidade: na média, os jovens "forasteiros" gastam entre R$ 1 mil e R$ 1,5 mil por mês com despesas diversas como aluguel, transporte, alimentação e lazer.
Ainda que costumem voltar para a casa dos pais de uma a duas vezes ao mês, são poucos os que têm o hábito de trazer comida congelada preparada pela mãe como medida para reduzir gastos. "Eu trago às vezes, mas geralmente como em restaurante ou compro as coisas no supermercado para fazer a comida na república. É mais prático", comenta a estudante de engenharia civil Lívia Toniolli, 20 anos.
Trégua
Pelo mesmo motivo, o casal de namorados Gabriela Oliveira, 24 anos, e Amauri Amaral, 22 anos, também aprendeu a cozinhar, embora ela ainda traga comida de São Carlos, onde vive sua família. Mas a dura rotina terá uma trégua a partir da primeira semana de julho, quando deixarão temporariamente de viver em república.
"Não acharia ruim ter de me virar por mais um tempo. Se a galera ficasse em Bauru, eu até ficaria ou voltaria no meio das férias. Mas todo mundo vai embora, então volto para casa (em Botucatu) e fico direto. Aproveito para rever os parentes e também para levar toda a roupa para lavar", confessa Amauri.
Além dos gastos com comida, os amigos Manoela Pane, 19 anos, Rafael Pimenta, 21 anos, Laís Marinho, 18 anos, Caio Pastana, 18 anos, têm como principais despesas o transporte e compra de bebida, já que não costumam frequentar casas noturnas e bares da cidade. "Vamos às festas de república, que acontecem durante a semana porque que muita gente costuma ir para a casa dos pais nos finais de semana. O bom de festa em república é que acaba sendo mais barata também", analisa Manoela, que veio há dois anos de São Carlos para estudar psicologia em Bauru.
Nas casas noturnas, a presença dos universitários só é garantida quando a balada é organizada por diretórios acadêmicos, segundo Rafael. "Do contrário, a gente compra o que for beber e reúne a galera na república de alguém."
Baladas não sentem ausência dos jovens
A mais tradicional forma de socialização e entretenimento dos estudantes universitários são as festas de república e, por este motivo, as casas noturnas de Bauru não sentem redução no movimento de clientes quando as férias escolares têm início. Nos empreendimentos do empresário João Cabreira, por exemplo, o mês de julho costuma registrar maior número de frequentadores do que em período de aulas.
"Isso ocorre porque os universitários que tem família em Bauru voltam para cá para rever os amigos. E, estando na casa dos pais, eles acabam tendo mais dinheiro para gastar do que os estudantes que são de fora", analisa.
Segundo Cabreira, os jovens matriculados nas instituições de ensino superior de Bauru só lotam suas casas noturnas quando as festas são organizadas por grupos estudantis das próprias universidades. "Mas não são muitas. Comigo, eles fazem apenas duas por ano", comenta.
Em contrapartida, estabelecimentos que comercializam bebidas costumam faturar alto com os jovens consumidores que participam de festas realizadas em repúblicas. "Nas férias, o fluxo cai até 40%, porque também fornecemos bebidas para alguns bares que também passam a comprar menos pela falta dos estudantes", argumenta Paulo Henrique Del Rey, gerente de um ponto de venda de bebidas instalado no Jardim Aeroporto.
O mês de julho, segundo ele, é o pior para o estabelecimento em relação a todo o ano também em função do inverno, quando o consumo de bebidas costuma ser menor. "No final do ano o nível de vendas não cai tanto por causa das festas, mas em janeiro volta a diminuir novamente, ainda que o movimento não chegue a ficar tão ruim como agora", salienta.
"Cordão umbilical"
A "debandada" dos estudantes universitários durante as férias de meio e fim de ano e até mesmo nos finais de semana demonstram que a ligação que eles mantêm com suas cidades de origem é extremamente forte. Até mesmo jovens que já são veteranos preferem não cortar o "cordão umbilical" com a família e aproveitam qualquer oportunidade para voltar para a casa dos pais, seja para matar as saudades, reabastecer o congelador com comida feita pela "mamãe", que também assume a incumbência de lavar as roupas dos filhos crescidos.
Estudante do 4º ano de psicologia, Flávia Trierweiler, 20 anos, conta que costuma retornar para Rio Claro a cada 15 dias. "Hoje, volto só para ver minha mãe. No começo, levava todas as roupas, trazia muita comida. Mas, aos poucos, fui ganhando alguma autonomia nesse sentido. Tenho vínculos em Bauru, fiz muitos amigos aqui, mas não gosto de ficar muito tempo longe de casa", argumenta.
A amiga Luciana Rique, 22 anos, entretanto, quase nunca consegue rever os pais, mas não por falta de vontade. "Eles moram em Santo André, então fica meio longe e caro. Acaba não valendo a pena, para ficar um dia só. Então volto só nas férias mesmo", comenta.
Também veterana, a estudante Larissa Saia Morotti, 21 anos, já se considera mais independente dos pais do que quando começou a frequentar o curso de biologia, embora ainda tenha o hábito de visitar os pais ao menos uma vez por mês. Nas férias de julho, pelos compromissos assumidos em um estágio, pretende passar apenas duas semanas em Batatais, sua cidade de origem.
"No início, era muito ruim ficar longe, voltava a cada 15 dias para casa. Com o tempo, você vai assumindo compromissos e vínculos de amizade que acabam te prendendo em Bauru. A cidade é ótima para os universitários e dá para aproveitar bastante as festas", avalia.