09 de julho de 2026
Articulistas

Fabricação da escassez e da fome

Iolanda Toshie Ide
| Tempo de leitura: 3 min

Setenta a 80% da renda de trabalhadores que percebem salário mínimo são gastos com alimentos. A disparada dos preços dos gêneros alimentícios significa comprometimento da saúde e sofrimento, cujo trabalho exige mais proteínas e calorias. Não faltam os que apregoam a escassez de alimentos como principal causa da carestia. É verdade que, em algumas regiões, os agrocombustíveis substituíram as lavouras de grãos e hortifrutigranjeiros. É também verdade que as mudanças climáticas estão a ameaçar a produção de alimentos, assim como os preços dos insumos e a alta do petróleo. Mas, por enquanto, não faltam alimentos no mundo, mas sobra especulação.

O que salta aos olhos: os preços é que estão se tornando proibitivos, o poder aquisitivo é que está minguando diante da disparada dos preços. A escassez é a muleta de que se servem os ruralistas em busca de arrancar mais recursos públicos. Um exemplo que pode ilustrar quão incongruente é a alegação de escassez é o da carne cuja produção o Brasil é não só auto-suficiente quanto um dos principais exportadores. Cada vez menos a camada popular pode ingerir esse alimento de superlativa produção.

Um expediente de que governos sempre se utilizaram para conter os preços era o de estoques reguladores. Os que apostavam na bolsa de cereais xingavam e esperneavam, mas era possível conter a carestia. Em tempos de neoliberalismo, esses estoques se tornaram heresia. Então, não há quem controle: o Estado abriu mão de seu papel. Os alimentos caíram na ciranda financeira e, com a crise iniciada em 2008, os especuladores se aproveitaram. Embora tenha havido quebra de safra de soja na Argentina e açúcar na índia, a FAO afirma que não houve e não há falta de alimentos no mundo, pelo contrário.

A China é sempre citada, mas sua produtividade é maior do que o aumento de consumo e que o crescimento populacional. O exemplo do México é emblemático. Pioneiro na adesão à área de Livre Comércio, jogou a população indígena e mestiça à fome. O milho, base da alimentação indígena (Hombres de Mays), foi utilizado para geração de etanol. até mesmo o milho branco, que tivera promessa de não ser atingido. Os alimentos não são mais produzidos para o consumo da população, mas tornou-se objeto de troca, pior, objeto de especulação.

A Bolsa-Família amenizou em parte a pobreza no Brasil, diminuindo sensivelmente a fome de multidões. Exitosa, a ONU tomou como modelo mundial. A fome não era por escassez de alimento, mas por falta de acesso, por falta de poder aquisitivo. A destinação de 30% dos recursos da Merenda Escolar para a compra de alimentos in natura (produzidos na própria região pela agricultura familiar) é uma medida das mais sábias, se cumprida, diminui o poder dos lobbies das indústrias de alimentos. Propiciaria, na prática, uma educação alimentar, justamente nesses tempos em que indústrias produzem alimentos que encaminham à aumento de colesterol, obesidade e outros comprometimentos à saúde. Soberania alimentar, acima de tudo.

A autora, Iolanda Toshie Ide, é colaboradora de Opinião