09 de julho de 2026
Regional

Família Paschoalinotte ?bordou? história no couro

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

A família Paschoalinotte é a responsável por Pratânia ser conhecida como a cidade do couro na região e em todo o País. Desde 1934 eles fabricam artigos em couro. Começaram com o ?botinão? para trabalho na lavoura, passaram para as botas estilo cowboy e hoje dominam também a confecção de roupas.

Abilio Paschoalinotte, 68 anos, conta com alegria como tudo começou. "Meu pai é filho de imigrante italiano, trabalhava na lavoura de café, mas sofreu um acidente e perdeu a visão de um olho. Ele não podia mais trabalhar na roça por causa da poeira. Meu avô o mandou para São Manuel aprender um ofício. Ele foi ser sapateiro."

Em 1934, montou uma pequena sapataria para ganhar a vida. "Ele fabricava botina de serviço para trabalhar na roça de café. Se casou, formou família aqui mesmo. Teve quatro filhos. Eu sou o primeiro dos homens. Tem duas mulheres antes de mim. Desde criança, acompanhei o trabalho dele, aprendi muito. Aos 11 anos, já fazia os ?botinões?."

Na hora de decidir entre os estudos e a profissão, Abílio optou pelo ofício. "Fiz o curso primário e fui ser sapateiro. Por muito tempo fabriquei as mesmas botas, mas os filmes de cowboy da época me inspiraram a criar um novo modelo e a mudar o público alvo."

A primeira criação no estilo cowboy tinha o número de Abílio, afinal era para ele mesmo. "Meus amigos gostaram e outras pessoas também. Comecei a fazer mais uma, mais outra. Virou uma febre na década de 60. A sapataria, antes frequentada apenas por trabalhadores, começou a receber os fazendeiros da região, que queriam um calçado diferenciado. Mudamos a clientela."

Ele lembra com saudade que o pai não acreditava muito em sua criação. "Foi difícil desvincular-se dos botinões. Meu pai não acreditava muito, mas como aumentou a procura, ele soltou as rédeas. Nesse período, ele teve outros problemas de saúde e a sapataria ficou por minha conta."

Nessa época, o empresário viajava de ônibus para Bauru, Jaú, Avaré para buscar mercadorias e fazer o negócio crescer. "Na época, eu adquiria couro, cola e artigos para confecção de botas na Casa Sampieri. Tinha que pegar ônibus até São Manuel e de lá para o meu destino."


Sapataria virou loja

Um sapateiro que se apaixonou pela filha de um fazendeiro de café em 65, transformou a sapataria em um loja de confecção em couro que está prestes a se tornar uma franquia nacional. Este é o resumo da mudança.

"Minha esposa era filha de fazendeiro de café e eu, sapateiro. Fui até o pai dela para pedir licença para namorá-la e fiquei surpreso. Estava acanhado porque era sapateiro, mas naquele tempo o trabalho tinha muito valor. Meu sogro passava pela sapataria e me via trabalhando. Eu falei quem eu era meio envergonhado. Ele aceitou e disse que sabia que eu era trabalhador", relembra o empresário Abílio Paschoalinotte.

Depois do casamento, a mulher do empresário que sabia costurar, decidiu arriscar e fez um casaco para ele enfrentar o inverno, que à época durava mais tempo.

"Ela costurava porque naquele tempo não tinha tantas roupas prontas no mercado. Fez um casaco de couro para mim, ficou usável. Eu deixei o casaco na sapataria e um engenheiro viu e gostou. Pediu para fazer um para ele, igual ao meu. Quando avisei minha mulher, ela disse que não sabia fazer, mas acabou aceitando a incumbência. Fez um, mais um e assim nasceu a confecção em couro."

As blusas de frio em couro ganharam espaço entre os moradores da região que iam até Pratânia buscar o casaco masculino. A sapataria ficou pequena e construímos a loja e a fábrica. Nos anos 80, tivemos 120 funcionários, mas os sucessivos planos econômicos nos obrigaram a terceirizar a mão de obra e reduzir custos. Nessa época meu concorrente mais próximo estava em Caxias do Sul ou em Andradas, em Minas Gerais. Eu dominava o mercado de confecção em couro na região."

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Couro de Pratânia está na 3ª geração


Abílio Paschoalinotte Jr, atual administrador da empresa que tornou Pratânia famosa pela confecção em couro, faz parte da terceira geração dos imigrantes italianos que se dedicaram ao setor. Formado em administração de empresas, ele continuou o negócio fundado pelo avô e deu um toque de modernidade. Agora, está partindo para a franquia.

"Fabricamos em média 200 peças/mês, em torno de 2.400/ano. Nas nossas lojas o consumidor encontra desde chaveirinho até artigos de decoração, passando por todo tipo de calçado masculino e feminino. Há botas no inverno e sandálias no verão. Tem bolsas femininas e pastas executivas, uma variedade grande de itens."

Para acompanhar as tendências, Júnior não perde de vista os lançamentos europeus. "Um ano antes, a Europa lança as tendências que farão sucesso no inverno. Nós acompanhamos a trajetória da moda. Há ainda, as novelas que ditam determinados modelos usados pelos atores."

Segundo ele, as jaquetas curtas são as vedetes do inverno feminino, enquanto que as que lembram aviador ocupam o espaço na ala masculina. "Este ano os tons de marrons estão sendo mais procurados o preto, campeão em vendas."

Júnior enfatiza que este ano o frio está surpreendendo. "Há quase 10 anos não tínhamos um frio tão prolongado. Este ano está atípico. Não conseguimos suprir a demanda. Estamos trabalhando a todo vapor."

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Frio impulsionou a criação da 1ª creche

Abílio Paschoalinotte, hoje aposentado, conseguiu criar seus filhos e se fez profissionalmente na cidade de Pratânia. Ele queria retribuir tudo o que a cidade tinha lhe dado, esperava uma chance. A primeira casa em que morou com a família estava desocupada e ele teve que transportar os trabalhadores rurais para o seu sítio. "A madrugada estava fria e eu percebi que algumas mulheres carregavam seu filhos no colo."

Quando retornou para casa, já em São Manuel, o empresário conversou com a mulher e decidiu criar a primeira creche da cidade. "Para não deixar mais as crianças no frio enquanto os pais trabalhavam. Procurei amigos e, em 1993, inauguramos a creche."

Atualmente, o local acolhe o Núcleo de Atendimento Social Angela Martins Basseto. "Hoje não é mais creche. Atende crianças e adolescentes de 7 a 15 anos. A prefeitura tem a creche municipal. São 130 jovens atendidos. A entidade é presidida pelo meu filho, Abilio Jr.