Vontade de voar
Olhos brilhando, corpos tencionados de concentração e posturas eretas. Aquela respiração profunda antes de iniciar a corrida e ... lá vão eles cortar os ares com mortais duplos, carpados, grupados e o que mais o impulso e a coragem permitir.
E é justamente a possibilidade de voar acrobaticamente que chama a atenção dos pequenos que escolhem a ginástica artística como esporte. Em Bauru, o Ginásio Municipal "Guilherme Dal Coletto", na Vila Industrial, é sinônimo de parque de diversões para as 100 crianças que praticam a atividade gratuitamente.
Rayane da Silva Soares, 9 anos, e Thiago Felix, 10 anos, pertencem à turma que aprendeu a ver o mundo de cabeça para baixo. Eles treinam, diariamente, das 14h às 17h30, com o objetivo de voar cada vez mais alto.
"Nunca pensei em fazer outra coisa porque eu sempre quis ser ginasta. Passar a tarde treinando é minha maior diversão", conta Thiago, que pratica o esporte há um ano e meio e já participou de cinco campeonatos. "Tenho até medalha em casa", acrescenta, orgulhoso.
Ser ginasta profissional também é o sonho da pequena Rayane, que, diariamente, sai do Jardim Flórida, acompanhada de sua mãe, e percorre cerca de 11 quilômetros até chegar ao ginásio. Ela tem contato com o esporte desde os cinco anos, quando morava em Ribeirão Preto, mas teve de abandonar a prática por causa da mudança de cidade.
"Agora que descobrimos que tem ginástica artística aqui em Bauru, faço questão de trazê-la. É um orgulho para mim ver que ela gosta e tem talento", afirma Vanessa Kelly da Silva, mãe e maior incentivadora de Rayane que, enquanto a filha treina, aproveita para estudar nas arquibancadas do ginásio.
Mas Rayane, Thiago e as outras crianças que praticam ginástica artística aprendem coisas que vão muito além de saltos e acrobacias que exigem coragem e flexibilidade. Sob os olhos atentos e rigorosos do professor Genivaldo Silva, mais conhecido como Massa, as crianças têm de andar na linha.
"Nos treinos, priorizo o aspecto educacional. As crianças aprendem que é fundamental existir respeito entre eles. Além disso, desenvolvem a coordenação motora, o companheirismo e a responsabilidade de acordo com a idade e evolução de cada um", explica o técnico que, apesar da cara de bravo, faz sucesso entre as crianças.
"Ele não é bravo não... pelo contrário, é um ótimo treinador", elogia Rayane.
Se eu fosse um peixinho...
Eles chegam tímidos, com roupa de banho e enrolados em toalhas, tentando escapar do frio típico das manhãs de inverno. Sentam na borda da piscina e, basta um comando da professora para que a farra comece e a timidez... o que é timidez, mesmo?
Aos poucos, eles pulam na água aquecida das piscinas da hípica e percebem que valeu a pena sair debaixo do cobertor para ir para a aula de natação, oferecida gratuitamente pelo Projeto Futuro, em parceria com a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel) na Sociedade Hípica de Bauru, no Jardim Ferraz.
Entre uma turma e outra, de segunda à sexta-feira, mais de mil crianças de diferentes bairros da cidade participam das aulas de natação e polo aquático. Um ônibus a serviço do projeto busca cada criança em sua casa, leva para a aula, e, depois, no fim do treino, a entrega novamente em sua residência.
"O objetivo é estimular estas crianças a se tornarem atletas de alto rendimento. Por isso, o contato delas com o esporte logo na infância é fundamental", afirma Daniel Pestana, coordenador da natação.
Segundo ele, o esporte se difere bastante dos outros e dificilmente chega à periferia porque exige estrutura, como piscinas adequadas e técnicos especializados.
"Portanto, promover o acesso das crianças à natação e ao polo aquático é fundamental. Muitas delas, são talentos a serem garimpados", aponta.
Além disso, ele explica que a natação faz bem para a postura, ajuda na disciplina e combate doenças, especialmente respiratórias.
Maria Eduarda da Silva, 6 anos, começou a frequentar o projeto há 3 meses e conta que, mesmo com o frio, nunca falta à aula.
"Eu gosto muito de nadar. Na minha casa não tem piscina e eu adoro piscina", conta, cortando conversa, doida para pular na água.
Correndo para o futuro
Nem o sol quente, nem a estrutura precária e muito menos a falta de equipamentos básicos, como tênis adequados, desanima Alcides dos Santos Gonçalves, 72 anos, conhecido como Cabo Alcides, e seus alunos de atletismo. Prova é que, de segunda, quarta e sexta-feira, logo cedo, o Campo do Oriente, no Jardim Petrópolis, já tem uma movimentação que só vendo.
Nesses dias, cerca de 60 crianças aprendem técnicas de atletismo e valores que, certamente, vão levar para toda a vida, como o respeito, a disciplina e a paixão pelo esporte. Nos outros dias e períodos, o Cabo também dá aulas. Mas para outras turmas, em outros bairros.
O grupo, composto por meninos e meninas de 8 a 14 anos, vê Alcides como ídolo. Basta um comando de sua voz para que todos fiquem em silêncio e ouçam, com atenção, as orientações do treinador.
"Presta atenção, garotada! O Jornal da Cidade está aqui para cobrir o trabalho de vocês porque vocês merecem. Portanto, vamos fazer bonito! Depois, tem medalha!", incentiva Alcides.
O treino começa com aquecimento, composto de corrida e alongamento. Depois, passa para a parte de obstáculos. E, quando se imagina que está chegando no fim, na verdade, está só começando. Alcides é exigente. Os alunos, por sua vez, não estão nem um pouco cansados.
Com os pés descalços e vermelhos por conta da areia, Graziele da Silva Bastelli, 10 anos, se esforça ao máximo para acompanhar os colegas. Ela mora algumas quadras para baixo do Campo do Oriente, onde as aulas acontecem, e vai para o treino a pé, acompanhada do irmão mais novo, de 8 anos.
"Eu quero ser professora de educação física para, um dia, dar aula igual ao Cabo. Acho muito legal o atletismo porque tenho problema de coração e a prática fortalece minha saúde. Se eu não viesse aqui, ficaria em casa, vendo televisão", afirma.
Adiel da Silva Rodrigues, 12 anos, pensa como Graziele. Ele começou a praticar atletismo há dois anos e já participou de diversas competições. Junto com outros três amigos, ele lidera o treino.
"Antes de conhecer o atletismo, eu só jogava futebol. Hoje, até prefiro o atletismo. O fortalecimento que eu consigo nos treinos é muito bom e me ajuda muito na hora de jogar bola", explica, acelerando o passo para não receber bronca do treinador.
Força e garra de tigre
Kung Fu é o esporte predileto do panda Po, do filme Kung Fu Panda, de Dre Parker (Jaden Smith), do filme Karatê Kid, e também de centenas de crianças que frequentam a Associação Garra de Tigre de Kung Fu/Semel, no Núcleo Presidente Geisel.
Sob o comando o professor Richard Leutz e apoiados pela Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel) os pequenos desenvolvem habilidades motoras, disciplina, flexibilidade e muita resistência.
"Mas não é tão pesado... eu fico só um pouco suada", explica a pequena Amanda Fernandes Menezes, de 7 anos, que pratica kung fu tradicional há um ano.
Ela conta que decidiu se dedicar ao esporte quando tinha cinco anos quando, em uma noite, sonhou que um dia seria professora de kung fu.
"Então eu pedi para minha mãe me colocar na academia e estou até hoje! Treino bastante para ser professora um dia. Muitos dos meus amigos nem acreditam que eu faço kung fu. Eles acham que é muito difícil. Agora que vai sair no jornal, eles vão acreditar", comemora, animada.
As amigas Ileana Louzano, 10 anos, e Ana Caroline Oliveira, 11 anos, também praticam o esporte. Elas optaram pela modalidade Sanda, que tem mais contato físico e movimentos baseados em chutes, socos e quedas.
"Mas não é perigoso, não. Qualquer criança pode fazer e o professor está sempre por perto. Além disso, faz um bem enorme para a saúde. Pratico há um ano e já senti uma grande diferença no meu preparo físico", conta Ileana, que já foi aprovada no primeiro exame de graduação. "Já tenho uma estrela", orgulha-se.
Richard Leutz conta que a exposição de personagens de filme que praticam kung fu faz aumentar em 100% a procura de crianças pelo esporte, contudo, é preciso adequar o treinamento à realidade.
"É um esporte indicado para pessoas de qualquer idade, o que muda é a intensidade do treinamento. No caso das crianças, a prática se torna até mais fácil, já que elas têm grande flexibilidade e facilidade no desenvolvimento da coordenação motora", explica.
Bola cheia
O esporte pode mudar a vida de uma criança. Esta frase, considerada por muitos um clichê, assume seu real sentido quando se trata das amigas Aline Silveira de Moraes e Francine Costa Monteiro, que trabalham como voluntárias pela Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel) dando aulas de handebol no Centro Social Urbano (CSU), localizado no Jardim Bela Vista.
Elas começaram a praticar o esporte quando ainda eram crianças, também por uma escolinha da Semel. Com o tempo, incentivadas pela técnica, decidiram estender a oportunidade que tiveram para crianças de comunidades carentes, trabalhando como voluntárias.
E tem dado certo. Todas as quartas-feiras, cerca de 30 crianças de diversos bairros da cidade pulam da cama cedo e vão para o CSU treinar.
Felipe Mozer, 12 anos, mora no Parque Santa Edwirges e não perde uma aula. Acompanhado de alguns amigos, eles vão ao treino à pé, e se esforçam para jogar bem.
"Gosto muito de handebol e já aprendi várias técnicas e regras com as professoras. Acho que sou bom na defesa, mas prefiro ficar no ataque", conta.
Aline e Francine contam que, de quando começaram a dar aula, já notaram mudanças positivas no comportamento dos alunos.
"Eles estão mais concentrados, mais obedientes e dedicados. E o retorno de nosso trabalho é esse. Mais importante que qualquer aspecto financeiro é saber que, em algum momento, você fez a diferença na vida de alguém", opina Aline.
Fome de bola
O Brasil é o país do futebol. E o futebol, o esporte que faz o coração de milhares de garotos de diversos bairros de Bauru bater mais forte. Com o sonho de se tornar um craque do esporte que tem nomenclaturas como escanteio, tiro de meta e o famoso gol, meninos e meninas, encaram o sol a pino e a terra vermelha, comem poeira dão um show de bola nos campinhos e várzeas da cidade.
O reflexo dessa paixão é perceptível nos programas de incentivo à prática de esportes que a Secretaria Municipal de Lazer (Semel) oferece. Enquanto modalidades como handebol, basquete, tênis de mesa e atletismo têm apenas alguns pontos estabelecidos para a prática, as escolinhas de futebol estão espalhadas por quase toda cidade.
Um desses lugares, é o distrital Waldemar de Brito, na Vila Nova Paulista. Ali, além de meninos com sonhos, é possível encontrar verdadeiras histórias de amor. Uma delas é a do técnico Jair Sanches, 49 anos. Apaixonado por futebol e por crianças, ele concilia o trabalho de segurança, que desenvolve durante a noite, com o treino da molecada, que ocorre durante a manhã e a tarde. E o mais impressionante: sem ganhar um centavo por isso.
"Sou voluntário e ensino a molecada a jogar bola porque gosto. Minha gratificação vem de outra forma: recebo meu salário quando uma mãe me para na rua e diz: ?Oi, Jair, meu filho é seu aluno e adora o futebol!?", conta, orgulhoso.
O trabalho que Jair desenvolve na escolinha vai além do fato de ensinar técnicas para os meninos. Isso porque ele assume também o lado social da história.
"Quando acontece de algum deles se envolver com droga e eu fico sabendo, faço de tudo para mudar essa história. Me sinto na função de pai desses meninos", afirma.
Nesta história, a Semel sede o campo do distrital, por sinal, bem precário, e Jair e seus auxiliares providenciam todo o resto. Inclusive, as chuteiras e uniformes, se for necessário.
Já o penteado, fica por conta dos meninos mesmo. E a maioria, com todo o estilo, exibe a cabeleira a la Neymar.
"Sou santista e, um dia, quero ser craque como o Neymar. Só que no gol, claro!", afirma o aspirante a goleiro, João Vitor Delgracias, de 10 anos.