08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Uma ridícula imortalidade


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Agora, em ritmo mais acelerado ainda, em contraste com o mesmo ritmo de tempos idos, tudo, porém, em direção ao ridículo da acepção do adjetivo. O corporativismo reinante no seio redacional das grandes corporações noticiosas exige que calem a boca e suas cabeças jazem inertes à voz assombrada do silêncio sepulcral. Inúmeras cabeças, entretanto, sentem cócegas nos dedos e não titubeiam para denunciar o ridículo e então sapecam um súbito bofetão em forma de pergunta. Por exemplo, a colunista Márcia Denser, no seu primoroso texto "O clubinho dos mervais", conclui com a demolidora pergunta: "Aos 25 votantes do merval (no minúsculo mesmo): vocês não tem vergonha?". Essa pergunta foi dirigida aos "marmanjos" "octo" e nonagenários que desfilam com seus fardões como imortais fossem, sorvendo o chá da longevidade...

Para quem está chegando agora, Merval Pereira, colunista do jornal "O Globo", que supomos estar em júbilo incontido, submeteu-se ao travestir-se com a tal indumentária fantasiosa e tomou posse numa das cadeiras da casa de Machado de Assis. Tornou-se mais um "imortal"da Academia Brasileira de Letras que, salvado as praxes, imagina-se aquinhoado pela autoria de um único livro escrito a quatro mãos em 1979 e outro livro mais recente que nada mais é do que uma compilação de seus "atucanados" textos publicados no jornal em que é assalariado. Luis Nassif, igualmente autor do primoroso texto sobre o mesmo assunto, afirma que a ABL "demonstrou pequenez não propriamente dela, mas de uma certa elite superficial brasileira, provinciana, atrasada". Merval Pereira, o colunista agora "imortal", "concorreu" com nada mais nada menos que Antônio Torres, escritor que, através de seus livros, ajudaram o Brasil a ser mais conhecido por leitores da Itália, Argentina, México, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Portugal, Bélgica, Holanda, Israel, Bulgária. Dois de seus livros -"Um taxi para Viena D?Áustria" e "Essa Terra" foram traduzidos na França e em 1999 o governo francês outorgou-lhe o título de "Cavaleiro das Artes e das Letras". De pouco adiantou o gabarito intelectual de Antônio Torres. Teria, de sobejo, condições oceânicas de distinguir-se em ambiente onde a seriedade de futuros decréptos deveriam imperar. Nassif diz: "O que esteve em jogo foi o poder proporcionado pela Rede Globo, cujo espaço certamente abastece o ego de seus pares e vem de encontro às demandas da dita Academia".

Merval - um bom jornalista - poderia até ganhar prêmios jornalísticos -c omo tem ganho, jamais a maior condecoração da literatura brasileira. Longe de Merval a ousadia de recusar tamanha láurea a exemplo de atores e atrizes norte-americanos que ao serem laureados com o "Oscar", recusam o troféu em nome de causas justas e perfeitas. O arquear continua sendo o verbo conjugado pela ABL tal qual arqueava-se nos tempos idos em que o "poder era o general Lyra Tavares, Getúlio Vargas e Roberto Marinho".

Nicanor Amaro da Silva Neto