08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Os lembrados e os esquecidos


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Percebi que tem um prédio grande sendo construído perto do extinto prédio do Ministério do Trabalho. Ali, onde alguns já apelidam como sendo a "cracolândia" de Bauru. Ali, no lugar dos esquecidos. Dos indivíduos esquecidos e esquecedores da sua própria existência, entregues às drogas. Da malha ferroviária, que não porta mais serventia alguma para a cidade. Tudo na cidade vai juntando ali, à beira de tudo. Na periferia. À beira da atribulação daqueles que tem mil afazeres e importâncias na vida. Estes, pelo contrário, gostam mesmo é de ser lembrados. Lembrados por aqueles que gostam de ser lembrados, também.

Os esquecidos (por sua vez) que possam continuar esquecidos de si e dos outrens que gostam de ser lembrados. "Não ocupem o meu espaço", diria um indivíduo que gosta de ser lembrado para um indivíduo esquecedor. Pois bem. O prédio que está em construção me faz pensar o porquê de o Judiciário não estar ocupando um espaço dos esquecidos na cidade. Ou um espaço na periferia da cidade. Nesses espaços periféricos, há muitos esquecidos. E terrão. E rua com esgoto a céu aberto. E rua por onde carros não passam. Sabe, uma rua dessas em que o asfalto ainda não chegou? O pessoal ficou esquecido lá. A rua perdeu o seu sentido, de rua. É uma rua esquecida.

O preço do terreno é bem mais barato lá. Investindo menos em terrenos luxuosos nos espaços da cidade onde moram e pensam os lembrados, a justiça poderia devolver aos cofres públicos uma boa importância para que fosse aplicada em espaços públicos, saúde, educação e cultura. Para os esquecidos. Os ilustrados (que desde as épocas do Império Romano procuram segregar com suas rebuscadas palavras e os seus termos em latim, inacessíveis aos homens comuns) teriam, então, que escancarar as portas para o povo.

Os esquecidos. Não mais à beira de tudo, mas ao lado dos lembrados. Cobrando explicações e conhecimentos. Citando Fernando Sabino, querendo saber por que a lei "dura lex, sed lex" para os esquecidos e "dura lex, sed latex" para os que são lembrados. A ideia da prefeitura de revitalizar a estação ferroviária é excelente. Ao mesmo tempo, estranho foi o recuo do Legislativo em ocupar uma parte da estação. Serão somente motivações de ordem espacial e logística? Ou alguns membros estão receosos de ocupar aquela área, temendo os esquecidos, que por ali perambulam, dormem, usam drogas? Estão com medo de que um destes ocupem um assento na sessão solene da câmara e peçam a palavra, "quebrando o protocolo"? Espaços e cidade. Os que se lembram e os que esquecem. Somos artífices disso tudo.

Bruno E. Sanches