Com a morte de Itamar Franco, perde o Brasil um dos seus grandes homens públicos, que fez de sua participação na vida política nacional uma profissão de fé na ética, na disciplina e nas atitudes voltadas unicamente ao interesse público. Em sua curta passagem pela presidência da República, criou condições para que o Brasil fosse conduzido bem distante dos escândalos de corrupção que hoje somos obrigados a conhecer em quase todos os dias. Ainda hoje, logo após sua morte, assistimos ao afastamento de quase toda a cúpula do Ministério dos Transportes, por suspeita de fraudes e superfaturamento de obras. Durante seus quase três anos de governo, em substituição ao presidente Collor, cassado pelo Congresso, Itamar deu exemplos de dignidade e de conduta ilibada à frente do governo. Durante seu mandato presidencial, pelas mãos de seu ministro Rubens Ricúpero, foram realizados os primeiros ensaios do Plano Real.
Infelizmente, o acaso pegou esse ministro no contrapé, durante uma entrevista na Globo News, ao jornalista Carlos Monforte. Uma indiscrição durante o intervalo foi captada pelos microfones da emissora e Ricúpero foi envolvido em uma trama política que terminou com seu afastamento e a passagem de Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Fazenda. No entanto, a continuidade da aplicação do Plano Real seguiu em frente, e a estabilização da economia nacional, bem como o fim da inflação galopante que seguia na faixa dos 50%, definiu o acerto das medidas adotadas por Itamar.
Além de presidente da República (1992 a 1994), foi governador de Minas Gerais, exerceu o mandato de senador por 16 anos, tendo sido prefeito de Juiz de Fora em dois mandatos. Ocupou os cargos de embaixador do Brasil na Itália, em Portugal e na Organização dos Estados Americanos. Nasceu em um navio, no trajeto entre o Rio de Janeiro e Salvador, e ficou órfão muito cedo, o que lhe proporcionou uma infância pobre. Ajudou a mãe na entrega de marmitas e, mercê sua persistência nos estudos, formou-se em engenharia pela Escola de Engenharia de Juiz de Fora.
Além de ter sido o principal responsável pela implantação do Plano Real, Itamar Franco assinou ainda a Lei dos Genéricos e a Lei Orgânica da Assistência Social, principio básico para o combate à fome, trabalho esse realizado através do sociólogo Betinho. Esta lei, que em governos seguintes obteve várias designações, até desaguar na Bolsa Família, Bolsa Escola e outras tantas, foi produto da visão social deste brasileiro que não se prendia a bravatas diante dos holofotes, sempre levando a sério suas atividades como político voltado às camadas sociais menos favorecidas.
Itamar Franco deixa um grande exemplo como homem público. O difícil no Brasil de hoje é encontrar seguidores na atual classe política do país, quase sempre envolvida em manobras escusas e pouco edificantes. Nos falar lembrar o discurso de Marco Antonio, em "Julio Cesar", de William Shakespeare: "Aqui está um César! Quando aparecerá outro?
O autor, Carlos Pinto, é jornalista