Neste final de semana passado, quando me dirigia à Festieco no Recinto Melo Morais, onde expusemos uma das linhas de nossa produção (aliás, parabéns à organização da feira!), um motociclista parou ao lado de minha moto e perguntou se a temperatura dela subia muito, pois a dele estava marcando 82ºC no mostrador. Percebi nele um desconhecimento que pode ser comum a mais pessoas e decidi escrever aqui sobre o assunto.
Na verdade, respondi rapidamente a ele (pois estávamos parados no farol) que sua Hornet nova estava em ordem, que era normal o motor trabalhar nesta temperatura e que cairia quando estivesse andando mais rápido, com maior refrigeração. Ele seguiu em frente mais calmo e aliviado.
Em detalhes, o que ocorre com o motor é o seguinte. Imagine o motor frio, que passou a noite toda desligado. Todos seus componentes estão frios e contraídos, portanto todas as folgas internas serão máximas. Como o motor é projetado para funcionar quente, já que sua combustão interna gera muito calor e tudo fica aquecido, é de se esperar que as peças internas como pistões, anéis, bielas, bronzinas, válvulas, eixos, bloco, cabeçote e todos os demais componentes sofram dilatação térmica, diminuindo assim sua folga de montagem. Para evitar o engripamento, ou seja, que uma dilatação excessiva possa travar os componentes que deveriam se movimentar em conjunto, é feito um resfriamento no motor.
Este resfriamento pode ser feito pelo ar ou por meio líquido, este bem mais eficiente. Os antigos motores VW a ar eram assim chamados pelo seu sistema de refrigeração, onde o ar forçado circulava pelas aletas externas dos cilindros. Motos de baixa e alta cilindrada e motores mais tradicionais ainda usam o sistema de refrigeração a ar, hoje bem mais evoluído. Mas sem sombra de dúvidas, um motor refrigerado a água é muito mais eficiente devido à sua maior capacidade de troca térmica.
Uma grande vantagem deste sistema é o uso de radiador, bomba d?água, ventoinha e válvula termostática. Este sistema permite que o motor frio se aqueça muito mais rápido fechando a válvula termostática, fazendo com que o líquido refrigerante recircule internamente dentro do motor (portanto sem passar pelo radiador) até atingir uma temperatura em torno de 92 a 96ºC, ideal para o funcionamento do motor e a manutenção de suas folgas internas ideais como expliquei anteriormente. Para que esta temperatura não exceda os limites de projeto, a válvula termostática começa a abrir gradativamente, permitindo a circulação do líquido refrigerante pelo radiador e admitindo líquido mais frio, para resfriar o motor. Desta forma, a temperatura média interna se mantém dentro dos parâmetros ideais.
Lembre-se que a água ferve a 100ºC na pressão ambiente, mas quando pressurizado esta temperatura de ebulição aumenta, como em uma panela de pressão caseira (por isso que ela cozinha o feijão mais rápido). No caso do sistema de refrigeração do motor, não temos apenas água pura, mas uma solução com um aditivo anticongelante que além de evitar o congelamento em temperaturas abaixo de 0ºC ainda permite que a temperatura de ebulição suba para 115ºC, dando mais folga para o sistema. Como sempre lembro, em mecânica não podemos desrespeitar duas leis: as de trânsito e as da Física. E em se tratando de motores e máquinas térmicas, quanto mais quentes trabalharem, mais eficientes serão.
O radiador é parte fundamental neste sistema, pois na verdade o fluido passa por tubulações da sua colmeia, interligados por aletas. O ar frontal do veículo em movimento, ao passar pela colmeia o resfria, trocando calor com ele. O líquido resfriado é empurrado pela bomba d?água de volta para o motor e completa o circuito de refrigeração.
Quando o veículo estiver andando devagar no trânsito ou mesmo parado, a temperatura tende a subir e isto é normal, pois não há ar frontal no radiador. Ao chegar a determinada temperatura crítica, para evitar que suba demais, um sensor térmico aciona a ventoinha que forçará ar a passar pelo radiador, promovendo o resfriamento. Isto é normal e previsto, e se o sistema estiver perfeito não haverá nenhum problema. Mas se a temperatura subir até a faixa vermelha, desligue o motor antes que ferva. Espere esfriar e chame seu mecânico de confiança.