09 de julho de 2026
Cultura

"A Ausência que Seremos"

Ubiratan Brasil, Enviado especial
| Tempo de leitura: 4 min

O escritor colombiano Héctor Abad vive perseguido por uma obra, de sua própria lavra, "A Ausência que Seremos", lançada agora pela Companhia das Letras. Trata-se do comovente relato de seu amor pelo pai, médico que combatia a miséria e que foi assassinado por paramilitares em 1987.

"Lancei o livro em 2006 com a intenção de fechar uma ferida, mas, desde então, sou obrigado a falar sempre sobre esse texto, como se fosse o único que tivesse escrito", disse Abad, preparando-se para a mesa que terá amanhã, na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, ao lado da também colombiana Laura Restrepo.

Ao costurar um paralelo entre passado e presente, Abad consegue tratar de política a partir da vida privada. Afinal, narra detalhes do cotidiano de um pai dedicado e comprometido com causas sociais em um momento em que a Colômbia travava um violento confronto contra os cartéis do narcotráfico. Uma realidade poetizada.

"É muito contraditório: escrevi esse livro para me esquecer, mas ele continua vivo", conta Abad, que lamenta por não ter tido, à época do assassinato do pai, o profundo amor que sentia por ele quando menino. "Havia vários indícios de que seria morto, eu notava isso e uma de minhas irmãs não cansava de alertá-lo. Mesmo assim, não tive gana suficiente de convencê-lo a sair do país, o que poderia salvá-lo."

O doutor Abad Gómez era um fervoroso defensor dos direitos humanos, especialmente a liberdade de expressão. O filho o descreve como um homem de fortes convicções e bondade, que emprestava dinheiro a seus alunos mesmo com um salário insuficiente para manter a família. Acabou vitimado pela denúncia da guerra suja que dominava a Colômbia. Estava ciente do perigo pois, no dia em que foi morto, foram encontrados dois papéis em seu bolso: um continha uma lista de pessoas ameaçadas (inclusive ele) e outro trazia um poema assinado pelas iniciais J.L.B., que se supôs ser Jorge Luis Borges. No soneto, tragicamente intitulado Epitáfio, há um verso que inspirou o título do livro: "Já somos a ausência que seremos."

Na época, duvidou-se da autoria, pois o poema não consta nas obras completas de Borges. A busca pela comprovação inspirou Abad a escrever outro livro, "Traiciones de La Memória" (2009), que também deverá ser editado pela Companhia das Letras. O escritor teve tempo de encontrar o pai ainda com vida, caído em uma rua de Medellín, na tarde de 25 de agosto de 1987. E de sentir o calor de suas faces se esvaindo ao beijar o rosto.

"Ele sempre desejou o bem às pessoas, especialmente da família. E agora, quando tenho a oportunidade de viajar muito por conta desse livro sobre sua história, parece que é um presente de meu pai, algo que nunca pôde dar em vida", conta. "Não sou um homem fervoroso, mas acredito que quem inventou a religião o fez para celebrar a memória eterna de pais bondosos que se foram."

O escritor comenta que não permite que se leiam seus livros antes da publicação e tampouco na sua presença ("É como se eu estivesse sendo desnudado", graceja), mas "A Ausência Que Seremos" foi uma exceção. "Eu não podia publicá-lo sem a anuência de minha mãe e irmãs, que desconheciam trechos muito delicados", afirma. "Elas, então, leram os originais, se comoveram, aceitaram que tudo fosse publicado e até fizeram sugestões pertinentes, que completaram minha memória imperfeita."

A aprovação era necessária, pois Héctor Abad utilizou a escrita não apenas para retratar uma época e um homem especial, mas também para desabafar - afinal, ainda hoje não se sabe de quem partiram as ordens para o crime. "Como não consigo verbalizar totalmente meus sentimentos mais fortes, escrevo, então. Assim também acontecia quando discutia com meu pai: ao invés de me desculpar oralmente, eu lhe deixava uma carta. E isso se tornou um exercício para minha carreira de escritor."

A referência permite lembrar "Carta ao Pai" (em que Kafka desfia suas frustrações diante das atitudes paternas), ainda que do avesso - em "A Ausência Que Seremos", há um transbordamento de carinho de ambas as partes. "Cheguei a temer ser um escritor de segunda linha, pois os grandes sempre descreviam o pai de maneira penosa", brinca. "Minha escrita tornou-se mais sincera e crítica a partir da ausência do meu pai."