09 de julho de 2026
Esportes

Futebol Amador: A difícil vida de árbitro

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 7 min

Ao contrário dos outros 22 personagens que estão dentro do campo de futebol, o pesadelo de um árbitro é ser o protagonista do jogo. Manda a cartilha que a autoridade máxima do confronto passe os 90 minutos na maior discrição possível. Se o árbitro é o nome da partida é mau sinal, pois sempre o que vai chamar a atenção são os seus erros. Falhas, como de todos nós, humanas, mas incompreendidas e condenadas pela massa torcedora. Às vezes, pelos dois lados das arquibancadas. Se o time perdeu, a culpa é do juiz para muitos técnicos e jogadores (algumas vezes com razão). O certo é que a pressão sobre a arbitragem é imensa e enorme a quantidade de acontecimentos que dois olhos precisam abarcar. O resultado é que não raro o árbitro ouve impropérios, é acusado de ser ladrão e tem a mãe ofendida nos estádios.

Por que alguém se propõe a desempenhar tão ingrato papel na festa do futebol? O que leva o árbitro a deixar seu lar, se expor, ser execrado nos erros e ignorado nos acertos e, muitas vezes, acabar sendo agredido fisicamente por falhas em campo? Quem responde são os próprios "homens de preto" (hoje já se usa uniformes mais coloridos). "É uma vocação que tem que ter (para ser árbitro) e eu tenho duas mães, deixo uma em casa e levo outra para o campo", prega Benedito Braz Pereira, árbitro há 27 anos e que atualmente atua na Liga Bauruense de Futebol Amador (LBFA). "Para ser árbitro de futebol é preciso duas coisas: ter duas mães e ter coragem para ir a campo", acrescenta Cléber Francisco, que apita há 18 anos e também integra o quadro da LBFA.

Ambos não escondem que a função é desgastante. Pereira, que mora em Lençóis Paulista, relata que os amigos tentam demovê-lo de seguir nos gramados. "Hoje a pressão é grande, tem que ter saco roxo. Estou na liga já há oito anos e a turma aqui de Lençóis fala ?larga mão de Bauru?, mas a gente gosta do ?vuco-vuco? e fica. Só que, hoje, a Liga Bauruense dá um respaldo muito grande para a arbitragem e isso é importante", considera.

Francisco concorda com o colega de "calvário". "É muita cobrança. Hoje, na Liga Bauruense, com o nosso presidente Vicente Silvestre, a gente vai mais tranquilo a campo. A agressão vai acontecer, só que vai acontecer o que aconteceu com o Nova Bauru (foi eliminado do campeonato). Se a gente tiver um presidente como tem hoje, que a caneta funciona, é mais tranquilo, fica mais fácil apitar o amador", declara o árbitro, que foi eleito o melhor de Bauru em 2006, quando recebeu o Troféu Ligado.

Para Francisco, a credibilidade da arbitragem é o mais importante, além de ter o suporte da entidade para dar segurança no trabalho dentro de campo. "Tendo o respaldo, o árbitro pode até errar, mas é como o seo Vicente fala, hoje na liga não tem ladrão. A liga está em dia com a gente, não deve um centavo, e ele cobra da gente. Mas o que ele fala é que pode ir lá e reclamar da arbitragem, mas se falar que roubou, vai ter que provar. Hoje, os árbitros que apitam em Bauru não são venais. Mas que não é fácil ir para campo, não é. Tem que ter coragem e vontade. Se for pensando no dinheiro, vai apanhar todo jogo", aponta. Francisco salienta que o árbitro, além disso, tem que gostar do que faz. "Se for lá sem vontade, vai estragar o jogo, vai desagradar as equipes, o público que está assistindo e a entidade que você trabalha", decreta.

Pereira afirma que a tranquilidade é imprescindível para encarar a pressão e cobrança durante momentos críticos da partida e dá a receita que desenvolveu durante suas quase três décadas de arbitragem. "Fico sossegado, não fiz nada errado, apitei a regra", observa. Porém, é de uma sinceridade absoluta quando questionado se recomendaria a carreira de juiz de futebol. "Não, não dá", conclui.

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?Árbitro é igual um pescador: tem muita história engraçada?


Segundo Benedito Braz Pereira, "árbitro é igual pescador: tem muita história engraçada". As curiosidades começam pelo modo como os juízes iniciaram sua trajetória de fazer valer a regra e distribuir cartões amarelos e vermelhos. Cléber Francisco recebeu a "roupa preta" de herança de seu pai, Jason Francisco, ex-árbitro. "Meu pai me colocou nisso. Meu pai já era árbitro. Eu tinha 13 anos e a Liga Bauruense fazia um campeonato juvenil na época. Faltou um assistente e meu pai falou ?você vai bandeirar?. Eu não sabia nem o que era pegar uma bandeira. Ele me colocou, os colegas foram me ensinando o que era regra de futebol, depois comprei um livro, fui estudando até que em 1995 o Édson Massa (ex-árbitro) deu um curso de arbitragem que eu fiz", recorda. Pereira, antes de ser árbitro, era jogador. Uma fratura em uma das pernas abreviou sua trajetória como atleta, mas abriu caminho para o início na arbitragem. "Comecei em Lençóis, estava com 18 anos de idade, gostei da coisa e continuei. Mas não é fácil, não", reitera.

Jogo no céu?

É Francisco que relata uma história inusitada que ocorreu durante uma partida pelo Campeonato Amador Estadual, em Ourinhos, entre o Ourinhense e uma equipe de Indaiatuba. "Isso foi em 2004 e o time de Indaiatuba era de atletas de Cristo. Teve um jogador que eu fui dar uma dura e ele falou: ?professor, o senhor não pode falar assim comigo, não, porque sou atleta de Cristo". Na primeira vez eu fiquei quieto. Aí ele deu uma entrada forte e fui dar uma dura e ele falou a mesma coisa. Aí, falei: ?já que você é atleta de Cristo, eu também sou árbitro de Cristo e como o jogo não está sendo realizado no céu, você vai para p... e não me enche o saco?", diverte-se.

E a mulher do torcedor?

Pereira também tem um caso curioso ocorrido em Jaboticabal durante o Amador Estadual. "Cheguei lá e ia entrando no campo quando ouvi um torcedor do time visitante gritando: ?ô, seu corno? (além de xingar a mãe do árbitro), sua mulher está com outro?. Saí andando e falei para o cara: ?minha mulher está com outro? E a sua, está com quem lá. Você veio de longe para me xingar, e sua mulher está com quem lá??. E o pessoal do lado virou para o cara e falou ?olha o que você escutou?. E ele ficou quieto, mudou na hora", gaba-se.

O assistente emocionado

Pereira conta que em outra ocasião, mais uma vez pelo Amador Estadual, não perdeu a oportunidade de tirar um sarro do amigo, que estava na função de assistente e era estreante na competição. "Nós fomos fazer um jogo em Tupã, era Tupã contra Jaboticabal. Foi o Eduardo, o Tubaína e eu. Antes do início do jogo (vendo o assistente Eduardo sem a bandeira), perguntei a ele: você vai apitar o jogo ou vai bandeirar? Ele respondeu que iria ser bandeira. Perguntei onde estava a bandeira e ele: ?uh, ficou no vestiário?. Perguntei se ele estava bem e ele respondeu que sim. Aí brinquei: ?você está bem, está emocionado??. Já brinquei que ele estava emocionado por trabalhar em um Estadual. Ele nunca tinha ido, foi a primeira vez", lembra.

O carro salvador


Francisco festeja nunca ter apanhado em campo, mas admite que em uma ocasião foi salvo pelo carro do amigo, integrante do trio de arbitragem, que acabou tomando alguns safanões de uma equipe revoltada com o desempenho de árbitro e assistentes na Segunda Divisão da LBFA em 2008, no Padilhão. "Nunca apanhei, mas já passei apertado. Teve um time que perdeu o jogo e culpou a arbitragem. Eu só não apanhei porque me tranquei no carro do colega, mas o restante do pessoal apanhou todo mundo. Eu fui até o carro e me tranquei, cercaram o carro, quebraram o vidro e, depois, a liga teve até que pagar o conserto. Mas apanhar, apanhar mesmo, graças a Deus, não", agradece.