08 de julho de 2026
Geral

Geração Z mudará mercado de trabalho

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 5 min

Orkut, Facebook, MSN, Google, Youtube, e-mails, todos estes e muitos outros endereços eletrônicos abertos ao mesmo tempo. Celular do lado que não para de mandar torpedos, câmera fotográfica sobre a mesa para não perder um só momento, fone nos ouvidos com os sucessos musicais do momento... Quem tem filhos pertencentes à chamada Geração Z ou high-tech (leia mais na página 13), crianças e adolescentes nascidos a partir da segunda metade da década de 1990, provavelmente está acostumado com a cena descrita. Ainda sem idade para ingressar no mercado de trabalho, essa turma promete mudar o perfil das empresas principalmente por ser multitarefa, adeptos das mudanças tecnológicas e por serem difíceis de criar vínculos.

Com essa garotada é assim: enquanto boa parte dos pais tem dificuldade de adaptação às mudanças tecnológicas, eles parecem já nascer sabendo tudo sobre os programas e aparelhos mais modernos. É só uma novidade surgir e, pronto, já sabem como funciona.

Segundo José Antônio Milagre, advogado e perito especializado em segurança da informação, os integrantes da Geração Z são "nativos digitais". Nasceram na década da World Wide Web (www) e têm uma característica fundamental que é a facilidade em lidar com games, Internet e mobilidade. Tais características permitem a realização de diversas tarefas ao mesmo tempo.

Por outro lado, essas crianças têm menor poder de concentração. "Todas as características descritas, aliadas à independência, empreendedorismo, desconfiança, dificuldade em ouvir as pessoas, interesse em expor suas expectativas sobre tudo, criatividade, determinação e introversão resultarão em mudanças no mercado de trabalho.

Desde pequenos os high-techs estão comprando, vendendo e negociando nas redes sociais. Muitos fazem dinheiro com avatares, games e personagens. Teremos novos segmentos, principalmente de tecnologia", prevê Milagre.

Mudar para conquistar


Alexandra Fabri é consultora em gestão de pessoas e especialista em comportamento humano. Para ela, a relação dos jovens da Geração Z com o mercado de trabalho terá dois lados. Ao mesmo tempo em que eles têm muito a ensinar, tecnologicamente falando, precisam aprender a ter paciência e a esperar as mudanças desejadas, além de melhorar a relação humana.

"Percebo nos adolescentes que esses profissionais em potencial não conseguem se comprometer efetivamente por não terem paciência de esperar mudanças. Se o que desejam não chega com imediatismo, eles não pensam duas vezes em mudar de emprego. E isso é desvantajoso para as empresas", aponta Fabri.

Os high-techs buscam atividades que forneçam prazer imediato e grande motivação. Segundo Fabri, esse é um dos motivos que têm levado as empresas a contratar profissionais mais velhos. Porém, segundo a especialista, a adaptação empresarial já se faz necessária.

E para despertar o comprometimento e criar vínculos com o profissional Z - um dos maiores desafios desse contexto -, a empresa precisa ser clara no que espera dele. Para que estou aqui? Quais serão as minhas atribuições? Como posso crescer dentro desse processo? As respostas para tais perguntas são imprescindíveis para esses jovens que exigem inserção no processo de trabalho e querem ter a ideia do todo, o que pode representar um conflito, pois, segundo observa Fabri, muitas empresas não sabem nem mesmo onde querem chegar.

Liderança


Outra característica dos "zes" é não tolerar gente mandona. Para conseguir respeito, o líder deverá agir com respeito, transparência e dar exemplo. "Tais profissionais precisam ver coerência em seu líder. Não cumprem ordem apenas por cumprir, mas desejam saber o porquê de tal ordem. Se perceberem que a relação não é verdadeira, baterão asas", analisa.

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Convívio familiar e orientação evitam marca do individualismo


Tanto Davi Giliote de Oliveira Levorato quanto Stephanie Milagre, crianças entrevistadas para esta reportagem, são "monitorados" pelos pais quando estão no mundo virtual. Já suas tarefas diárias, como os estudos, vêm em primeiro lugar. Segundo especialistas no assunto, tal atitude dos pais é fundamental para a segurança infantil.

Mesmo sendo rápidos, capazes de executar várias coisas ao mesmo tempo, possuírem facilidade em lidar com a tecnologia e terem atividade psicomotora excelente, como todas as outras, essa geração também tem conflitos. Dosar o tempo da criança no universo virtual e praticar o diálogo familiar amenizam o individualismo, característica dos indivíduos da geração high-tech por dedicarem boa parte do seu tempo ao "mergulho" no mundo tecnológico, longe do contato humano.

Antigamente, a orientação para os filhos era não falar com estranhos na rua. Hoje, a mesma recomendação é feita na Internet. Não se pode esquecer que é preciso educar digitalmente para evitar golpes e crimes eletrônicos.

Segundo a psicóloga especialista em terapia familiar Maria Lúcia Biem, o ideal é dividir o tempo que o filho tem para todas as atividades diárias. Em casa, a criança precisa ter contato com a família. As refeições, por exemplo, são momentos de reunião familiar. Nada de comer na frente da TV ou computador. A mesa é um lugar para conversas agradáveis com os filhos.

"Embora se comuniquem com muitas pessoas na rede, quando não querem mais, os high-tech simplesmente trocam o amigo. Não há paciência para ouvir e são imediatistas. O contato com a família melhora esse afastamento pessoal", explica Biem.

Equilíbrio


Tudo o que é radical é prejuízo, e encontrar um equilíbrio entre o real e o virtual é fundamental. Especialistas afirmam que a criança precisa ter um tempo para atividades físicas e para brincar não somente com jogos eletrônicos. Jogos de tabuleiros, andar de bicicleta, soltar pipas, entre outras brincadeiras, são essenciais para o relacionamento humano, principalmente para relação entre pais e filhos.

De acordo com Biem, cabe aos pais dar limite às crianças, o que parece estar em desuso atualmente. O castigo é retirar o que ela gosta e o prêmio pode ser sair para um passeio escolhido pelo filho. Assim, trazer o filho de volta à convivência familiar.

" A vinculação afetiva é o alicerce para uma sociedade saudável. Precisamos construir uma sociedade tecnológica, pois ela tem grandes vantagens, como vemos na medicina e em diversas outras áreas, mas com qualidade de relacionamento humano, porque estamos ficando carentes disso. Outro ponto importante é a atualização por parte dos pais. Sabendo como esse universo funciona, é mais fácil orientar os filhos sobre suas vantagens e perigos", aconselha Biem.