08 de julho de 2026
Regional

Um tombo fez Nelsinho perder o braço

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 7 min

Um tombo que poucas pessoas assistiram deu início à história de Nelsinho. Ele foi parar no hospital com muitas dores no braço esquerdo sobre o qual caiu. A irmã dele, hoje com 59 anos, Maria José Calori, não se lembra do tombo, mas sabe que o braço virou para trás.

"Meu pai, João Joaquim Santana, levou o Nelsinho para Ibitinga. Nessa época, morávamos na fazenda Ronca. De lá, ele foi levado para Itápolis e depois para Araraquara, onde ele ficou internado."

Foi na pediatria da Santa Casa de Araraquara que Nelsinho conheceu irmã Genarina, conta livro do padre Gerhard Rudolfo Anderer. Ela sugeriu ao menino que aproveitasse o tempo em que ficaria internado para fazer a catequese. O menino teria surpreendido a religiosa por aceitar com muita alegria.

Diariamente, passou a receber as instruções. Adotou uma canção muito conhecida na Igreja Católica e com as demais crianças da pediatria passou a cantar: "O meu coração é só de Jesus, a Minha alegria é a santa cruz. Nada mais desejo, não quero senão: que viva Jesus no meu coração!".

Nessa época, teria prometido a Jesus que levaria sua cruz cada dia e cada hora sem reclamar. Depois de receber alta médica, Nelsinho retornou para a propriedade rural onde seus pais e os irmãos residiam. Determinado, procurou a mãe, perto da hora do almoço, para dizer que ia cometer um grande pecado. Teria dito:

"Prometi a Jesus não reclamar quando tivesse dor. Mas não estou aguentando. Meu braço está pior do que antes", a mãe teria desfeito a confusão do garoto. "Não é pecado avisar a mãe quando se sente dor", teria dito.

Levado de novo para a Santa Casa de Araraquara, Nelsinho foi atendido pelo médico que, após inúmeros exames, disse aos pais que não havia outra solução se não amputar o órgão. O profissional pediu à religiosa que desse a notícia ao pai e, posteriormente, ao menino.

Quando a irmã foi dar a notícia para Nelsinho, ficou surpresa com a reação dele. "Pode falar sem medo irmã, mesmo que seja meu braço por inteiro, Jesus pode levar, pois tudo o que é meu é dele também". A cirurgia foi feita e, nesse período, ele conheceu o padre Gerhard Rudolfo Anderer, autor do livro, com o qual manteve um relacionamento muito próximo. Pediu ao religioso que levasse Jesus todos os dia para ele comungar.

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O sofrimento de cada dia


Para enfrentar os curativos, Nelsinho usava a força do crucifixo. Ao invés de gritar de dor, o menino se agarrava à cruz que havia ganho de irmã Genarina. Só assim suportava os curativos. Segundo o livro que conta a história dele, até anestesia geral era aplicada antes de cada curativo, tamanha era a dor.

Só uma coisa os médicos não conseguiam eliminar: o mau cheiro que a ferida exalava causava náuseas em quem se aproximasse de Nelsinho. Segundo o padre, em uma de suas visitas, o menino de 9 anos confessou. "Totalmente transtornado, ele me disse: Preciso confessar-me! Eu pequei! Fui covarde! Eu gritei! Eu chorei! Eu não aguentei! Perdão!"

O padre teria desfeito a confusão e, calmamente, teria dito que ele não havia cometido pecado algum. "Na cruz, Jesus também gritou de dor."

Nesse período, o menino teria manifestado a ideia de passar o Natal no céu para ajudar Jesus a fazer o bem, uma vez que com um só braço, pouco ou nada poderia ajudar seus pais na roça. O padre teria dito que o Natal ainda estava longe e Nelsinho teria dito que era melhor, assim poderia se preparar.

O tempo foi passando e o mês de dezembro foi chegando. No dia 24, por volta das 10h, padre Gerhard foi visitar Nelsinho. Oportunidade em que ele comungou. "Irmã Genarina, acompanhada de outras crianças, trouxe enfeites para montar o presépio, uma vez que o menino não podia mais levantar. Ele disse: Mas eu não vou estar aqui!"

Diante da situação, a religiosa questionou Nelsinho se iria embora sem receber alta médica. Antes da resposta, o padre pediu que ela saísse e ficou a sós com o menino. "Ele disse que ao anoitecer, Jesus iria buscá-lo para levá-lo ao céu."

Conforme a previsão do garoto, às 19h do dia 24 ele morreu. "A partida do Nelsinho foi consumada no dia anunciado por ele."

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Ele olha por nós


A irmã de Nelsinho Santana Maria José Calori lembra que a retirada do braço esquerdo do irmão foi um sofrimento terrível para os pais. "Meus pais choravam muito. Nós sabíamos pouco o que estava acontecendo. Recentemente, fomos procurados pelo padre da matriz e ficamos sabendo que meu irmão ajuda as crianças e que a beatificação e canonização dele está a caminho."

Calori lembra que a mãe morreu há cinco anos, mas o pai está com 83 anos e consciente. "Ele anda muito, visita a gente constantemente. Ele está muito feliz com a notícia da beatificação do meu irmão. O Nelsinho sempre atendeu nossos pedidos."

Segundo a irmã, são poucas as imagens do irmão. "Nós não tínhamos máquina fotográfica à época. Dizem que santo não tem foto. Eu me lembro que ele andava feito uma pessoa idosa, magrinho."

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Ibitinga se prepara para a beatificação


O primeiro passo para que Nelsinho Santana vire santo já foi dado. O Vaticano reconheceu que ele é servo de Deus. O fato aconteceu em 2009, graças aos milagres atribuídos a ele. A partir daí, a Comissão Histórica da matriz de São Bom Jesus de Ibitinga busca a beatificação, explica Eugênio Aparecido Coleone. "Estamos fazendo um trabalho de levantamento de dados, colhendo depoimentos e atribuições de graças para fazer parte do processo de beatificação."

A previsão é a de que até o primeiro semestre do ano que vem, o processo seja concluído e Nelson Santana seja considerado um beato pela Igreja Católica Apostólica Romana. Vencida essa etapa, a comissão começa a trabalhar no processo de canonização.

"Como ele é criança, não tem muitos dados para levantar. O processo de beatificação deve ser concluído no começo de 2012. Vamos ter a cerimônia de beatificação. Para continuar, depende do desenrolar das coisas. De repente, é mais rápido do que a gente imagina."

A divulgação dos feitos atribuídos a Nelson Santana pelo padre Gerhard Rudolfo Anderer em seu livro pode contribuir para o registro de outros milagres em todo o País. "Na divulgação desses fatos começou a aparecer essas intercessões atribuídas a ele. Pessoas que alcançaram graças."

Em Ibitinga, segundo Coleone, há relatos de pessoas que foram agraciadas com cura através da intercessão de Nelsinho Santana. "Uma criança, recém-nascida, desenganada pelos médicos, foi curada. Recentemente, um advogado de São Paulo foi curado. Há documentos do Hospital São Luís que comprovam. Ele teria ficado ruim em Santos e foi para São Paulo. Pediu a intercessão de Nelsinho Santana e foi curado. Conhecia a história porque tem um parente que morava na cidade."

Pedidos mais simples, como a cura de uma criança que não podia ingerir leite e após o pedido passou a tomar o líquido sem apresentar problemas, são comuns, enfatiza o membro da comissão. "Estamos confeccionando uma foto do Nelsinho. O bispo da diocese de São Carlos, dom Paulo Sérgio, vai montar uma oração que será do menino."

Turismo religioso

A beatificação de Nelsinho Santana deve disparar o turismo religioso na cidade de Ibitinga, onde pelo menos 50% da população é católica praticante, prevê Caleone. Segundo ele, a prefeitura deverá montar projetos para acolher os turistas e montar nova infraestrutura.
O secretário de Turismo do município, João Gabriel Marcone, ressalta que não há projetos específicos para acolher os turistas em busca de cura através de Nelsinho Santana.

Beatos brasileiros


* Padre José de Anchieta

* Padres André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro e 28 companheiros (mártires do Rio Grande do Norte)

* Padre Eustáquio van Lieshout

* Padre Mariano da Mata Aparício

* Albertina Berkenbrock (mártir)

* Manuel Gomez Gonzalez e Adílio Daronch (mártires)

* Irmã Lindalva Justo de Oliveira, FDC (mártir)

* Bárbara Maix (Madre Maria Bárbara da Santíssima Trindade)

* Irmã Dulce