08 de julho de 2026
Ciências

Ninguém contrata cientistas!


| Tempo de leitura: 3 min

As universidades e institutos contratam pesquisadores, mas não cientistas. Nos editais de concursos está explícito: pesquisadores! A sociedade quer comprovações científicas, valoriza conhecimento científico, o ministério é de ciência e tecnologia, mas contratam pesquisadores.

Os pesquisadores exercem atividades para encontrar soluções dos problemas gerando progresso . Ninguém contrata cientista porque tem perfil de inquieto intelectualmente, que vive procurando problemas, questionando, checando e induzindo novas buscas com criatividade: tende a ser chato para os mortais comuns. O cientista faz perguntas impertinentes. Disse Aristóteles: "O ignorante afirma, é taxativo, o sábio duvida e reflete".

O pesquisador executa, cuida do método, cumpre o planejado, tem cronograma, busca os objetivos, é organizado e comedido e com um esforço apenas razoável constrói um perfil de competente.

Em compensação torna-se mais burocrático, menos criativo, mas é o que constrói os resultados. Sua atividade é imprescindível, requer talento e pode trazer grandes alegrias pessoais.

O professor György Böhm usou a orquestra como exemplo: os músicos são responsáveis pelos sons e o regente pelo efeito harmônico do conjunto. Nem os músicos nem o regente são capazes de compor e criar ideias musicais de qualidade. Os músicos tocam, o regente harmoniza o conjunto: e quem compõe?

A diferença entre cientista e pesquisador é a mesma entre o compositor e o músico/regente. Todos são importantes, mas sem o compositor trabalhando ativamente, cantaremos sempre as mesmas músicas e partituras.

Nas revistas de ciência percebe-se que os autores não produzem boas perguntas e ideias. Os trabalhos são repetitivos não pela necessidade de comprovação, mas pela falta de novas ideias e abordagens, cumprem apenas o mínimo de publicações anuais.

Preocupam-se em colocar imediatamente sua ideia em prática, pois em outro lugar alguém poderia ter a mesma ideia. Ideia assim é fraca e dever-se-ia conformar que outro pode executá-la primeiro! O cientista não tem essa preocupação.

Diferenças


O cientista difere do pesquisador pela aptidão de ver os problemas relevantes e fazer boas perguntas à natureza, e por isso incomoda os outros com suas indagações. "Quem pensa opõe resistência", afirmava o filósofo alemão Wiesengrund-Adorno.

Além da intuição aguçada e sensibilidade refinada, o cientista naturalmente é cético e crítico. Não deve ser dom, mas são certas oportunidades e circunstâncias especiais que favorecem o desenvolvimento dessas características de um cientista.

Requer-se um esforço sobrecomum e uma mente sempre aberta para novas abordagens e experiências. A boa ideia não é fruto do acaso, ou um incidente, mas a descoberta do novo como o fruto de um trabalho pertinaz.

Os cientistas vêem problemas de outra forma e, com uma sensibilidade diferente, acentuam o cerne do problema com facilidade aplicando-lhe as perguntas básicas: o que? Por que? Quem? Como? Onde? Boas ideias e sacadas geram patentes e marcas: por que temos tão poucas, hein?!

Em certos países apenas se fabricam produtos idealizados, patenteados e registrados em outros países. Não faltam mentes criativas e cientistas, o que falta é o sistema educacional e produtivo privilegiar e aproveitar as potencialidades destas mentes brilhantes.

O que sobra nestes países é a castração destas mentes! Os cientistas observam e pensam o tempo todo; acabam por incomodar os outros com seus questionamentos, especialmente os carreiristas e burocratas. Seus pensamentos são lógicos, simples e os raciocínios, precisos.

Muitos reclamam da falta de criatividade nas universidades, que carecemos de novas teorias, patentes, marcas e premiações como o Nobel para trabalhos em solo brasileiro, chinês, coreano e outros. Trabalhos premiados e feitos no exterior não seria mérito do país, mas do cientista.

Nestes países "não premiados" procurem nos editais dos concursos das universidades e institutos: requerem e privilegiam candidatos com perfil de cientista ou de pesquisador? Depois ficam pedindo inovação!


Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. E-mail: consolaro@uol.com.br