09 de julho de 2026
Regional

?Rodovia da morte? faz mais duas vítimas

Mariana Cerigatto e Lilian Grasiela
| Tempo de leitura: 8 min

Iacanga - Uma colisão frontal entre dois caminhões ontem de manhã matou dois motoristas e deixou um ferido na rodovia Cezário José de Castilho (SP-321), a Bauru-Iacanga. Os dois veículos se incendiaram depois do choque. Os motoristas Valdecir Aparecido Ribeiro, de 44 anos, e Waldemar Simões Neles de Souza, de 37 anos, morreram carbonizados. O acidente ocorreu por volta das 6h15, na altura do quilômetro 388, em Iacanga (50 quilômetros de Bauru). A pista ficou interditada das 7h10 às 8h e parcialmente até 15h para a limpeza e remoção dos veículos.

O motorista Valdir João Nieto, de 48 anos, que conduzia um Gol por pouco também não perdeu a vida no violento acidente. Ele bateu na traseira de um dos caminhões, mas apresentou apenas ferimentos sem gravidade.

A Bauru-Iacanga é conhecida de "Rodovia da Morte". Neste ano já houve 90 acidentes com nove mortes (contando com as duas vítimas de ontem).

O tenente do policiamento rodoviário Luiz Carlos Ferreira dos Santos informou que Valdecir Ribeiro dirigia o caminhão Mercedes-Benz, com placas de Mendonça, carregado de blocos de concreto no sentido Iacanga-Bauru, e teria tentado ultrapassar um caminhão Ford Cargo, com placas de Bariri. Foi quando colidiu de frente com um caminhão Volvo, com placas de Bauru, que vinha pela pista contrária, conduzido por Waldemar de Souza.

Os dois caminhões chocaram-se violentamente, tombaram em um barranco e pegaram fogo logo em seguida. Os dois motoristas morreram carbonizados, presos nas ferragens, sem condições de sair das cabines dos veículos. As causas do acidente só serão esclarecidas após o laudo da perícia.

Por coincidência, o cunhado de Valdecir, estava de passagem pela pista e parou para ver o que ocorrera. "Eu parei para ver o que tinha acontecido e não sabia, de imediato, que era meu cunhado que estava de motorista de um dos caminhões envolvidos. Quando fiquei sabendo, não me conformei", disse Sidnei Donizete Francisco, de 29 anos.

O cunhado contou que Valdecir trabalhava de motorista de uma empresa de materiais de construção em Mendonça e iria fazer entrega em Bauru. "Ele deixa quatro filhos. Era experiente na estrada, nunca tinha se envolvido em acidente", lamentou.

O motorista do Ford Cargo, Henrison Fernando Lopes, de 32 anos, relata que trafegava atrás de um caminhão carregado de cana numa velocidade de 70 quilômetros. Nesse momento, o caminhão Mercedes teria tentado ultrapassá-lo. "Foi tudo muito rápido. Após a batida entre o Volvo e o Mercedes-Benz, logo comecei a ver o fogo e não deu pra socorrer os motoristas dos dois caminhões. Foi um desespero, estava escuro ainda", relatou.

Um inquérito policial para apurar homicídio culposo será aberto na delegacia da Polícia Civil de Iacanga para apurar as responsabilidades pelo acidente.

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?Nasci de novo?


O motorista do carro acidentado, Valdir João Nieto, de 48 anos, residente em Arealva, afirmou ao JC que nasceu de novo após se envolver no acidente. Ele trafegava atrás do caminhão Volvo e tentou frear, mas acabou atingindo a traseira de um dos veículos acidentados. "Estava a 50 metros do caminhão (acidentado). Mesmo assim foi difícil de frear, mas nasci de novo", relatou Nieto, que viajava a trabalho.

Valdir saiu do acidente com ferimentos no rosto, orelha e em uma das mãos. Mas, quem olhava para o estado do Gol não acreditava que ele saiu vivo. Com o impacto, o carro teve perda total.

"Está cada vez mais difícil trafegar por essa rodovia. É muita insegurança, muita imprudência", salientou.

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Imprudência


O tenente do Policiamento Rodoviário da Polícia Militar de Bauru, Luiz Carlos Ferreira dos Santos, disse que a imprudência dos motoristas é um dos principais fatores causadores de tragédias nas estradas, inclusive na rodovia Bauru-Iacanga. "Alguns veículos, como caminhões, costumam trafegar em alta velocidade numa área de declive. Devido ao seu peso, a frenagem é dificultada", expõe.

O tenente salienta que o horário em que o choque ocorreu pode ter contribuído para a tragédia. "A visibilidade pode ter sido dificultada devido ao horário", explicou.

O tenente ainda afirmou que não sabe avaliar os motivos que teriam contribuído para que a cabine de ambos caminhões pegassem fogo. "Existe o risco do combustível, mas é difícil saber", frisou.

O Corpo de Bombeiros esteve no local para conter as chamas e retirar os corpos, que foram transportados ao Instituto Médico legal (IML) de Bauru. A pista precisou ser parcialmente interditada durante a manhã, causando lentidão no trânsito. Somente por volta das 15h a rodovia foi totalmente liberada.

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Rodovia terá trecho duplicado só no ano que vem, promete governo


A rodovia Bauru-Iacanga é considerada uma das mais perigosas da região em razão da existência de pista simples em toda sua extensão, sinalização deficitária, ausência de acostamento em alguns trechos e asfalto irregular. Soma-se a isso o grande fluxo de caminhões na via e o fato dela servir de acesso a vários bairros localizados às suas margens e a cidades banhadas pelo rio Tietê, que possuem prainhas muito procuradas por turistas na época do calor.

De acordo com informações do 2º Batalhão de Polícia Militar Rodoviária, com sede em Bauru, somente neste ano, foram registrados na rodovia Cezário José de Castilho (SP-321) o total de 90 acidentes. Destes, 80 resultaram em vítimas. Somente neste primeiro semestre, nove pessoas (contando com as duas vítimas fatais de ontem) morreram na Bauru-Iacanga.

Em um dos acidente mais graves, no último dia 20 de abril, quatro pessoas perderam a vida numa colisão frontal entre uma caminhonete Ford Ranger, com placas de Ibitinga, e um Volkswagen Saveiro, com placas de Bauru, na altura do quilômetro 363. Na ocasião, a causa da tragédia também teria sido uma ultrapassagem mal-sucedida.

No momento do acidente, os primos Diego Sampaio de Almeida, de 20 anos e Fábio Antônio Mellero, de 30 anos, e o amigo Romano Ferreira Neto, de 27 anos, todos moradores de Bauru, seguiam para o município na Saveiro, conduzida por Diego. Já Waldo Cavalini Júnior, 43 anos, que dirigia a Ford Ranger, seguia de Bauru para sua chácara em Arealva.

No último dia 18 de junho, quando esteve em Bauru para a inauguração da Avenida Nações Unidas Norte, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) anunciou que a rodovia Cezário José de Castilho (SP-321) será duplicada até o Aeroporto Moussa Tobias, num trecho de aproximadamente 20 quilômetros.

De acordo com ele, a obra ? orçada em R$ 74 milhões conforme informações da Secretaria Estadual dos Transportes ? foi incluída no programa do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (Bird), órgão ligado ao Banco Mundial.

Ontem, por meio da assessoria de imprensa, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) do Estado de São Paulo disse que há projeto concluído para duplicação da SP-321 apenas no trecho entre Bauru e o aeroporto, que vai do Km 344,8 ao Km 356.

Para o trecho entre Bauru e Iacanga, passando por Arealva, o DER informa que há projeto em fase de elaboração que prevê o recapeamento da pista e dos acostamentos existentes; pavimentação de sub-trechos dos acostamentos e implantação de faixas adicionais no trecho entre o aeroporto de Bauru e o rio Tietê, do km 356 ao km 407.

As obras previstas nos dois projetos devem ser executadas apenas em 2012. "O DER reforça a importância da prudência do motorista nas estradas; da obediência à legislação de trânsito; do respeito à sinalização da via e limites de velocidade; e atenção a ultrapassagens e conversões", completa.

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Irmãos tentaram retirar motorista da cabine


O motorista Waldemar Simões Neles de Souza, 37 anos, que acabou perdendo a vida no acidente ontem de manhã na rodovia Bauru-Iacanga, trabalhava na empresa Porto de Areia D.M. Reghine Ltda junto com outros dois irmãos mais velhos, que também são motoristas. No momento do acidente, ele ia para Iacanga carregar o caminhão com areia.

Um dos irmãos seguia logo atrás dele. O outro, José Carlos Neles de Souza, 44 anos, que trabalha há 15 anos na empresa, havia acabado de passar pelo local. "Nós saímos todos praticamente juntos", diz. Ele revela que, assim que soube do acidente, cerca de 800 metros adiante, retornou para tentar retirar o irmão da cabine em chamas, mas não conseguiu.

"Meu outro irmão, que estava com a carreta próximo dele, tentou mas não teve como. A cabine se retorceu toda e entrou em combustão", conta. "Eu cheguei a presenciar quando estava terminando de queimar a cabine. Eu via meu outro irmão entrar em desespero e a gente não conseguia fazer nada".

De acordo com José Carlos, a experiência do irmão não foi suficiente para que ele conseguisse se salvar. Ele relata, com base nas informações da Polícia Rodoviária, que o motorista do caminhão carregado com blocos de concreto tentava fazer uma ultrapassagem, quando atingiu o caminhão de Waldemar. "Não tinha como ele fazer nada", afirma.

Apesar de considerar a rodovia Bauru-Iacanga perigosa, José Carlos avalia que o risco de acidente na via é potencializado pela imprudência de alguns motoristas. "Essa rodovia, pela experiência que a gente tem, é uma rodovia perigosa. Só que tem muita imprudência", declara. "Eu acho que, se todo mundo tiver um pouco de cautela, dá para evitar (acidentes)".

Waldemar, que trabalhava há aproximadamente 15 anos como motorista na mesma empresa, era casado e deixa dois filhos, um menino de 13 anos e uma menina de 10 anos. "A gente sente que é uma perda grande. Era o irmão caçula da gente. A gente não tem nem palavras", emociona-se o irmão.

A empresa Porto de Areia D.M. Reghine, por meio do Departamento de Recursos Humanos, lamentou a morte do motorista e revelou que está prestando todo o auxílio necessário aos seus familiares nesse momento de dor. O corpo de Waldemar está sendo velado no Terra Branca da vila Falcão, na rua dos Andradas 7-7. O enterro está marcado para hoje, às 9h, no Cemitério de Garça, onde residem seus familiares.