09 de julho de 2026
Articulistas

Trama e urdidura

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

Enquanto corria o ano de 1500, nas costas brasileiras aportavam imensas naus repletas de degredados. Numa delas restava agasalhada antiga roca vinda do além-mar para habitar as riquíssimas terras do novo mundo. Foi difícil desembarcar a ancestral geringonça, rústica e corroída, que ancorara para então tecer a história das terras de Santa Cruz. Desde aquela época, no vai e vem do tear do tempo, a velha roca vem tecendo o manto verde e amarelo que dizem proteger a nação. Na trama, o amarelo que ilumina e faz luzir as ilusões perdidas. Na urdidura, a esperança do verde esmeralda enunciando em vão a ordem e o progresso.

E a tosca roca, ritmada e macambúzia, iniciou sua cantata, tal a roda da fortuna de Carmina Burana com seu girar continuado, qual a moenda e o gado, não leva nada a lugar nenhum. E a maquiavélica política nacional, velha e experiente tecelã, vai permutando de tempos em tempos os ocupantes da cobiçada cadeira que dirige a roca: um sai e outro senta, dominando os fios. E o grande manto tudo acoberta, tudo abaçana na terra do faz de conta. Faz de conta que faz, mas nada é feito! Faz de conta que vai acontecer, mas nada acontece! Promete, finge que cumpre, mas descumpre! Fala, mas nada diz.

E a trama e urdidura do domínio faz nascer imensa e longa teia que imobiliza a nação. São nos fios trançados, que por entre laços e abraços nascem os acordos imorais. É neste cipoal de linhas embaraçadas que o povo tropeça e tomba sem sustentação, tampouco condição para o livre deambular. Então, exaustos, os brasileiros fenecem fortemente empacotados, casulos de Aracne, asfixiados e suspensos na grande e cintilante teia das ilusões falazes. A grande roca é exclusividade de poucos há mais de quinhentos anos. Ninguém consegue chegar até ela, pois resta guardada a sete chaves pelos homens de gravata e alvos colarinhos no esfuziante castelo onde a ostentação predomina. Todos querem fiar e tecer, todos ambicionam da manta um naco.

Na trama e urdidura, por entre fios que se encontram e se amarram estão os dirigentes que entorpecem a populaça que passa a crer ser real a magia secular advinda do tear das utopias, então, calada e servil sequer ambiciona a posse da velha e tosca roca que desde 1500 tece a história do Brasil. A roda mágica, num girar interminável, impulsiona o cidadão a também girar sem cessar em torno da bocarra da tenebrosa cacimba. E quem aceita dançar em volta do poço, em suas profundezas um dia cai, ou por exaustão ou por não prestar atenção na trama e urdidura que tece os destinos da nação.

A autora, Valderez de Mello, é advogada, pedagoga, psicopedagoga, escritora e escreveu o livro "Lágrimas Brasileiras e Trama e Urdidura" - em edição