A crise em que a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) enfrenta ainda está longe de terminar. Não só a população sente os problemas de atraso na entrega de correspondência por falta de pessoal, mas também seus funcionários enfrentam problemas internos no setor de saúde ocupacional. O contrato com a MHZ, empresa prestadora de serviços no ambulatório médico, se encerra hoje e não será renovado. Até que um novo processo licitatório seja concluído, funcionários concursados serão deslocados para suprir as necessidades desse setor. Isso significa mais problemas para a estatal que deve também atrapalhar o já precário atendimento prestado à população.
O grupo MHZ foi contratado há quatro anos pelos Correios para prestar serviços de saúde ocupacional, o que compreende exames admissionais e demissionais, assim como exames periódicos de retorno ao trabalho e liberação de guias, em Bauru e em outras oito cidades. Em Bauru, a empresa mantém quatro atendentes e dois médicos do trabalho.
Os funcionários reclamam que os pagamentos são pagos com atrasos desde o início do ano e enfrentavam dificuldade com a empresa ? a sede é em São Paulo.
A atendente Luciana Gonçalves, funcionária da MHZ desde o início da terceirização do serviço, conta que nos últimos dois anos a rotatividade de funcionários foi grande, sobretudo de médicos, descontentes com os constantes atrasos de pagamentos e benefícios. "O serviço é tranquilo, temos um bom relacionamento (com os funcionários dos Correios). O problema é a empresa", declara.
Renata Maria da Cruz Sandrin, contratada há oito meses como atendente, diz que o pagamento dos salários nunca foi feito em dia. O vencimento referente a maio, que deveria ter sido pago até o quinto dia útil de junho, foi creditado somente no dia 30 daquele mês. Já os vencimentos de junho ainda não foram pagos. As funcionárias cumprem aviso prévio e estão cientes que o contrato será encerrado nesta quarta-feira. Com medo das consequências do rompimento do contrato, elas ingressaram com uma ação judicial em busca de seus direitos trabalhistas. "Eles não depositam nosso Fundo de Garantia desde janeiro", aponta.
Dos empregados, Deise Regina Travagli Moraes, no sexto mês de gestação, é a única que permanecerá contratada, mesmo não prestando mais serviços aos Correios. O acordo foi firmado com a empresa nas últimas semanas, já que a legislação trabalhista assegura esse direito às grávidas.
Apreensivas com a situação e com medo de sofrerem represálias, as atendentes hesitaram em falar, mas confirmaram que estão custeando as despesas de transporte e alimentação, porque o pagamento dos vales é feito em dinheiro, juntamente com os salários. Os responsáveis pela empresa MHZ foram procurados pelo JC para comentar o assunto, mas não foram encontrados até o fechamento desta edição.
Em nota, os Correios informaram que o contrato será encerrado devido ao não cumprimento nos últimos seis meses de obrigações trabalhistas previstas no contrato, não havendo interesse por parte dos Correios em renová-lo por mais um ano.
Segundo a assessoria de imprensa, já está em andamento a licitação para a contratação de uma nova empresa e durante o processo seu efetivo próprio será alocado para manter a normalidade do atendimento. "Desta forma, não haverá interrupção dos serviços prestados (entre os quais, emissões de guias médicas para empregados dos Correios e seus dependentes, encaminhamento para exames periódicos, admissionais e demissionais, entre outros relacionados à medicina ocupacional, que trata da promoção e prestação da saúde do trabalhado)".
No site dos Correios constam dois editais em andamento ? abertos em fevereiro ?, do tipo chamamento público, para credenciamento de pessoas físicas para prestação de serviços de assistência à saúde. Dentre os descritos estão ambulatorial e perícia médica, mas não há especificação se são os mesmos atualmente prestados pela MHZ.
Instituição em crise
Nos últimos meses os Correios estão passando por uma crise, já considerada histórica. Atrasos significativos nas entregas de cartas e encomendas são registrados em vários bairros de Bauru e em muitas cidades da região. O JC vem publicando reclamações dos leitores em seu espaço próprio com uma certa frequência. O órgão admite um déficit de funcionários e aponta a realização do concurso público como uma possível solução para o problema.