10 de julho de 2026
Articulistas

50 anos da renúncia de Jânio

André Luiz R. R. Mattos
| Tempo de leitura: 3 min

Em 1961, Jânio Quadros solicitou aos assessores que abrissem os portões de sua residência, na Vila Maria, para se despedir dos vizinhos. Seguindo o protocolo, o presidente eleito permaneceu de pé e os recebeu ao centro da sala. Dona Eloá, a esposa, ficou mais ao lado chorando a partida para a nova capital brasileira, recentemente transferida para Brasília. Com toda a cena acompanhada pela imprensa, como era costume do futuro presidente desde os tempos de vereador, declarou ao final que levava São Paulo no coração, assim como a Vila Maria e seus vizinhos. Logo após, partiu para o Aeroporto de Congonhas e, em seguida, para a diplomação e a posse presidencial. Professor desconcertante, já como presidente, quebrou o protocolo na recepção que ofereceu na noite da posse, no Palácio da Alvorada. Segundo nota distribuída pelo Itamaraty, o uso de smoking, traje obrigatório para a ocasião, se tornava opcional a fim de que não houvesse nenhum impedimento para que todos os 1.500 convidados participassem do jantar.

A ação janista frente ao governo brasileiro durou sete meses e terminou com sua renúncia em 25 de agosto de 1961. O editorial de um jornal de grande circulação anotou: "A renúncia do presidente da República, com efeito, era hipótese que de nenhum modo se cogitava e o impacto que ela causou na opinião pública tem, por isso mesmo, efeitos desastrosos". De fato, o assunto tomou conta das ruas e o futuro se mostraria de crise. Nas praças mais movimentadas dos bairros, paradas e terminais de ônibus de São Paulo os populares tentavam especular a motivação da renúncia e bastava uma declaração contra Jânio para que, frente ao tumulto causado, fosse necessária a intervenção da polícia. Na Praça da Sé, estudantes faziam comícios em favor do renunciante e um telegrama do Centro Acadêmico XI de Agosto enviado para Brasília solicitava que o presidente permanecesse no cargo. Três mil agentes do DOPS acompanharam as movimentações nas ruas paulistanas. No Rio de Janeiro, Carlos Lacerda, o ponta de lança dos ataques ao presidente, solicitou quinhentos policiais para sua segurança. Enquanto isso, a Embaixada dos EUA, a sede do jornal Tribuna da Imprensa e a agência de publicidade de O Globo eram apedrejadas.

Em Teresina e Maceió estudantes e populares também realizaram comícios de apoio a Jânio e repúdio ao governador Carlos Lacerda. No entanto, com o cair da noite, o país voltou à mesma calma tumultuada do dia anterior e Ranieri Mazzilli, então presidente da Câmara Federal, já havia assumido a Presidência da República, depois de breve apreciação da renúncia de Jânio, recebida no início da tarde e aceita rapidamente pelo Poder Legislativo. João Goulart, o vice, estava na China e os militares brasileiros imediatamente vetaram o seu retorno ao Brasil. Acusado de estar comprometido com o comunismo, só assumiu a sucessão após ter de aceitar uma fórmula improvisada de parlamentarismo.

Durante a solução da crise constitucional, Jânio Quadros e sua esposa partiram para a Europa. No Brasil permaneceram os blindados que, barulhentos, cruzavam a Avenida São João em direção ao quartel do Parque Dom Pedro, em São Paulo. O caminho, a partir de então, estava aberto para as sucessivas crises que culminaram no golpe civil-militar de 1964 e obscureceu o país pelas duas décadas seguintes.

O autor, André Luiz R. R. Mattos, é professor especialista de sociologia e mestrando em história