08 de julho de 2026
Geral

Desejos e obrigações ?brigam' na compra

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

Independentemente da cor do saldo bancário, o desejo de consumir sempre arruma uma maneira de nos tentar. Seja no "paquerar" de um belo relógio que faz nossos olhos brilharem na vitrine de uma joalheria, seja na ideia de fazer uma bela viagem que nos vem a mente simplesmente por conta daquela foto bacana e ensolarada em frente da agência de viagem.

As possibilidades são muitas. Mas e cacife para satisfazer todos os desejos? Os sonhos de consumo não ocupam toda a nossa lista de gastos. Obviamente, as necessidades vêm na frente e, em muitos casos, elas ocupam todo o orçamento. O problema é quando há inversão dos papéis, com o consumo que satisfaz as vontades sobrepondo o essencial. "Todas as pessoas gostam de se sentir valorizadas o que as leva a uma certa confusão e até mesmo superficialidade", analisa a psicóloga Mauricéia Quinhoneiro, do Centro de Terapia Cognitiva (CTC) de Bauru. "Uma coisa é você ter uma condição de vida digna. Outra é se render a todo custo a encantamentos", diferencia. "Um celular, por exemplo, virou brinquedinho de adulto", ilustra.

Entretanto, a relação entre o querer e o precisar é colocada em paralelo por especialistas. A teoria mais famosa é a "Escala das Necessidades Básicas do Homem", do psicólogo norte-americanao Abraham Maslow (1908-1970). De acordo com o estudioso, existem cinco graus hierárquicos que regem as necessidades humanas.

Na base desta pirâmide de prioridades, estariam as questões fisiológicas, ou seja, a própria sobrevivência, com itens como alimentação, vestuário e moradia. Satisfeito o quesito, a busca seria por segurança, tanto no lar como estabilidade no emprego.

Garantido esse tópico, o próximo passo seria a necessidade social, com a construção de relações sólidas de amizade e sentimento de se fazer parte de algum grupo. Esse degrau precede ao segundo item, de cima para baixo, que é o do ego. No topo da pirâmide está o sentimento de autorrealização. Isso tudo explicaria o porquê de uma pessoa que anda a pé, após satisfazer a necessidade de obter um meio de locomoção, iniciar uma busca por maior conforto ou rapidez, com um veículo mais potente ou luxuoso.

"Seguindo a estabilidade geral da economia, as pessoas de diferenciadas classes vão se equipando", contemporiza José Ricardo Carrijo, professor dos cursos de Economia e Marketing, respectivamente, na Instituição Toledo de Ensino (ITE) e Universidade Sagrado Coração (USC). O especialista, que cita a Escala de Maslow, observa um fato curioso na relação necessidade x vontade. Enquanto que as classes C, D e até mesmo E conhecem um novo universo de consumo, com maiores oportunidades, as categorias A e B, que têm na educação de ponta uma parcela considerável de investimento, apesar de continuarem buscando, sem intempéries, diferenciação no consumo com aquisição de bens de maior requinte e, consequentemente, valor, encontram no setor de serviços uma maior alta nos preços.

"O preço dos serviços está maior. Obviamente que isso não representa dificuldades para as classes mais elevadas", esclarece. No entanto, pondera o professor, se há algo proporcionalmente mais dispendioso, é nesse setor.

Para o economista Carlos Roberto Sette, a valorização na questão serviços é reflexo da maior massa salarial observada atualmente.

Com mais gente trabalhando formalmente, os serviços autônomos - eletricistas, instaladores, etc - são realizados por cada vez menos pessoas e, obviamente, com maior demanda. "É por isso que um encanador pode deixar alguém que solicitou o serviço esperando por dias a fio ou nem aparecer", descontrai o economista.

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Pés no chão


Mesmo em vista aos apelos, cada vez mais fortes do cotidiano, tem muita gente, jovem por sinal, que não cede às tentações e dosa o orçamento na perfeita simetria necessidade/desejo. O almoxarife Matheus Marzochi, por exemplo, tem ciência de que, antes de tudo, a sobrevivência vem em primeiro lugar. Ouvido na enquete virtual do site JCNET (www.jcnet.com.br), ele deixou claro que, acima de qualquer coisa, o importante é sobreviver sem cair na armadilha dos juros. "Gasto com combustível, taxas e juros dos bancos. Não sobra nada para o lazer. Na verdade, o brasileiro não vive e sim ?sobrevive", opina. O desabafo do almoxarife vem a calhar com uma observação do economista Carlos Sette, que, a pedido do JC, fez um breve levantamento sobre as intenções de consumo em Bauru e região. "Quanto mais a família tem prestações, menos lazer ela tem", relaciona o especialista.

Ciente de que saúde também significa economia, no que ele mesmo chama de reação em cadeia, o personal trainner Rafael Pelegrina Pieroni, 27 anos, também participou da sondagem de opinião na página do JCNET. Para o jovem, a prioridade é gastar com treinamento físico, boa alimentação, suplementos, prática esportiva e plano de saúde. Conhecimento, por meio de cursos, livros, seminários e congressos figuram em seguida. Com planejamento, lista Pieroni, ainda sobra para diversão, como cinema ou shows e até mesmo investimentos ou aplicações financeiras. No entanto, os gastos com saúde, para ele, são a base para os demais. "Eu na verdade trabalho com saúde. É fundamental investir nela", prioriza.

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Crédito imobiliário atrai também os mais jovens


Apesar dos sinais de estabilização do setor imobiliário na cidade, após cinco anos de aquecimento, a aquisição de um imóvel está longe de ser o sonho impossível que deu origem ao chavão: "sonho da casa própria".

Os parcelamentos a perder de vista, mas com a compensação da chave na mão do proprietário, livre das amarras do aluguel, atraem não só quem já juntou as escovas de dente, como jovens que moram sozinhos e batalham para tornarem-se donos do próprio chão.

É o caso de Denise Perin. Aos 23 anos, e morando em Bauru desde 2006, ela acredita que chegou a hora de pagar mensalmente pelo o que vai ser dela e, mesmo sem dividir moradia com ninguém, resolveu investir no próprio apartamento.

"Estou comprando agora um apartamento financiado em 300 meses. Sou solteira, mas acredito que agora é a hora de priorizar meu consumo num imóvel", confia.