Um ?operário das artes?
Ele nasceu, cresceu e teve seus primeiros contatos com a arte em Araçatuba. Mas foi em Bauru que o artista plástico Jorge Roberto Emiliano se estabeleceu e, há quase 30 anos, ganha a vida com o que gosta e sempre sonhou fazer: esculturas, pinturas e outras obras de arte. "Eu trabalho com tantos materiais brutos que prefiro me considerar como um operário das artes", afirma.
Formando em Desenho Industrial pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), Emiliano - como é conhecido - se tornou famoso pela facilidade que tem em transformar ligas metálicas em obras de arte, seja com esculturas "finas e delicadas" ou com criações mais "rudes", como ele mesmo as define. Mas foi com as telas que pinta, que ampliou o reconhecimento e o sucesso comercial.
Em entrevista concedida no espaço Café com Política, do Jornal da Cidade, o "operário das artes" revelou uma característica incomum presente em todas as suas criações: nunca deu nome a elas. "Dessa forma, cada pessoa pode ver o que eu faço com os seus próprios olhos, sem as interpretações do artista. Também é uma forma das pessoas aprenderem a interpretar obra de arte", explica. Curiosidades sobre a recepção de Bauru às obras de Emiliano e também um pouco dos bastidores do processo criativo do artista estão na entrevista a seguir.
Jornal da Cidade - De onde surgiu a veia artística?
Jorge Roberto Emiliano - Sempre desenhei muito. Sabe aquele lance de criança humilde, quando ela pega carvão ou tijolo e fica desenhando na rua, reproduzindo personagens de história em quadrinho? Eu era assim. Quando eu fiquei mais velho, encontrei o Silvio Russo, um artista de Araçatuba que hoje já é falecido, e isso me fez gostar de artes. Mas, antes de estudar sério, eu virei hippie e viajei o Brasil todo. Nessa época, eu trabalhei muito com artesanato e trabalhos manuais. Isso foi nos anos 70... Era adolescente, tinha 16 ou 17 anos.
JC - Por que você veio para Bauru?
Emiliano - Em 1981, eu sai de Araçatuba e vim para cá fazer faculdade. Era próximo de onde eu morava e eu tinha boas referências da faculdade. Na época, cursei desenho industrial e me formei em 1985 pela Unesp. Na verdade, eu entrei na Fundação Educacional de Bauru e me formei na Unesp. Já sabia mais ou menos o que eu queria fazer, mas o curso me ajudou na parte de criação, inovação, renovação e, consequentemente, na profissionalização das artes plásticas.
JC - Mas você se considera autodidata?
Emiliano - Acho que posso dizer isso, sim. Antes mesmo de entrar na faculdade eu tinha contato com o mundo das artes, já tinha alguma preparação. O curioso é que, naquela época, minha mãe não gostava muito da minha escolha. Minha mãe é uma pessoa muito simples e achava que eu não conseguiria viver com essa profissão.
JC - Depois que concluiu a faculdade, resolveu morar em Bauru?
Emiliano - Eu me casei - aliás, sou muito bem casado - e tenho duas filhas, a Mariela e Lualis. Como me estabeleci por aqui, comecei a trabalhar e tirar meu "ganha pão", minha sobrevivência com minhas criações.
JC - Como é a relação da sua esposa e das suas filhas com a sua profissão?
Emiliano - A Elenir sempre me apoiou, me deu muita força e me incentivou. As minhas filhas também gostam do que eu faço e sempre estiveram envolvidas, apesar de não terem seguido para as artes. Uma faz enfermagem e a outra arquitetura. Agora, quem mais fica na oficina, me acompanhando, são as nossas três vira-latas. Elas estão sempre lá, comendo algum pincel, quebrando algo, mas fazendo companhia.
JC - Quem te conhece vê que sua esposa participa e opina no seu trabalho. Nunca brigaram por causa disso?
Emiliano - Muitas vezes, principalmente por causa de algumas esculturas, mas sempre nos resolvemos. Já aconteceu dela gostar muito de uma escultura, sair de casa e, ao voltar, eu já a tinha transformado em outra coisa completamente diferente. Uma vez, inclusive, quando ela chegou em casa, eu já tinha até vendido uma criação que ela tinha adorado...
JC - Nós podemos dizer que Bauru tem uma boa aceitação para artes?
Emiliano - Nos últimos 10 anos dá para dizer que a aceitação melhorou muito. Hoje, eu trabalho muito por encomenda, mas também têm vários arquitetos que colocam meus trabalhos em prédios comerciais e residenciais. Têm algumas pessoas que sempre compram o meu trabalho, seja para decorar a casa ou para dar de presente. No começo, eu tive que correr muito atrás das pessoas. Hoje, com um pouco mais de reconhecimento, é mais fácil.
JC - Essa expansão do interesse pelas artes se reflete na facilidade para a matéria-prima?
Emiliano - Com certeza. Hoje em Bauru é mais fácil conseguir o material reciclado ou mesmo os tipos de metais que eu preciso para uma determinada escultura - apesar de algumas coisas, como o aço inoxidável, ainda vir de São Paulo. É óbvio que depois de comprar, o artista precisa tratar esse material, mas definitivamente ficou melhor para trabalhar. Já em relação às sucatas, eu ganho muita coisa de oficinas e empresas que estão no ramo de reciclagem aqui em Bauru.
JC - O campo de atuação do artista plástico é amplo. Vai desde o desenho, passa pela escultura, fotografia até a criação de colagens. Qual sua preferência?
Emiliano - O que eu mais trabalho é com escultura em metais. Faz mais de 10 anos que eu exploro esse material, aliado a técnicas de soldagem. Outra possibilidade para meus trabalhos é a criação com base em sucatas. Tem um pouco daquela ideia do lixo que vira luxo: o que para muitos são pedaços de ferro, para mim vai virar uma obra. No entanto, eu gostaria de ressaltar é que não me considero um artista plástico. Eu sou um "operário das artes", porque trabalho com material bruto, material pesado para formar minhas criações. Eu chego a trabalhar oito horas por dia, preciso desse contato.
JC - É uma necessidade para satisfação pessoal?
Emiliano - É totalmente para mim. Por exemplo: as outras pessoas podem olhar para meu trabalho e não gostar. Para mim, meus trabalhos só estão prontos quando eu realmente gosto deles. Até porque vai ter a minha assinatura, então não posso pegar qualquer coisa e sair vendendo. Até porque, a priori, meu trabalho não tem um viés comercial. Pode ser que algum "maluco" goste do que eu criei e queira levar (ou não).
JC - Qual a influência da Internet no seu trabalho?
Emiliano - É interessante ver o que os outros artistas estão fazendo. Ajuda também na hora de fazer a pesquisa para um trabalho. Muitas vezes, eu vejo o que um outro artista criou e faço alguma coisa pensando no material que ele usou, por exemplo. Eu não estou falando em fazer uma obra igual, mas sim de ser influenciado... Eu sempre me inspiro em alguns artistas mais antigos, mas, hoje, estou numa fase influenciada pelo Pollock, por exemplo.
JC - Você usa muito o Facebook. Como a arte está envolvida com rede social?
Emiliano - É, eu estou meio viciado no "Face". Hoje, muitos artistas usam o site para mostrar os seus trabalhos. Logo que criamos algo, já enviamos a foto e esperamos pelos comentários. Tem essa facilidade. Mas, tem hora, que não para e, se vacilarmos, ficamos muito tempo, até atrapalha a criação.
JC - Como é o seu processo criativo?
Emiliano - Meu processo criativo não segue uma regra. Ele vai se moldando conforme eu vou produzindo a obra. Eu costumo falar que meu trabalho é criado na hora que eu pego os materiais. Aliás, estou sempre experimentando novos suportes para o meu trabalho. Por isso, considero que o processo criativo não tem fim. Um simples detalhes de uma peça pode me inspirar para criar algo completamente novo e este processo pode ir se repetindo e nunca acabar. Isso também faz com que alguns trabalhos fiquem prontos em segundos ou minutos e outros, mesmo depois de dois ou três meses, não ficam como eu quero.
JC - E as inspirações?
Emiliano - Na maioria das vezes as inspirações vão aparecendo conforme eu vou trabalhando. Mas eu tenho aquele negócio de ver uma pilha de ferros, uns metais e já imaginá-los como a obra pronta. É impressionante a quantidade de sucata que eu guardo na minha casa. Também costumo dizer que eu não deixo um processo fugir. Quando eu visualizo a obra, pode até demorar, mas um dia vou fazer.
JC - E você encontra tempo para pintar?
Emiliano - Eu gosto mais de trabalhar com o desafio das esculturas, mas eu faço pinturas porque têm uma aceitação melhor, um espaço maior. Meus quadros são mais abstratos, o que é legal porque cada pessoa consegue fazer uma leitura, ter um entendimento e visualizar um significado diferente para a obra. Muitas vezes, as pessoas enxergam coisas que nem o artista tinha pensando quando criou a obra e não podemos contestar porque é subjetivo.
JC - Por que você não nomeia as suas criações?
Emiliano - Isso é uma coisa que eu carrego comigo. Eu nunca coloco nome nas minhas criações. Se você pega uma obra que se chama "São Jorge", a pessoa vai sempre ter a mesma interpretação. Quando alguém analisa uma pintura ou uma escultura que não foi nomeada, essa pessoa aprende a ver a obra de arte de uma forma diferente, sem nenhum direcionamento do artista. É claro que quando eu faço alguma peça, tenho a inspiração, um direcionamento, mas não necessariamente eu passo isso para quem visualiza meu trabalho. Nas exposições, percebemos até que quando não tem nome as pessoas ficam mais tempo observando e interpretando o que estão vendo.
JC - Esse "desapego" pode ajudar na hora de se desfazer de uma criação?
Emiliano - Não necessariamente. Como artista, sinto muito prazer quando alguém gosta e se identifica com a minha obra e a adquire.
JC - Que conselho daria para quem quer se tornar artista plástico?
Emiliano - Eu acho que para quem quer chegar a algum lugar como artista, a primeira coisa é que essa pessoa goste mesmo do que vai fazer. Isso é o mais importante. Outra coisa importante é insistir. Às vezes, a pessoa faz um trabalho, para e acaba não sabendo se realmente gosta daquilo. Uma boa forma de se conhecer como artista é experimentar muito, conhecer novos materiais e nunca parar de pesquisar, conhecer e aprender. Têm muitos livros na nossa área e hoje a Internet ajuda demais quem quer ampliar sua formação.
Perfil
Nome: Jorge Roberto Emiliano
Idade: 54 anos
Local de Nascimento: Araçatuba/SP
Signo: Peixes
Esposa: Elenir
Filhos: Mariela e Lualis
Hobby: Jogar futebol
Livro de cabeceira: "Minutos de Sabedoria"
Filme preferido: "E o Vento Levou"
Estilo musical predileto: MPB
Time: Santos
Para quem dá nota 10: Para minha mãe, dona Cida.
Para quem dá nota 0: Para a Usina de Belo Monte
E-mail: jorgeemiliano86@yahoo.com.br