Pode marcar no calendário: domingo é dia de jogo entre os times participantes dos campeonatos amadores de Bauru. Se você mora em algum bairro representado pelas 33 equipes que integram a primeira divisão do torneio, certamente, já sabe disso e, muito provavelmente, já até compareceu ao estádio para torcer pelo representante de seu bairro.
Mas se você nunca reservou algumas horinhas das manhãs de domingo para ir a um estádio distrital conferir a peleja dos amadores, faça essa experiência: é surpresa na certa.
O cenário dos jogos se assemelha em muito ao das disputas profissionais, exceto pela estrutura física, que nem sempre está em condições tão boas quanto deveria. Do mais, tem torcida organizada, jogadores devidamente uniformizados, gritos de guerra ensaiados, instrumentos musicais e bandeiras gigantes para embalar o time, além de muita rivalidade, é claro.
Aliás, a paixão dos torcedores pelos times é marca registrada das disputas. No futebol amador, corintianos, palmeirenses, são-paulinos e santistas driblam as diferenças, se misturam e formam um só grupo: o dos amantes do time que representa seu bairro.
Em Bauru, 23 equipes disputam a primeira divisão da Liga Bauruense de Futebol Amador (LBFA) e nove a Copa Semel. Ao todo, eles representam 27 bairros da cidade. Número que se torna ainda maior se considerarmos os times da segunda divisão e os que ficaram de fora do campeonato por falta de estádio para a realização das partidas.
Para José Carlos Marques, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru e líder do Grupo de Estudos em Comunicação Esportiva e Futebol (Gecef), a paixão pelo futebol e o sentimento comunitário manifestados por meio de torcida e da mobilização é algo natural.
"Os times do amador surgem nos bairros e criam uma relação de afeto com os moradores, que o elegem como representante perante a cidade. Isso se deve à necessidade que uma comunidade tem de mostrar identidade aos bairros vizinhos", explica José Carlos.
Mas a relação entre times e bairros não é exclusividade de Bauru e, sim, uma realidade nacional. Basta voltar os olhos para o Rio de Janeiro, estado onde os principais times levam os nomes dos bairros onde surgiram, como o Fluminense, o Botafogo, o Bangu e o Olaria, por exemplo.
"A busca por mostrar sua identidade faz parte de qualquer agrupamento social. É uma questão geográfica que acaba por gerar uma grande rivalidade. As pessoas querem mostrar que o grupo ao qual elas pertencem é o melhor e, por isso, a violência se torna um dos componentes da disputa", afirma o professor.
O dono da bola
Cada bairro quer ter um time de futebol que o represente. Se possível, até mesmo mais de um. Contudo, o futebol amador de Bauru herdou algo que, geralmente, compõe as peladas disputadas em campinhos de várzea por crianças e adolescentes: a regra que diz que o dono da bola é quem manda no jogo. Traduzindo: os times dependem do apoio do município para jogar. E apoio, nesse caso, significa a estrutura da partida, o estádio.
"Na Liga Bauruense de Futebol Amador (LBFA) temos 23 times inscritos na primeira divisão e mais 28 na segunda divisão, totalizando 51 equipes. Ainda assim, todos os dias, recebemos novos grupos que querem participar do torneio, mas, infelizmente, temos de negar. Esse ano, ficaram pelo menos dez times de fora porque não temos estádios suficientes", afirma Vicente Silvestre, presidente da LBFA.
Além disso, para se manterem, os times precisam sair à caça de patrocinadores, já que para disputar a LBFA despendem de R$ 350,00 para filiação e inscrição e mais R$ 120,00 por partida, referentes à arbitragem.
Sem contar as despesas com jogos de camisa, massagista, ônibus e o salário dos jogadores, já que, atualmente, segundo os times entrevistados pela reportagem, é raro encontrar equipes que não pagam para seus representantes entrarem em campo.
"Hoje em dia o futebol amador está semi-profissional. Você não encontra mais gente disposta a jogar pelo time por amor, sem ganhar nada. Todos os jogadores querem salário. Os times de amador se mantém na ativa por insistência", revela Benedito Anselmo Filho, presidente do conselho deliberativo do Parquinho Futebol Clube, que pediu licença do campeonato e pendurou as chuteiras esse ano.
Além da LBFA, Bauru sedia a Copa Semel, organizada pela Secretaria Municipal de Esportes e Lazer depois que a Liga Regional de Futebol de Bauru (LRFB) foi extinta. Dela, participam nove times.