08 de julho de 2026
Regional

Jogo de empurra e bebê morre em Pirajuí

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Pirajuí - A família de uma criança morta quatro dias após o nascimento, em Pirajuí (58 quilômetros em Bauru), está revoltada. A espera de uma vaga - que só veio após a morte do bebê -, a realização de um parto normal que supostamente deveria ser cesárea e diferentes versões da Secretaria de Estado de Saúde e dos médicos da Santa Casa de Pirajuí são apenas alguns dos pontos que ficaram mal explicados na história que terminou de maneira trágica anteontem.

Júlia Carolaine Padilha dos Santos nasceu na última quarta-feira, por volta das 10h da manhã. Segundo a família, o ginecologista que acompanhava o caso, Lauro Teixeira, teria recomendado que o parto, programado para o próximo dia 29, fosse cesariano, uma vez que a mãe da garota, Juliana Padilha Santos, 21 anos, possuía uma infecção urinária.

Entretanto, o bebê nasceu antes do programado. E de parto normal. "Minha filha (Juliana) foi se tratar da infecção. Não era para o bebê ter nascido. E o médico que a a-companhava, que não estava na hora do parto, tinha dito que o recomendado era cesariana. Não foi isso que fizeram. Fizeram parto normal", conta a avó da criança, Claudinéia Aparecida Padilha, 41 anos.

O médico Lauro Teixeira, entretanto, nega que tenha feito essa recomendação. "Eu não cheguei a citar cesariana. O bebê é prematuro. Nunca recomendaria cesariana em um bebê que não está pronto e a uma mãe com aquela infecção forte. Nem eu e nem qualquer médico do mundo faria isso. Se fosse feito uma cesárea, poderiam ter morrido a mãe e a criança", argumenta o médico, Segundo ele, o bebê nasceu de 35 semanas e meia, sendo que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera como "maduro" a criança após 37 semanas. O bebê teria nascido bastante debilitado e com apenas dois quilos e meio.

Se já não bastasse essa inconsistência entre as versões sobre o parto, outra confusão se formou depois do nascimento. Prematura, com suspeita de uma doença do coração e acometida de uma infecção, foi solicitada uma vaga para a criança em alguma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal da região, uma vez que a Santa Casa de Pirajuí não conta com o serviço.

Pedido cancelado?


Segundo a assessoria de comunicação da Secretaria de Estado de Saúde, a Santa Casa de Pirajuí realmente solicitou a vaga para a criança e ainda um exame para confirmar a suspeita de doença cardíaca ainda na quarta-feira. Entretanto, no mesmo dia, horas depois, a própria instituição teria cancelado o pedido de vaga, alegando que o bebê estava melhorando.

Ainda de acordo com a assessoria da Secretaria de Saúde, quem fez o pedido de cancelamento da vaga foi o pediatra da Santa Casa de Pirajuí Carlos Alberto Marangon. O médico, entretanto, nega toda a história. "Eu não fiz o pedido para cancelar a vaga. Sabia que ela precisava disso. Tanto que no sábado eu fiz um pedido para reforçar a necessidade dessa vaga", argumenta o médico.

A assessoria de comunicação rebate a informação e diz que o que foi feito no sábado, por volta das 22h, foi o pedido da vaga que anteriormente havia sido cancelado pelo próprio médico. Segundo a assessoria, algumas horas depois do novo pedido ligaram afirmando que não era mais necessário, pois a recém-nascida já havia morrido, por volta das 4h da manhã do domingo.

A reportagem do JC tentou contato com o provedor da Santa Casa de Pirajuí, Darci Marques, porém, por volta das 17h30 de ontem, ele não foi encontrado na instituição. Também foi deixado recado no telefone de sua residência, todavia, até o fechamento desta edição, ele não havia retornado o contato.

Já o ginecologista Lauro Teixeira, após o fato, desligou-se do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Santa Casa. "Já devia ter feito isso há um bom tempo. Não tem relação com esse caso. Já prestei 30 anos de serviço ao SUS e está na hora de descansar", finaliza o médico.

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Repasse


O fato gerou questionamento até mesmo na Secretária de Saúde de Pirajuí. Segundo a diretora adjunta Yara Marques Falavinha Garcia, o município faz um repasse mensal de R$ 125 mil para a Santa Casa da cidade, além de pagar, por parto, R$ 1 mil.

"Não houve falha do município. Isso não ocorreu por falta de recursos. É preciso entender o porquê foi realizado o parto normal se houve mesmo a recomendação de cesariana", afirma a diretora.

Conforme já citado, o ginecologista Lauro Teixeira nega que tenha recomendado a cesariana. "Se eu tivesse realmente recomendado a cesariana, estaria cometendo um homicídio. Minha conduta foi a mais correta possível", completa o médico.

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Exame


Além da prematuridade, o laudo do óbito aponta que a criança morreu de uma infecção neonatal e de lesão cardíaca. Entretanto, tal problema no coração não pôde ser identificado. O exame que havia sido solicitado no dia do nascimento pela Santa Casa de Pirajuí, mesmo disponibilizado, não foi realizado.

Mais uma vez, as versões se contradizem. Segundo o médico Carlos Alberto Marangon, o hospital não foi informado de que a vaga já estava disponível. Já a assessoria da Secretaria de Saúde do Estado afirma que o exame foi disponibilizado no Hospital Estadual (HE), em Bauru, e que não sabe qual o motivo de a criança não ter sido submetida a ele.

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Primeiro filho


Júlia seria a primeira filha de Juliana Padilha Santos, 21 anos. De tão abalada, ela não conseguiu conversar com a reportagem. A família afirma que a jovem está desolada e moradores contam que ela anda pela cidade somente chorando. Na casa, restaram apenas as roupas e o berço que nem sequer chegou a abrigar o bebê.

"Todos estávamos esperando. Já estava tudo pronto. Agora, só restou a tristeza. Não estamos nem conseguindo mais falar sobre o que ocorreu", conta a avó da criança, Claudinéia Aparecida Padilha, 41 anos.