09 de julho de 2026
Economia & Negócios

Moedas de guardadores de carros abastecem comércio

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Abominados por motoristas, os guardadores de carros estão se transformando em parceiros estratégicos dos comerciantes de Bauru. São eles os principais fornecedores de moedas para o varejo da cidade, em um momento em que a falta de troco se tornou um problema generalizado.

Devido à estabilização da economia e o aumento do poder de compra da população, os consumidores adquiriram o hábito de guardar moedas em cofrinhos e priorizar o uso de cédulas de real. Como consequência, o dinheiro feito em níquel desapareceu dos caixas e oferecer o troco certo aos clientes se transformou em uma árdua tarefa.

Mas, ao mesmo tempo em que o uso dos cofrinhos se popularizou, também se disseminaram os guardadores de carros, que ajudaram a minimizar o transtorno vivido pelos comerciantes. "Às vezes a gente pede para eles, quando tem algum por perto, ou eles mesmos procuram a gente para trocar. Ajuda bastante", comenta João Pedro Peres da Silva, caixa de uma franquia de milk shakes da região central da cidade que só comercializa produtos a R$ 3,00, R$ 3,50 e R$ 4,00 exatamente para driblar a falta de troco.

Guardador de carros há oito anos, Fabrício de Oliveira, 18 anos, conta que é fornecedor de moedas para dois estabelecimentos das imediações do Bauru Shopping e, mesmo quando recorre a outros, quase nunca recebe recusa para a troca. "Troco todos os dias. Junto de R$ 20,00 a R$ 30,00, o que dá quase umas 200 moedas. Já aconteceu uma vez de um posto (de combustíveis) não querer trocar. Mas, de resto, todos trocam porque precisam de troco", observa.

De acordo com Benedito Adécio Moretti, sócio-proprietário de uma padaria no Vista Alegre, os próprios consumidores que possuem cofrinhos também acabam colaborando com os estabelecimentos, depois de deixá-los um longo período desguarnecidos. "A padaria já tem 33 anos e uma clientela fiel, então tem um pessoal que vem sempre trocar, o que dá uma força. Eles tiram as moedas de circulação, mas depois devolvem", brinca.

Camaradagem


Algumas lojas também costumam ir a instituições bancárias uma ou duas vezes por mês para trocar cédulas de maior valor por notas menores, mas reclamam da dificuldade de obter moedas em quantidade suficiente nas agências. Por este motivo, mesmo com as parcerias estabelecidas com guardadores, às vezes o dinheiro trocado falta e é preciso recorrer também à camaradagem de estabelecimentos vizinhos, conforme relata a caixa de farmácia Julieth Kuwazuru.

"Além das lojas próximas, tem também aquelas pessoas que pedem na rua e vem trocar as moedas com a gente. Mas aí, são valores bem pequenos", acrescenta.

As moedas mais raras no mercado, segundo os comerciantes consultados pela reportagem, são as de R$ 0,05, R$ 0,10, R$ 0,50 e R$ 1,00. Mesmo com a popularização dos cartões de débito e crédito, chamados de dinheiro de plástico, há momentos em que conseguir troco se torna um verdadeiro desafio, principalmente no início do mês e nos primeiros dias após o dia 20.

"Em época de pagamento e recebimento de vale (adiantamento de salário), a maioria paga com notas altas. Em começo de mês, já recebi nota de R$ 50,00 de um cliente que veio comprar um produto de R$ 2,00", revela Daiana Lima da Silva, vendedora de uma livraria instalada no Centro da cidade.

Diante da dificuldade de oferecer troco, segundo ela, vale até mesmo insistir para que o cliente encontre moedas perdidas no bolso. "A gente tem que dar um jeito, dar aquela choradinha, porque realmente falta moeda no mercado", pondera.

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Moeda de R$ 0,01 é raridade


Se o varejo sofre com a dificuldade em encontrar moedas, a de R$ 0,01 se tornou uma raridade que praticamente já foi esquecida pela maioria. Nos cinco estabelecimentos visitados pela reportagem, todos os comerciantes afirmaram não trabalhar mais com a moeda de menor valor nacional simplesmente porque elas deixaram de ser utilizadas pelos clientes.

Segundo com o Banco Central, cada moeda de R$ 0,01 custa R$ 0,09 centavos para ser confeccionada. Conforme o site da instituição financeira, o valor ainda circula no mercado e a produção ocorre conforme a necessidade dos bancos.

Mas, para a Adriana Okamura Diogo, proprietária de uma banca e jornais e revistas, o níquel de R$ 0,01 aparentemente já se transformou em artigo de museu. No estabelecimento, ela comercializa vários itens a R$ 1,99 e R$ 2,99. Pela falta de troco, "arredondar" o valor cobrado para mais já é algo institucionalizado e aceito pelos consumidores.

Entretanto, quando o cliente reclama, ela costuma devolver R$ 0,05 pela ausência das desaparecidas moedas de R$ 0,01. "Às vezes, o pessoal pede troco em bala, mesmo quando o valor do troco é de R$ 0,05. Do contrário, tenho que arcar com o prejuízo. Não tem outra saída, porque moeda de R$ 0,01 simplesmente não existe", comenta.

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Balinhas


A escassez de moedas faz surgir uma prática ilegal e condenada pelos órgão de defesa do consumidor, o uso de balinhas como parte do troco. De acordo com o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), caso o comerciante queira "empurrar" qualquer outra mercadoria como troco, estará incorrendo em uma prática abusiva por transformar a negociação em uma venda casada.

" O Código de Defesa do Consumidor (CDC) não prevê a possibilidade de o fornecedor utilizar outros produtos como balas e chicletes no lugar de moeda corrente. O troco na compra de produtos ou serviços deve ser feito na mesma moeda do pagamento utilizada pelo consumidor", alerta a advogada do Idec, Mariana Ferreira Alves.

De acordo com ela, o consumidor que se sentir lesado deve formalizar uma reclamação junto ao Procon.