09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O que está na mídia hoje?


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Prezada professora Iara Silvia Arfelli Martins, da escola Profº Henrique Bertolucci, acompanhando seu texto no JC de 3 de julho de 2011, gostaria de dar-lhe meu apoio em sua indignação quanto ao enaltecimento de notícias nefastas quanto à educação, corrente na mídia atual. Eu também tenho reclamado em minhas publicações a respeito desse assunto e acredito que nós, educadores, devemos nos pronunciar ao invés de calar.

Inclusive já havia feito um texto seguindo esta linha, embora de maneira generalizada. Não observamos com relevância às coisas benéficas que acontecem em nosso Brasil, isso não dá audiência, apenas as notícias negativas que fazem o Ibope da emissora bater recorde. As emissoras de TV estão nessa corrida pela audiência, e nos jornais - que possuem o papel social de levar a informação e conscientização do que acontece na sociedade - essa influência é menos prejudicial, mas ainda é preciso melhorar o padrão de cobertura da notícia, pois também acaba entrando nessa concorrência jornalística e, às vezes, esquece-se de seu real objetivo que é informar, formar opiniões e conscientizar os leitores dos mais variados problemas sociais. Destaca-se com eloquência  um assassinato repugnante ao invés de um projeto escolar que deu certo, ou uma ação social beneficente ou histórias de brasileiros que lutam por sua cidade, sua praça, seu bairro melhor.

Isto não trás audiência, porque já dizia o famoso historiador Guy Debord no seu livro "A Sociedade do Espetáculo", publicado em 1967, "A raiz do espetáculo está no terreno da economia tornada abundante, e é de lá que vêm os frutos que tendem finalmente a dominar o mercado espetacular", e assim a Mídia está envolta, como em uma teia de uma viúva negra prestes a dar a sentença final à sua vítima. (...) Sob todas as suas formas particulares de informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto do entretenimento, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e no seu corolário - o consumo. A forma e o conteúdo do espetáculo são a justificação total das condições e dos fins do sistema existente.

Fica claro então, que tudo o que vivenciamos passa pelo amplificador do capitalismo, e deve se tornar objeto de consumo Dessa forma, o nosso nascer, o crescer o morrer torna-se um espetáculo que deve ser consumido pela sociedade para gerar acumulação nas mãos de quem detém os meios econômicos e culturais.

Portanto, estamos aqui a constatar que não é possível a Mídia sair dessa teia, por isso vamos continuar assistindo o grande espetáculo da vida humana, suas tragédias e vicissitudes sob a ótica do capital e consumismo. A seguinte frase de Guy: "No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso". Faz-me crer que hoje invertemos valores que sempre foram condição: como exemplo, as palavras de Eric Fromm "Numa cultura em que o objetivo supremo é o TER e ter cada vez mais até parece uma função normal da vida que para viver necessitemos de ter coisas. TER e SER são dois modos fundamentais de experiência, a energia específica de cada um determina as diferenças entre o caráter dos indivíduos e os vários tipos de caráter social. A grande diferença entre ser e ter é a que se estabelece entre uma sociedade centrada sobre as pessoas e uma sociedade centrada sobre as coisas".

Este é o mundo invertido que estamos vivendo: do fugaz, do fútil, do espetáculo, das informações efêmeras - sem reflexão. Esta tem sido a forma de apresentação da vida humana. Devíamos aprender com os tibetanos em seu ditado popular: "Dinheiro perdido, nada perdido; Saúde perdida, muito perdido; Caráter perdido, tudo perdido".

Por isso, cara professora, vamos continuar fazendo nosso trabalho com ética e res-ponsabilidade, sem esperar reconhecimento nem do governo, nem da mídia, nem desta sociedade do espetáculo e nem de muitos pais, mas sim daqueles que tem consciência de que são transformados com nosso saber. É por estes que trabalhamos!


Zilda Palloni Somense - professora de História