10 de julho de 2026
Geral

Beneficência realiza cirurgia inédita

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Um procedimento inédito em Bauru realizado pelo Hospital Beneficência Portuguesa salvou a vida de um homem de 69 anos. O paciente, que não terá o nome revelado para evitar constrangimentos, teve a aorta rompida por um aneurisma na região do tórax e, por conta de uma cirurgia rápida e pouco invasiva, conseguiu sobreviver.

Segundo o cardiocirurgião Cláudio Gabriele, que realizou a operação, cerca de 50% dos pacientes que sofrem com o mesmo tipo de problema morrem antes mesmo de chegar ao hospital. O idoso operado por meio da técnica inovadora - que era obeso, fumante e portador de enfisema pulmonar - deixou a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital em apenas 48 horas. "Ele foi para o quarto e já podia sentar e comer alimentos sólidos. Foi uma cirurgia muito bem sucedida", observa o médico.

Gabriele explica que o procedimento foi realizado por meio de equipamento de radioscopia, que permite ao médico visualizar em uma tela as estruturas internas do corpo, em tempo real. Desta forma, não houve necessidade de abrir o tórax do paciente, o que tornaria a operação muito mais arriscada.

Dispondo do aparelho, o médico efetua um corte na região da virilha e localiza a aorta femural, que recebe este nome por estar próxima ao fêmur. Ela, embora continue a mesma, muda de nomenclatura de acordo com a região do corpo - no abdome, recebe o nome de aorta abdominal e, no tórax, de aorta torácica.

A partir da virilha, o cardiocirurgião utilizou instrumentais específicos para percorrer toda a aorta com uma prótese até alcançar o tórax. Feita em níquel, titânio e tecido, a prótese em forma de tubo foi fixada por dentro da artéria, na região do aneurisma, onde estava dilatada.

"Desta forma, a dilatação é isolada da circulação sanguínea e, com o tempo, acaba murchando, já que a prótese serve como barreira para proteger a parede da artéria que estava sendo pressionada naquele local", explica.

De acordo com o cirurgião vascular, o aneurisma do paciente possuía nove centímetros de diâmetro, sendo que dilatações de artérias a partir de cinco centímetros já têm indicação de urgência para cirurgia. "Pelo tamanho, tivemos de usar duas endopróteses torácicas, em vez de uma", revela Gabriele.

Técnica nova


Além da técnica utilizada, outro ponto que contou a favor do paciente foi o fato de um coágulo ter se formado na região do aneurisma, o que impediu uma grande hemorragia. "Por causa deste tamponamento, tivemos condições de estabilizar o paciente por um período, tempo suficiente para prepará-lo para a cirurgia endovascular (por dentro da artéria)", detalha

Segundo Gabriele, o procedimento de nome complicado - cirurgia endovascular para correção de aneurisma roto (rompido) de aorta torácica - ainda não havia sido realizado em Bauru porque, além de ser caro, são poucos os profissionais treinados para efetuá-lo.

"A técnica foi criada em 1991 por um cirurgião vascular argentino chamado Juan Carlos Parodi. Além de se tratar de uma técnica relativamente nova, também requer muita habilidade e precisão nos movimentos", analisa. Afora a falta de profissionais, conforme o JC apurou, uma cirurgia como a realizada na Beneficência pode custar aproximadamente R$ 150 mil.

Por este motivo, segundo o cardiocirurgião, os casos de aneurisma de aorta torácica com indicação de cirurgia endovascular sempre são realizados da maneira convencional - com abertura do tórax do paciente. Outra medida adotada até há alguns anos era encaminhar os casos indicados de operação "fechada" para os grandes centros urbanos.

"Vale ressaltar que a radioscopia já é usada em Bauru para cirurgias em várias especialidades. Mas esta foi a primeira vez que o paciente com este tipo específico de aneurisma chegou vivo ao hospital e com necessidade urgente desta cirurgia menos invasiva", explica Gabriele.

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Doença silenciosa


Aneurisma é a dilatação anormal na parede da artéria, um vaso sanguíneo que transporta sangue rico em oxigênio do coração para outras partes do corpo. A maioria deles ocorre na aorta, a principal artéria que carrega sangue do coração para o resto do corpo. Nela, quando o aneurisma alcança diâmetro superior a cinco centímetros, pode romper-se e causar sangramento interno perigoso, muitas vezes fatal.

O aneurisma de aorta que ocorre na parte da artéria que passa pelo tórax é chamado de aneurisma de aorta torácica. A maioria deles não produz nenhum sintoma, até mesmo quando são grandes, o que faz com que seu índice de letalidade seja ainda maior. Este tipo de dilatação anormal geralmente é identificada em tomografias computadorizadas realizadas em decorrência de outros problemas médicos.

Em casos comuns de aneurisma de aorta torácica, as paredes da artéria ficam fracas e a seção perto do coração se alarga. Então, a válvula entre o coração e a aorta não se fecha apropriadamente e o sangue volta ao coração sem ser bombeado adequadamente para o resto do corpo.

O aneurisma é decorrente de ateroesclerose (enfraquecimento da parede da artéria) e é muito comum em pacientes fumantes ou acometidos por moléstias infecciosas como sífilis ou doenças hereditárias congênitas que provocam alterações das fibras de colágeno, proteína que dá resistência aos tecidos.