08 de julho de 2026
Geral

Indicação gera 60% das contratações

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Enviar currículos por e-mail, garimpar vagas de trabalho em sites especializados e procurar anúncios ou agências de recrutamento já não são mais garantia para conquistar um bom emprego. O caminho mais rápido e eficiente, segundo levantamento divulgado pela agência de recolocação Catho Online, é a indicação de um amigo. Trata-se da famosa prática do "Q.I.", ou "quem indica", hoje tecnicamente denominada pelos consultores de "networking" ou "rede de relacionamentos".

A pesquisa "Contratação, a Demissão e a Carreira dos Profissionais Brasileiros", realizada em abril deste ano com 46 mil profissionais brasileiros, mostra que 59,4% dos entrevistados conseguiram o atual emprego pela indicação de conhecidos. A recomendação é feita tanto por amigos que trabalham na empresa onde a vaga foi aberta (47,6%), quanto por quem não atua nela (27,4%).

Geralmente, as indicações ocorrem quando a empresa divulga internamente a existência de uma dada vaga, na expectativa de que seu corpo de funcionários ajude a encontrar um novo colaborador que, além de competente, tenha perfil para desempenhar aquele trabalho. Quando um nome é recomendado, são boas as chances de que seja contratado, já que a indicação interna acaba funcionando como um selo de qualidade para o currículo.

"Com a indicação, é inegável que o contratante ganha uma segurança maior na hora de fazer a contratação. Na tentativa de errar menos, este tipo de prática foi incorporada, com maior ou menor importância, em quase todas as empresas", comenta Núria Priscila Valentini Borro, psicóloga organizacional e do trabalho.

Dentro do ambiente corporativo, quem possui aval para fazer recomendações normalmente são profissionais que ocupam funções estratégicas, como gerentes e supervisores. Se um cargo de confiança dentro da empresa der boas referências sobre a índole e a capacidade de trabalho de um candidato, o caminho para conseguir o emprego pode ser consideravelmente encurtado.

Conversa sincera


Mas vale lembrar que gerentes e supervisores mantêm contato próximo com subordinados que também podem servir como fonte para o "Q.I.". Por isso, segundo especialistas, cultivar a rede de contatos é uma das principais estratégias para galgar um posto de trabalho.

"Se uma pessoa tiver interesse em determinada vaga, vale a pena entrar em contato com aquele colega e ser sincero sobre as intenções. Numa conversa informal, ela deve falar sobre suas habilidades e sobre o investimento que tem feito em sua capacitação. Também deve demonstrar que conhece o funcionamento da empresa", detalha Márcio Corrêa da Silva, supervisor administrativo de um serviço de assessoria empresarial em Bauru.

A indicação é vantajosa para as empresas à medida em que acelera o processo de recrutamento, além de aumentar as chances de acerto na contratação, mas Núria alerta para um problema que ocorre com frequência dentro do ambiente corporativo. Segundo ela, muitas vezes os contratantes aceitam a indicação sem avaliar corretamente se ela está sendo acatada para resolver o problema pessoal de um amigo desempregado ou a necessidade real da empresa.

Para a psicóloga, o ideal é que a recomendação seja considerada apenas um dos caminhos para o profissional chegar ao departamento de recursos humanos da empresa. "Uma empresa séria obedece a todas as etapas para contratação, desde análise de currículo, entrevista e avaliação psicológica do candidato. A indicação deve funcionar apenas como recrutamento e não como critério de seleção. Do contrário, poderão ocorrer uma série de problemas e, inclusive, prejuízos à empresa", frisa.

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Aumento do ?QI?


Realizada desde 2008, a pesquisa da Catho aponta que a indicação de um amigo tem se tornado cada vez mais importante para conquistar um emprego. De acordo com o estudo realizado em abril deste ano, 59,4% dos entrevistados declararam ter conseguido seu último trabalho por meio de recomendação. Em levantamento anterior, realizado em 2009, esta parcela correspondia a 44,5% dos entrevistados.

Atualmente, grandes corporações multinacionais vêm institucionalizando a prática e possuem programas que remuneram funcionários que fazem indicações qualificadas para determinadas funções. Segundo Núria Priscila Valentini Borro, psicóloga organizacional e do trabalho, existem até mesmo empresas cujas contratações são integralmente efetuadas através do famoso "Q.I.".

"São, principalmente, empresas familiares que começaram pequenas e cresceram. Os dirigentes acreditam que conseguem manter uma segurança maior sobre seu negócio por meio das indicações. Mas a maior parte das empresas ainda usa a indicação junto com outras ferramentas de recrutamento", explica.

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A pesquisa


A pesquisa "Contratação, a Demissão e a Carreira dos Profissionais Brasileiros" foi iniciada em 1998 pela empresa de recrutamento Catho Online. Focado em obter respostas diretamente dos profissionais, o estudo tem como objetivo identificar tendências do mercado de trabalho e acompanhar sua evolução ao longo dos anos.

Neste ano, o levantamento foi realizado com 46.067 profissionais em abril de 2011 por meio de convite de e-mail e questionário online com 249 perguntas. Foram considerados como participantes válidos apenas aqueles com mais de 16 anos, que trabalham para empresas privadas ou mistas e residentes no Brasil.

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1º emprego


Para quem acredita que o "networking" funciona principalmente entre profissionais de nível mais elevado, uma surpresa: a indicação tem sido importante também para quem procura o primeiro emprego. De acordo com Márcio Corrêa da Silva, supervisor administrativo de uma empresa de assessoria empresarial de Bauru, profissionais que não possuem bons currículos por falta de experiência tem boas chances de inserção no mercado se contarem com a indicação de um amigo.

"E isso vem ocorrendo bastante. As escolas técnicas oferecem uma boa base, mas a experiência para lidar com as tarefas diárias do mundo corporativo não pode ser medida no currículo de quem nunca trabalhou. Um amigo que seja de confiança da empresa e que dê uma noção do potencial daquele candidato pode garantir a vaga de emprego", salienta.

Mas, na avaliação da psicóloga organizacional e do trabalho Núria Priscila Valentini Borro, os cargos gerenciais e de diretoria ainda continuam sendo os mais ocupados por indicações. "E vale ressaltar que estes profissionais mais bem sucedidos com as recomendações geralmente já estavam empregados. Se estão trabalhando, o contratante parte da premissa de que eles possuem bom desempenho e estejam atualizados na profissão", frisa.

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Relacionamento com colegas é a maior motivação no trabalho


O estudo "Contratação, Demissão e Carreira dos Executivos Brasileiros", realizado pela Catho, também apontou que a principal motivação dos profissionais para a carreira é o bom relacionamento com os colegas trabalho. Logo em seguida, aparece o reconhecimento e a realização profissional. Surpreendentemente, o acúmulo de dinheiro e bens surge como o fator menos importante do ranking de 12 motivos.

Para Márcio Corrêa da Silva, supervisor administrativo de uma empresa de assessoria empresarial de Bauru, o estudo comprova uma tendência do mundo corporativo. "Hoje, os trabalhadores convivem mais com os colegas do que propriamente com a família e, por este motivo, passam a ter seu local de trabalho como segunda casa. Neste contexto, o bom relacionamento é fundamental para motivar o funcionário de maneira contínua", defende.

Para a psicóloga organizacional e do trabalho, Núria Priscila Valentini Borro, o resultado da pesquisa também é influenciado pela maior participação da geração Y (a atual geração de jovens) no mercado de trabalho. "E o que eles estão buscando é qualidade de vida. Mas acredito que a boa remuneração é importante para eles e aparece implícita no item reconhecimento profissional", avalia.

Ainda de acordo com a pesquisa, homens e mulheres se sentem estimulados pelos mesmos aspectos profissionais. Entretanto, em geral, eles são mais motivados do que elas, sobretudo quando se trata de enfrentar desafios constantes e da oportunidade de coordenar e gerenciar pessoas.

Em relação aos níveis hierárquicos, os profissionais mais motivados com a carreira e satisfeitos com o trabalho são diretores e gerentes, mesmo alegando sofrerem estresse. Analistas, assistentes e auxiliares aparecem como estressados e menos satisfeitos ao mesmo tempo. Já os estagiários, por sua vez, são os menos estressados entre todos os níveis e os mais satisfeitos, junto aos gerentes, ficando abaixo apenas dos diretores.