08 de julho de 2026
Articulistas

Descrença e dívida

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

O problema americano é um pouco mais do que a dívida ou se o Congresso vai ou não conceder a elevação do teto da dívida que atingiu 14,3 trilhões de dólares mês passado, de forma a permitir ao governo seguir pagando suas contas em dia, inclusive o serviço da própria dívida. É muito pouco provável que essa autorização seja negada, apesar do nível de irracionalidade a que chegou a disputa entre republicanos e democratas visando as eleições de 2012, quando a oposição pretende tirar Obama do poder, impedindo a sua reeleição.  Até o dia 2 de agosto republicanos farão tudo ao seu alcance para aumentar o desgaste  de Obama espremendo-o até aonde der.

Acredito que haverá algum tipo de acordo, inclusive porque a insistência em esticar esse "cabo de guerra" tem provocado desconforto na opinião pública em relação aos dois partidos, manifestado nas pesquisas recentes. Então, não tem como tirar maior proveito político desse debate. Os americanos são razoavelmente bem informados e sabem que essa apelação por "moratória" põe em risco a credibilidade que eles construíram por longo tempo.

O problema mais sério para os americanos é que eles têm que resolver o que vão fazer com a dívida. Ela somente poderá ser paga com a economia crescendo e isso só vai acontecer restabelecendo-se o elo de confiança entre a administração e os trabalhadores e empresários, ou seja com o setor privado da economia. Foi essa confiança que Obama não soube manter ou construir desde o início. Começou mal, meteu os pés pelas mãos tentando ser socialista, fez intervenções que ofenderam o setor privado, estabelecendo-se um clima de desconfiança que hoje se demonstra com o fato que as empresas mantém em caixa 2 trilhões de dólares em títulos do Tesouro, segurando os investimentos.

Quando se pergunta "porque não investem?", logo vem a resposta que "é por causa que não tem demanda". Então, porque não existe demanda? Porque trabalhadores e consumidores em geral não acreditam que a política econômica de Obama vá dar certo. Tal descrença se origina no fato que sua primeira equipe de consultores econômicos o aconselhou muito mal quanto à forma de enfrentamento da crise financeira (praticamente o oposto do que fez o Brasil, com Lula) e em lugar de prestar atenção ao problema dos trabalhadores honestos que perderam os empregos, exagerou na salvação dos desonestos que produziram a crise. O presidente norte-americano demorou a perceber estes fatos. Mandou de volta os acadêmicos para suas escolas e está agora naquela situação de fazer a troca dos pneus com o carro andando. Obama terá que enfrentar a questão da dívida sabendo que ela só se paga com a economia crescendo, mas que é muito pouco provável que isso se realize impedindo que a dívida cresça.  Ele precisa reconquistar a confiança dos trabalhadores e empresários com uma política econômica que coloque o país de novo no rumo do crescimento, permitindo a recuperação dos postos de trabalho e reabrindo a possibilidade da sua reeleição. Após o que poderá cuidar melhor da reestruturação da dívida americana. 

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento