08 de julho de 2026
Geral

Tratamento exige a dedicação integral

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

Uma equação complexa envolve as mães e o atendimento do Centro de Atenção Psicossocial (Caps-Ad) de Bauru. Elas reclamam que o atendimento não chega na hora certa, que encontram dificuldades para levar seus ?rebentos? para as inúmeras terapias antes da internação e que não têm apoio para resolver a ?culpa? que recai sobre seus ombros, após a descoberta do vício do filho.

Para a diretora municipal da Divisão de Saúde Mental, Vera Lúcia de Paula Rodrigues é preciso mudar o paradigma da família, caso contrário fica complicado. "Nós temos percebido que mesmo que aumente a rede de atenção, a família nunca acha que a quantidade de leitos é suficiente. Eles querem esconder o problema e não é exatamente isso que acontece."

O trabalho do Caps-Ad é psicoterapêutico, avisa a diretora. Segundo ela, no caso dos adolescentes, há atendimento paralelo destinado as mães. "Claro que para aquelas que se sujeitam ao tratamento. Porque neste momento a família está extremamente fragilizada. Temos que trabalhar com eles os conteúdos terapêuticos e as questões internas da família. Buscar mecanismos de resolução, superação de crise", menciona.

Como toda situação tem dois lados, as mães rebatem a tese da diretora. Para elas há duas grandes dificuldades. Levar os filhos em todos os atendimentos, uma vez que nem sempre eles estão dispostos. O horário estabelecido pelo Caps- Ad para o atendimento é outro obstáculo. "Para poder levá-los, eu teria que deixar o emprego. Quero saber quem vai sustentar a família para eu ter tempo para isso?", reclama uma mãe.

Diante do impasse, só resta a alternativa de repensar o atendimento, uma vez que não atinge na totalidade aqueles que necessitam do tratamento. "Muitas vezes as pessoas não querem tocar em suas feridas. É mais fácil você culpabilizar o outro do que assumir suas próprias dificuldades. A questão terapêutica é muito difícil para os profissionais, porque eles têm que investir o máximo na família", discute a diretora do Centro de Atenção.

Concorrência "desleal"

Mas a questão tem outro agravante: quando as famílias também estão envolvidas com a droga. Rodrigues enfatiza que, no momento do atendimento, tem percebido que quando os adolescentes usuários de droga estão envolvidos com a criminalidade, na verdade, eles não estão sozinhos. "Algumas famílias também estão envolvidas com a venda ilegal de drogas. A gente fala que a concorrência é desleal. Nesses casos, o que temos para oferecer é pouco", cita.

Ela frisa que são 20 vagas para internação de adolescentes na cidade de Votorantin. "Toda vez que precisa de internação nós colocamos lá. Antigamente em Bauru o Caps-Ad tinha dois leitos de desintoxicação e a alternativa de internar no hospital Tereza Perlatti em Jaú. Pacientes com uso de álcool ou outras drogas que estivessem com comprometimento psiquiátrico grave a gente internava lá", cita.

Atualmente, são 50 leitos em comunidade terapêutica, 25 no Esquadrão da Vida e 25 no Bom Pastor. "Temos 10 leitos no hospital Manoel de Abreu, além do atendimento do Caps diário, ambulatorial, para os pacientes que preferem ficar no atendimento e não aceitam a internação", completa.


O atendimento

Na opinião da diretora municipal da Divisão de Saúde Mental, Vera Lúcia de Paula Rodrigues o número de leitos de internação é suficiente para Bauru. "É suficiente se todos os mecanismos forem utilizados adequadamente. Vamos imaginar o fluxo. O paciente chega no Caps-Ad e tem à sua disposição o atendimento ambulatorial. Lá ele pode até ficar no leito dentro do Caps por uma semana, vindo todos os dias com a família e participando dos grupos terapêuticos que é o chamado atendimento intensivo", explica Vera.

Caso o tratamento não surta efeito positivo, o médico vai mandar ele para o leito de desintoxicação por 15 dias, no Manuel de Abreu. "Se ainda assim, o paciente não melhorar, poderá ir para um hospital psiquiátrico ou optar por uma comunidade terapêutica."


Projeto para 24 horas

O secretário municipal de Saúde, Fernando Monti (PR), pretende implantar em Bauru um novo tipo de atendimento aos usuários de drogas, com um nível de maior complexidade. "Estamos elaborando um projeto para abrir um novo Caps-Ad. Ele funcionaria 24 horas e seria voltado para os adolescentes, no mesmo modelo existente atualmente", promete.

A ideia é resolver um problema mencionado pelos técnicos que trabalham na área. "Nosso Caps-Ad atende adultos e jovens. Nossa intenção é fazer um espaço próprio para os adolescentes. Aberto todos os dias e onde a família fosse acompanhada", conta o secretário.


Classe média alta é a bola da vez

Para traçar o perfil sócio-demográfico, a pesquisa ouviu 500 famílias de dependentes químicos da cidade de São Paulo Capital que participam do grupo Amor Exigente. "É uma mostra de conveniência (não aleatória). Uma das conclusões do estudo é que a maioria dos pais é de classe média/alta e que os usuários estão na faixa etária compreendida entre 23 a 30 anos", aponta a psiquiatra Maria de Fátima Rato Padin.

"Segundo o olhar da família, o jovem entra no mundo das drogas através da maconha que também é a preferida desse público. A média de internação é alta, principalmente de usuários de crack. Importante verificar que os pacientes estão a mais ou menos 10 anos na dependência química. O que preocupa é que estão desperdiçando tempo na fase produtiva", fala.

A pesquisa é inédita para o Brasil. "Ela vai ser apresentada no Congresso Internacional de Dependência Química, na Inglaterra. Os dados foram tabulados e serão usados em um artigo científico que será apresentado nesse congresso", finaliza.