Escotismo por um mundo melhor
A vida de Zoraide Donaire Pereira Grassi, daria para escrever um livro de auto-ajuda, tamanho são os exemplos de superação. Venceu muitos desafios e mesmo depois de aposentada não parou. Faz crochê, curte as plantas do jardim de sua casa, não dispensa a ginástica, estuda e ainda arruma tempo para ensinar o que sabe para os escoteiros. Há 29 anos ela participa do movimento na esperança de melhorar a vida dos jovens e assim construir um mundo melhor. Em seu currículo consta ainda o título de sócia fundadora da Associação dos Diabéticos de Bauru, onde atuou por 15 anos como diretora. Amigos não faltam e o mais interessante é que a maioria deles é jovens e crianças que encontram nela o caminho para o futuro. Exemplo de mãe e amiga, Zoraide é uma daquelas mulheres que não enxergam os números quando o assunto é idade. "Tenho 68 anos e me sinto jovem." Nessa entrevista, a aposentada conta parte de sua vida sempre ?bordada" por
Jornal da Cidade: Como você conheceu o escotismo?
Zoraide Grassi: Meus filhos me levaram ao escotismo. Em 1981, o mais velho entrou para o movimento, depois minha filha do meio e o caçula. Todos foram escoteiros. Como eles pedem a participação dos pais, até porque é um trabalho voluntário, eu me engajei no grupo onde estou há 29 anos. Meus filhos são todos adultos e não tenho netos, mas continuo fazendo aquilo que aprendi. No Brasil, o movimento não conta com verbas públicas. Eu me encantei com a ?filosofia? que busca um mundo melhor para os nossos filhos. Trabalha com a formação de caráter, com pensamento coletivo e com a ajuda a comunidade.
JC: O que é o escotismo para Zoraide?
Zoraide Grassi: Para mim é quase uma família. Os adultos se relacionam muito bem. Claro que temos diferenças, mas aprendemos a aparar as arestas, temos elementos para isso. Como todo grupo temos que lutar contra o egoísmo, vaidade. É um exercício de superação.
JC: Como é a convivência com as crianças e jovens?
Zoraide Grassi: Uma volta a infância. Período que aproveitei pouco porque fiquei sem pai muito cedo. Minha mãe ficou sozinha para criar eu e minha irmã e a gente não curtiu muito essa fase. Agora no escotismo eu faço coisas que até Deus duvida. Participo ativamente das atividades ao ar livre, acampamentos e tudo o que tenho oportunidade. Ganhei uma nova forma de ver a vida. Tanto é que quando eu paro penso que tenho 68 anos. Logo vou fazer 70, penso que está na hora de sossegar, ficar quieta, mas me sinto capaz e jovem para continuar.
JC: No que se baseia o movimento que conquistou você?
Zoraide Grassi: Principalmente na vida ao ar livre. A gente ensina tudo através de atividades ao ar livre. Em acampamentos, excursões. Mesmo na sede as nossas atividades são sempre ao ar livre. A nossa sede serve para guardar material. Lá também sentamos no chão para conversar, brincar. Essa interação com jovens e crianças faz muito bem para mim. Eu esqueço a minha idade, viro criança também.
JC: Como é o trabalho de busca da felicidade?
Zoraide Grassi: O escotismo tem regras muito boas que poderiam ser aproveitadas pelas escolas. Tem lei a ser obedecida por todos na busca pela felicidade. É um trabalho educacional para fazer com que a criança veja o que tem de bom na natureza, ao seu redor, para que ela se empenhe para que tudo de bom continue para sempre. Para ela ser um bom cidadão e fazer bem para os outros. Em troca ela receberá a felicidade. Jesus Cristo dizia que devemos fazer pelos outros aquilo que gostaríamos que fizesse para nós. Baden Powell fundador do escotismo dizia: ser feliz é fazer as pessoas felizes. É uma filosofia cristã de não ser egoísta, de se abrir para o mundo, de enfrentar dificuldades com alegria, com otimismo. Não podemos ficar em casa vendo a vida passar. Temos que fazer a vida acontecer.
JC: Hoje, você é professora?
Zoraide Grassi: De certa maneira sim. Me formei professora mas nunca fui dar uma aula. A condição financeira da minha mãe não permitia. Quando me formei no magistério eu prestei um concurso e arrumei um emprego que ganhava bem. Ajudei a formar minha irmã mais nova. Hoje, faço parte de grupos de estudos, busco conhecimento em cursos no Sesi, USP onde trabalhei por 23 anos e tudo o que aprendo, ofereço para os jovens do escotismo.
JC: Superar dificuldades é uma marca em sua vida?
Zoraide Grassi: Enfrentei muitas dificuldades. Desde a infância. Perdi meu pai muito cedo, minha mãe veio de Penápolis para Bauru. Tive que arrumar emprego logo porque minha mãe ganhava salário mínimo. Eu tinha que batalhar para continuar a faculdade. Quando eu me casei, foi com um rapaz pobre como eu. Batalhamos juntos, enfrentamos coisas pesadas. Ele é uma pessoa muito habilidosa, mexe com coisas que demandam inteligência, trabalho manual, embora tenha sido vendedor a vida inteira. Trabalhava na Nestlé. Sempre gostou de corrida de lambreta, aeromodelismo, volovelismo, planadores, atualmente está lidando com rádio amador. Logo no início do casamento, ele sofreu um sério acidente de planador.
JC: No escotismo você enfrentou situações difíceis?
Zoraide Grassi: Duas situações ficaram marcadas como mais um obstáculo superado. Em 1998 em Santa Catarina enfrentei um temporal acampada com os escoteiros em uma praia. Era o encontro nacional. O temporal arrasou com as barracas. Não fomos para hotel. Nos organizamos nas barracas que estavam em pé. Recolhemos tudo e um ajudou o outro a consertar os estragos. Em 2009, outro acampamento, desta vez em Foz do Iguaçu. Foi um tipo de um tornado que estragou muitas barracas . Foi um no meio da noite, por volta das 3 horas. Derrubou tudo. Fomos recolhidos em um antigo cinema. Depois da tempestade, por volta das 7 horas parou a chuva e começou a reconstrução do acampamento. Duas horas depois começamos a cumprir a rotina programada. É uma lição de vida que ensina a superar os obstáculos.
JC: Porque o escotismo não se torna mais acessível?
Zoraide Grassi: Porque ele depende de voluntários. Depende de cada pessoa. Cada pai tem que achar que é bom e colocar seus filhos no movimento. Mas não adianta só colocar o filho lá. Tem que participar. Eu entrei no grupo Tiradentes em 81, ele tinha sido fundado em 76. O trabalho é apaixonante, não consegui mais sair.
JC: Quem é o seu braço direito na casa?
Zoraide Grassi: Eu tinha meu filho mais velho e estava grávida da segunda filha. Trabalhava fora e ele ficou praticamente um ano sem andar. Eu cuidava dele nos intervalos do trabalho. Nessa época contei e conto até hoje com a ajuda da Maria Aparecida que é minha funcionária há 37 anos. Essa mulher tem papel importante na minha história. Ela não tinha nem carteira assinada eu que assinei a primeira carteira de trabalho dela. Ela aposentou com 30 anos de serviço e continua trabalhando comigo até hoje. Ela é meu braço direito e esquerdo.
JC: Quem foi exemplo para você?
Zoraide: Minha mãe. Ela ficou viúva aos 34 anos e batalhou muito para criar as duas filhas. Uma mulher quase que sem instruções conseguiu formar eu e minha irmã. Deu uma vida digna para nós apesar de todas as dificuldades que enfrentou.
JC: Você foi uma das fundadoras da Associação dos Diabéticos de Bauru?
Zoraide Grassi: A associação nasceu na troca de informações dos familiares dos diabéticos. Eu tenho uma pessoa na família e encontrei apoio para superar essa doença junto com outras pessoas que enfrentavam o mesmo problema. Tive a sorte de encontrar um médico, Dr. Negrato, que foi um profissional, pai, amigo e psicólogo. Ele e o vereador Lelo foram fundamentais para a fundação da associação que ajuda os diabéticos até hoje. Ainda sou sócia. Fiquei na diretoria por 15 anos.
JC: Qual a última loucura?
Zoraide Grassi: Saltei de paraquedas no ano passado. Uma jovem me convidou e fiquei pensando que ela tinha feito o convite porque me considerava apta. Fui e a sensação foi maravilhosa, liberdade total. Se eu chegar na beira de uma janela e olhar para baixo, me dá um frio na barriga. Lá de cima não. Eu saltei em queda livre em 30 segundos. Senti o vento batendo na minha cara a 200 quilômetros por hora. Isso é vida. Aprendi que na descida não se pode colocar o pé direto no chão, tem que dobrar o joelho para não se machucar, como na vida. A gente nunca pode bater nos obstáculos de frente, com força. Tem que ser maleável como o capim. O rio passa por cima do capim, e em seguida ele levanta. Já a árvore é pesada e a água derruba porque encontra resistência. Na vida temos que se curvar.
JC: O que faz doer o coração?
Zoraide Grassi: Dói o coração quando estou indo para o grupo de escoteiro e encontro jovens nos semáforos pedindo. Vejo gente deitada no chão, drogadas. Dói muito. A gente se sente incompetente. Queria ver esse pessoal respeitando a pátria, os outros, eles mesmos. Vivendo e aproveitando a vida.
JC: Como você encara as dores físicas e emocionais?
Zoraide Grassi: Todos nós temos e a melhor maneira de enfrentá-las é sendo otimista. Superei o acidente do meu marido, do meu filho, doenças na família e o final da vida de minha mãe que chegou em um ponto que não sabia mais nem meu nome. Mesmo assim, eu acreditava e não deixava o movimento do escotismo, porque lá convivo com jovens, brinco, jogo bola e por ora esqueço os problemas. Atualmente estou auxiliando uma menina a montar uma horta. Tem sido muito bom, porque fiz esse curso no Sesi e estou repassando o conhecimento. Me considero uma ponte, aprendo aqui e ensino ali. Fiz cursos de culinária, horta, paisagismos para poder ensinar.
JC: O que te guia?
Zoraide Grassi: Deus. Acredito que ele seja uma energia poderosíssima. Respeito todas as religiões porque creio que elas nos ligam ao criador, seja qual for o nome. No escotismo alimentamos esse pensamento, não importa a religião. Temos que respeitar Deus.
JC: Se você pudesse, o que mudaria para garantir um futuro melhor?
Zoraide Grassi: Eu tenho paixão pela natureza. Gostaria que o respeito a natureza fosse intensificado. Que a questão do lixo saísse do papel e fosse realmente praticada. Que a reciclagem fosse levada mais a sério assim como o desperdício. Dia desses fiquei triste porque de um carro importado foi lançada uma garrafa pet. É preciso educar.
JC: Quais os princípios do escotismo?
Zoraide Grassi: Respeito a Deus, a pátria e ao próximo. O maior protegendo o menor. Esse é o princípio básico da promessa do escoteiro. O método escoteiro tem cinco itens básicos: respeitar a lei e a promessa , Deus, a pátria e o próximo. A vida em equipe e ao ar livre, ninguém faz nada sozinho. Sempre tem um mais sabido, um que está entrando agora e os do meio que ajudam. As atividades são variadas. Cada reunião é única. Trabalhamos com a realidade; primeiros socorros, drogas, como se desvencilhar de vícios, respeito aos outros, alegria, jogos, competições. Corrigimos e elogiamos, mostramos os defeitos e as qualidades de cada um.
JC: De onde foram retirados esses princípios?
Zoraide Grassi: O escotismo teve início com as obras de Baden Powell. Militar inglês ele estudou os tratados educacionais do mundo, desde a Grécia antiga para desenvolver esse método de educação infantil. Fez um resumo. Ele foi uma pessoa sofrida e querida ajuda as crianças da Inglaterra na época da revolução industrial quando muitas delas estavam pelas ruas porque seus pais haviam perdido o emprego.