"Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar. O anel que tu me destes, era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou".
Se a cantiga escrita acima não te remete a nenhuma doce lembrança nem te provoca um certo saudosismo, certamente você não faz parte de
uma geração marcada pelas brincadeiras de rua, joelhos ralados e sorriso constante no rosto.
Mas se esta cantiga de roda não só te provoca um sentimento de identidade como também te desperta para outras lembranças, você sabe exatamente a aventura que é descer uma ladeira em um carrinho de rolimã, a delícia que é brincar de "Pêra, Uva, Maçã ou Salada Mista", ou ainda o quão engraçado é "Pular Sela".
Velhas conhecidas de quem nasceu algumas décadas atrás, as brincadeiras improvisadas, também chamadas de brincadeiras de rua, estão em processo de extinção.
As bolinhas de gude, conhecidas por alguns como búricas, foram substituídas pelo videogame, o "Passa Anel" por bonecas que falam, pegam catapora e fazem xixi, o peão por minigames e as brincadeiras de roda por bate-papos virtuais em frente à tela do computador. Da infância típica do passado, restaram apenas lembranças resgatadas por pessoas que hoje carregam o título de pais ou avós antes do nome e que fazem de tudo para que seus descendentes vivam um pouco do que eles viveram.
"A mudança nos tipos de brincadeiras que fizeram parte da infância de diferentes gerações está diretamente ligada ao desenvolvimento da indústria e à urbanização", defende Cláudio Bertolli, professor de antropologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.
Ele aponta que o desenvolvimento da indústria de brinquedos colocou no mercado produtos mais sofisticados, que permitem a brincadeira individual, o que vem a colaborar com as novas características assumidas pelos bairros por conta da urbanização.
"As ruas transformaram-se em locais impróprios para crianças. Antes as pessoas viviam mais os espaços públicos, hoje eles representam perigo. Essa característica, somada ao aumento na produção de brinquedos individuais, mudou o perfil de brincadeiras da infância", afirma o antropólogo.
Reflexos
A transição dos tipos de brincadeiras que marcaram a infância da geração nascida décadas atrás para as que marcaram quem veio ao mundo mais recentemente provocam reflexos que vão bem além do fato de seu filho ou neto não apresentar nenhuma familiaridade com jogos como "Lenço Atrás", "Cinco Marias" ou "Mãe da Rua". Essa transição representa, acima de tudo, uma mudança de comportamento.
"As brincadeiras de rua estimulam o convívio social, o trabalho em grupo, o respeito às regras e às pessoas. E o mais legal é que elas são bastante simples. Muitas não precisam de brinquedo algum, muito menos de dinheiro, apenas de criatividade", explica o arte educador ambiental Guilherme Reis, 45 anos, conhecido como Tio Gui, que luta para preservar as brincadeiras lúdicas e de rua.
Para ele, sem as antigas brincadeiras, as crianças saem perdendo no quesito desenvolvimento, criatividade e tornam-se medrosas.
"O mundo digital é frio. Se você não está contente, se desconecta, fica invisível, deleta... mas a realidade não é assim. Nas brincadeiras de ruas as crianças aprendem a se resolver, vivem a vida de verdade, com direito a riso, choro e muita transpiração", avalia. E acrescenta: "O carrinho de rolemã, por exemplo, deveria fazer parte do arsenal de brinquedos de qualquer criança. E digo mais: deveria ser construído pela criança e seus pais", ressalta.
Solange Marino Dominguez concorda com Tio Gui. Tanto é que, pensando nisso, ela decidiu abrir em Bauru uma loja especializada em brincadeiras e brinquedos antigos, com prateleiras recheadas de peões, "Batatas Quentes", cordas, elásticos, carrinhos de rolemã, petecas, entre outras. Aberta há quatro anos, a loja encanta os baixinhos e, especialmente, os grandinhos.
"Não tem como resistir. Quando os pais conhecem a loja, sentem vontade de fazer com que os filhos vivam um pouco do que eles viveram. É a necessidade de resgate provocada por um tempo bom", conta Solange.