08 de julho de 2026
Articulistas

Felicidade tem preço?

Luis Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 4 min

Não me refiro ao preço em dinheiro que a gente costuma pagar por alguma coisa boa. Trata-se de um preço maior, de uma dívida mais sofisticada, que talvez nós tenhamos com aquele fino arranjo universal que parece acomodar todas as coisas em seus devidos lugares.

Este mês eu tirei férias e fui para a Irlanda, realizar um sonho que eu trazia comigo desde que era criança. Passei quinze dias lá. Fui sozinho ver aquelas paisagens fantásticas do litoral irlandês, sempre acompanhadas de pequenas cidades e vilas de pescadores repletas de lendas e histórias seculares. Eles souberam preservar sua história de uma forma apaixonada. Para todos os cantos que você olha, há sempre alguma coisa que lembra a saga dos celtas, dos vickings, dos ingleses e da hercúlea tarefa que o povo irlandês se propôs a realizar: a independência. Mas tenho tanta coisa para escrever sobre a história da Irlanda, que  prefiro falar sobre a viagem, em si. Imaginem uma viagem em que dá tudo certo. Pois foi melhor que isso. Deixei para decidir o que fazer e aonde ir só quando já estava lá, sem nenhuma programação antecipada. Estranhamente, deu tudo certo. Cheguei a Galway - a cidade mais tradicional e folclórica do país - um dia antes do início do festival de arte deles. É como se fosse o nosso carnaval. Eles se fantasiam, os pubs, os teatros e as ruas ficam lotados e vem gente do mundo todo. Soube disso lá, quando comprei o jornal. Fiquei em um hotel dentro do campus da Universidade de Galway, fundada em 1590. Para um professor de história, isso só poderia ser uma surpresa extremamente gratificante.

Até quando me dei mal, deu certo. Depois de alugar uma bicicleta e atravessar uma das Ilhas Aran pedalando, o barco atrasou e eu perdi o ônibus que me levaria de volta para Galway. Resolvi ir andando, pois a pequena estrada cercada por aqueles pitorescos muros de pedra ia acompanhando o litoral e revelando imagens deslumbrantes. Quando achei uma placa - escrita em gaélico, pois no condado de Galway a língua dos irlandeses é ainda viva e preservada entre os habitantes do campo -, percebi que teria que andar 32 KM até a cidade. Andei das 6:30 da tarde até 1:30 da madrugada. Mas cheguei. E no dia seguinte, apesar de uma bolha no pé, aqueles momentos de um desafio silencioso, em um dos locais mais desertos da Irlanda, fizeram a bolha e a dor nas pernas valerem o sacrifício. Em Cork também houve algo estranho. Estava em uma pequena cidade, pendurada em uma rocha sobre o mar. Havia lido que Cork era a segunda maior cidade da Irlanda. Consegui dar a volta na cidade em menos de uma hora. Só aí resolvi perguntar para alguém, se aquela era a rua principal de Cork.

"-Você não está em Cork. Aqui é Cobh. Cork é do outro lado desta baía", e apontou para o mar. Pensei em ficar tenso, mas quando tomei o trem e cheguei finalmente aonde pensava estar, descobri que Cork é uma cidade cinzenta, industrial e portuária, onde as diversões estão voltadas para a vida noturna - e a minha viagem foi toda voltada para a vida diurna. Retornei feliz para Cobh, com suas casinhas coloridas e enfeitadas com flores, onde há uma catedral gótica com 52 sinos de bronze que tocavam de 15 em 15 minutos (inclusive de madrugada), enchendo o povoado de melodia barroca.

Lá eu soube que me hospedei no hotel que abrigou a rainha Vitória, da Inglaterra. O lindo "Comodore Hotel" também proporcionou a última noite de felicidade para muitos dos afortunados que embarcaram no Titanic, pois Cobh foi a última parada do navio antes de encontrar seu destino trágico. No avião que me trouxe de volta, comecei a pensar se eu teria que pagar algo a mais por tudo de bom que passei - e por realizar um sonho que me perseguia desde muito criança, quando assisti ao filme "A Filha de Ryan". Cheguei ao Rio de Janeiro às 5 horas da manhã, depois que um inglês gordo me espremeu na janela, tomou uma caixa de "Boolmer" e passou 11 horas soltando gases e arrotando. Insuportável. Mas se o preço foi esse, até que foi baixo.


O autor, Luis Paulo Domingues, é professor de história e colaborador de Opinião