O fim anunciado dos serviços da Associação Hospitalar de Bauru (AHB) para atendimento de urgência e emergência, até outubro deste ano, pode levar os pacientes que já sofrem com falta de vagas ou demora na internação a serem transferidos para hospitais de outras regiões, mesmo sob o risco do transporte.
Sem alarmismo, a Secretaria Estadual de Saúde discute uma saída para minimizar a dificuldade nas internações durante a fase de transição. Ou seja, como acomodar os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) que já esperam na fila da urgência e emergência durante os próximos 90 dias, quando a Fundação de Botucatu (Famesp) assume o Hospital de Base?
Em mais uma reunião realizada ontem, integrantes da Divisão Regional de Saúde (DRS-6), do município e da Central de Vagas do Estado discutiram a queda na taxa de ocupação do Base e a previsão de maiores dificuldades nas internações até que esses serviços sejam transferidos para a gestão da Famesp. No encontro anterior, a alternativa mais discutida foi o de disponibilizar vagas de UTI em estabelecimentos de outras regiões, sobretudo para os diagnósticos graves em áreas como traumatologia, cardiologia e queimados.
Profissionais da área consultados pelo JC contam que a ocupação no Hospital de Base despencou, sendo já inferior à metade do que seria necessário. Alguns, mais pessimistas, falam em 40% de capacidade. Entre gestores do Estado o percentual admitido é de 60% de efetividade, que não deixa de confirmar a dificuldade no setor.
O presidente da comissão de intervenção da AHB, Aparecido Donizeti Agostinho, cita que a ocupação média do Base em 2011 foi de 54%, mas isso inclui leitos de convênios. "Em 2010 o Hospital de Base atingiu 99% das metas do contratado com a Secretaria Estadual de Saúde. Temos dificuldades sim, mas a questão é de que cumprimos praticamente o que foi contratado. Realmente esta indefinição preocupa. Mas deixamos claro que queremos que a transição ocorra no menor tempo possível e da melhor maneira possível para que não haja prejuízo aos pacientes, funcionários e médicos", aponta.
O atendimento Base via SUS, conforme os dados oficiais, tem 153 leitos disponíveis, sendo 24 de UTI. Mas Agostinho reconhece que já enfrenta a esperada demissão de médicos diante da confirmação de que o novo prestador de serviços, a Famesp, assume em 90 dias. "Temos problemas pontuais e tem uma ala desativada. Mas salientamos que as metas contratadas estão sendo cumpridas. Mas não posso negar que houve redução na disponibilidade de atendimento", pondera.
Para muitos profissionais que convivem há anos com os corredores do Base, entretanto, a situação já é grave. "Tem lugar que está deserto, não tem ninguém e se tem aparelho é sucateado e não está sendo utilizado", cita um profissional que não quer se identificar.
O interventor aponta dados menos alarmistas. As internações via SUS no primeiro semestre de 2011 caíram 12,77%, as cirurgias tiveram queda de 10,88% e exames como ultrassonografia caíram 16%. Os percentuais, isoladamente, estão longe de refletir alta taxa de desocupação. Mas o volume de serviços contratados no Base caiu nos últimos anos, contra uma demanda crescente em ordem inversamente proporcional, o que confirma a crise por vagas.
Transferência
A transição para o atendimento de urgência pela Famesp preocupa a Divisão Regional de Saúde. Gestores de saúde das cidades vizinhas alertam para a dificuldade nas internações, situação já declarada de advertência pela Secretaria de Saúde em Bauru.
O JC apurou ontem que duas propostas foram colocadas à mesa para tentar controlar o problema nos próximos 90 dias. Se um paciente ficar 48 horas no Pronto-Socorro e não for caso de urgência, como uma pneumonia por exemplo, este poderia ser alocado em vagas hospitalares de municípios próximos mais estruturados, como Pederneiras. Estes não entrariam na Central de Vagas. A própria Regional de Saúde, temporariamente, acomodaria o atendimento.
Mas para os casos graves, que exigem internação imediata, a saída pode ser a de recorrer ao deslocamento para outras regiões, em hospitais distantes. Os gestores que participaram das duas últimas reuniões, já sem a presença da interventoria da AHB, mencionaram a falta de clínicos para suportar a demanda no Base, a escassez de cirurgiões, com alguns profissionais já desligados do hospital, e de sobrecarga com neurocirurgiões. A pediatria continua sendo caso crônico, como em todo o País, e a área de endoscopia também enfrenta problemas neste momento.
Enquanto o Estado resolve quem vai atender os pacientes de urgência até a nova gestora assumir o Base, persiste o dilema em torno do agravamento do risco implícito no tempo de deslocamento para atendimento em outras regiões.