09 de julho de 2026
Geral

50% da receita de entidades vem dos atos de solidariedade

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Na língua portuguesa, substantivo abstrato é definido como aquele que não pode ser construído em nossa imaginação. Entretanto, nos últimos anos, Bauru mudou tal definição em um desses substantivos: solidariedade. Munidos desse sentimento, o bauruense tornou mais do que concreto o ato de ajudar o próximo. A ajuda, que poderá ser conferida de perto no aniversário da cidade, já é responsável por metade da receita que mantém as entidades da cidade.

A estimativa média é feita pelo presidente da Associação das Entidades Assistenciais e Promoção Social (Aeaps), Edemilson Arias Pinotti. "A solidariedade não é feita somente da doação de recursos. Nessa estimativa, contamos também a doação da força de trabalho, ou seja, o voluntariado".

De acordo com ele, nas 54 entidades bauruenses ? educacionais, de assistência social e de saúde - que fazem parte da Aeaps, a ajuda da população é fundamental. "A cidade está muito a frente de outras da região. Quando fazemos nossos eventos e mostramos o quanto conseguimos arrecadar, muitos não acreditam. Eles nos perguntam como conseguimos isso. Ajudar é uma característica do bauruense", afirma Edemilson Pinotti.

Em seis anos na associação, ele explica que já presenciou a solidariedade de diversas maneiras. " Vejo que a solidariedade não tem classe social. Há donos de empresas varrendo o pátio de entidades para ajudar. E eles não querem aparecer. Fazem aquele pois sabem a importância daquilo", conta, orgulhoso.

E se os voluntários têm noção de como é importante ajudar, quem recebe a solidariedade ? seja em recursos ou força de trabalho voluntário ? sente diariamente a importância desses atos. É o caso da coordenadora e pedagoga da creche Centro de Convivência Infantil João Paulo II, Márcia Louzada.

"Toda a ajuda para nós é importantíssima. E a solidariedade parece melhorar a cada ano. Não temos como reclamar do bauruense. Além daqueles que doam ou são voluntários, vemos a solidariedade nos próprios funcionários contratados. Eles recebem pouco e muitos optam por trabalhar ali porque são solidários", acredita Márcia, que, em 16 anos na área, afirma ter tirado dinheiro do próprio bolso diversas vezes para ajudar.

Festa solidária


Entre muitos eventos sociais de grande porte na cidade ao longo do ano, a Festa do Sanduíche Bauru, que começa amanhã, é um exemplo concreto da solidariedade. Há cerca de 15 dias, ocorrem as preparações para a venda beneficente do famoso lanche batizado com o nome da cidade.

"Estão participando da preparação cerca de 150 pessoas. Dessas, nem 15 são contratadas. Todo o restante é voluntariado. São pessoas que saem das suas casas somente para ajudar", afirma Edemilson Pinotti, presidente da Aeaps, cuja diretoria também é formada por voluntários.

Na festa, aproximadamente 380 pessoas irão trabalhar na venda do sanduíche bauru. "Todas são voluntárias. E elas ficaram grande parte do fim de semana lá. Essa festa exemplifica o povo bauruense e esse espírito solidário que já se tornou uma característica. Ajudando direta e indiretamente são quase 600 voluntários", conclui.

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Só para ajudar


Entre os 25 mil lanches que serão comercializados na Festa do Sanduíche Bauru, a Aeaps afirma que uma média de 15% não são retirados. "Existem pessoas que compram realmente só para ajudar. Muitas eram de Bauru e mudaram de cidade. Elas sabem que a festa é agora e ligam comprando só por solidariedade mesmo", explica o presidente da Aeaps, Edemilson Pinotti.

Segundo ele, esses quase 4 mil lanches que não são retirados são revendidos, o que aumenta ainda mais a renda destinada às entidades.

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Verba extra


A expectativa é de que a Festa do Sanduíche Bauru angarie em torno de R$ 200 mil. Esse valor será revertido para 20 entidades de Bauru vinculadas à Aeaps e escolhidas em um sorteio.

"Nesse sorteio, ocorre um fato muito bonito de solidariedade entre as próprias entidades. Algumas, que receberam uma verba extra ou conseguiram equilibrar suas finanças, se retiram do sorteio. Elas sabem que outras entidades precisam mais daquele dinheiro e não participam. É uma prova de como o espírito solidário está presente", conta o presidente da Aeaps, Edemilson Pinotti.

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29% dos brasileiros ajudam alguém


Segundo um estudo realizado em 14 países pelo grupo de pesquisas GfK e divulgado este mês, mostrou-se que 29% dos brasileiros costumam doar dinheiro todos os anos para a caridade. Na Europa, essa porcentagem é de 36%.

Entretanto, de forma empírica, o presidente da Associação das Entidades Assistenciais e Promoção Social (Aeaps), Edemilson Pinotti, enxerga Bauru fora desses números. "Aqui, certamente mais de 40% da população ajuda alguém ou alguma entidade. As pessoas são muito acolhedoras e enxergam as necessidades. O coração do bauruense é muito grande".

José Luiz Prata, da Comunidade Bom Pastor - que compreende creche, casa de recuperação de dependentes químicos, abrigo e acompanhamento de pessoas em liberdade assistida -, dá nota 9,5 para a solidariedade em Bauru. "Ainda existem muitos que podiam ajudar, mas não ajudam", diz.

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Perpetuação do espírito
solidário é preocupante


Com 55 anos, Paulo Bufeli afirma ter sido mordido pelo "bichinho do social" logo que parou de trabalhar. Aposentado pela Companhia Energética de São Paulo (Cesp), o voluntário conta que "não há nada mais prazeroso do que dar o ombro para alguém que está com problemas".

Entretanto, a Associação das Entidades Assistenciais e Promoção Social (Aeaps) está preocupada com a diminuição da quantidade de pessoas como Paulo. "Antigamente, o homem era o ?cabeça? da casa. Então, a mulher tinha tempo para o voluntariado. Quando ele se aposentava, com um padrão bom de vida, ele geralmente a seguia nessas ações sociais", relata o presidente da Aeaps, Edemilson Pinotti.

Segundo ele, esse perfil está mudando, uma vez que, para sustentar uma casa, é necessário o trabalho do homem e da mulher. "A mão-de-obra de voluntários é composta na maior parte por idosos. Sentimos que estamos chegando ao fim de um ciclo. E a troca está muito pequena. Tememos que o espírito voluntário diminua".

É exatamente por isso que se prega a profissionalização das entidades. Com esse mote, será realizado em agosto na Capital o 6º Encontro da Associação Paulista de Fundações. "Não é possível viver só de caridade. As ajudas sempre existirão. Porém, elas precisam entender que há outras maneiras de angariar recursos, como abrir um negócio com os lucros revertidos para ações sociais", diz Nicole Hoedemaker, da Associação Paulista de Fundações (APF).