Em muitos bairros residenciais sobrevive uma prática que já se tornou fonte de talentos para o País do futebol: os campinhos de terra batida. Qualquer pedaço de terra, terreno baldio ou quintal, serve de pretexto para as partidas disputadas entre amigos da vizinhança conhecidas também como "peladas". Nesses jogos que revelaram os primeiros toques de muitos craques consagrados do esporte mais apreciado em todo o planeta, vale quase tudo. Até mesmo se arriscar e improvisar o desenho de um campo no próprio asfalto.
Mas para os adolescentes e boleiros do jardim Vânia Maria, o futebol já não é mais de rua. Agora ele tem um campo de verdade, com direito a traves e demarcações de cal.
Essa foi uma iniciativa dos próprios "jogadores" que, cansados de ter que conviver com as reclamações dos vizinhos e com o perigo de ter o palco do futebol de fim de tarde literalmente no meio da rua, resolveram investir pesado na construção de um campo particular.
Sem um local adequado nas proximidades, a única alternativa de lazer seria a academia ao ar livre montada pela prefeitura no bairro, mas que não atende a "fome de bola" dos garotos. O jeito, então, foi se virar.
Muito longe dos gastos exorbitantes dos luxuosos estádios para a Copa do Mundo de 2014 que ainda não saíram do papel, e mais distante dos prazos a cada dia prorrogados pelas autoridades, o campinho da rua José Gimenes Campanha não teve custos altos e demorou o tempo permitido pela ansiedade dos garotos.
"Tínhamos alguns problemas clássicos, como o fato de jogar no meio do trânsito. Passava um carro, o jogo tinha que parar. Se alguém chutava muito forte e sem rumo, a bola ia muito longe e mais uma vez o jogo parava", conta o estudante Ricardo Pimenta, 16 anos, um dos líderes do grupo.
Ele explica que os jogos chegavam a reunir até 20 garotos entre 6 e 16 anos. "Isso depende do ânimo do pessoal. Quando eles estão mais folgados, temos que dividir mais times". E foi justamente no período de férias escolares que surgiu a ideia de aproveitar o terreno baldio no meio do quarteirão para fazer daquele espaço o centro do futebol do bairro. Depois de conseguir o espaço, restava torná-lo apto para uma boa "pelada". Então os garotos recorreram ao vizinho Adenílson Peloso, 43 anos. "Os garotos precisavam de ajuda e me prontifiquei. Conseguimos os troncos de eucalipto e montamos as traves na medida ideal", conta.
Sem mato alto e com as metas já fincadas, foi a vez de riscar linhas e encarar o jogo.
Começa o jogo
Seja num campo improvisado no meio da rua ou num espaço já estabelecido para a prática do futebol, a dinâmica do jogo não muda muito.
"São cinco para cada lado: um no gol e quatro na linha", conta Felipe de Carvalho, 15 anos, como ele mesmo se descreve, "um dos primeiros a ser escolhido". O goleiro não está ali por decisão própria, mas por imposição do sorteio realizado. "Só sai quando levar um gol ou quando fizermos dois no adversário", explica o jovem.
Improviso é o que não falta. As luvas são feitas das próprias sandálias tiradas dos pés agora descalços e prontos para a peleja.
Quando tudo que parece errado na verdade está certo, a poeira levanta e começa o jogo.
A "pelada" só vai terminar quando a força da natureza falar mais alto, a noite chega e a luz do poste mais próximo não sustenta mais a visibilidade necessária para que os craques do campinho do Vânia Maria possam desfilar em seu mais novo palco.