Aprovada pela Câmara Municipal de Bauru e sancionada pelo prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), a lei que proibia o uso de sacolinhas plásticas passaria a valer em outubro, mas foi considerada inconstitucional pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP). O autor da proposta, vereador Moisés Rossi (PPS) defende que os estabelecimentos comerciais utilizem a sacola oxibiodegradável, que leva, em média, apenas um ano e meio para se decompor.
A ideia, porém, não é uma unanimidade. O especialista em materiais plásticos Brasil Santiago Silva não acredita no real benefício ao meio ambiente com a adoção desses produtos. O engenheiro é consultor do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, que atua na regulamentação do setor plástico.
O principal argumento de Santiago contrário à obrigação da utilização das sacolinhas oxibiodegradáveis é de que elas não podem ser reaproveitadas a partir da reciclagem.
"Nessas sacolinhas, é aditivado um material que acelera a quebra das moléculas. No entanto, após serem usadas, elas vão para o aterro sanitário e acabou", aponta o especialista.
Já em relação às tradicionais sacolinhas de polietileno (que demoram cerca de 450 anos para se decompor), o consultor do IPT estima que 80% de sua produção são alcançadas a partir do reaproveitamento de matérias plásticos, sejam eles embalagens, recipiente ou, até mesmo, outras sacolas.
"Elas podem ser recicladas quantas vezes forem necessárias. O material antigo é transformado em grão e, a partir daí, torna-se uma nova sacola plástica", explica.
Meio ambiente
Sabe-se, no entanto, que a cultura da separação do lixo orgânico e reciclável ainda não é disseminada no Brasil, mas Brasil Santiago garante que ela está em ascensão e parte para a argumentação do ponto de vista econômico para sustentar os benefícios da sacola de polietileno, considerada por muitos como a ?vilã do meio ambiente?.
"A oxibiodegradável vira pó, enquanto a sacola plástica comum, não. Será sempre reaproveitada", pontua, ressaltando que ambas têm o petróleo como matéria-prima.
De acordo com o especialista, o custo industrial das sacolas reaproveitadas chega a ser 50% menor das plásticas produzidas com material virgem. A sacolinhas de polietileno recicladas são vendidas pelas indústrias, em média, por R$ 0,02 - a unidade -, sendo que a do mesmo tipo, mas que não é com matéria-prima reaproveitada sai por R$ 0,03. As oxibiodegradáveis, porém, custam apenas um pouco mais, R$ 0,035% (variação de 16% em relação às sacolas de polietileno virgem).
Brasil Santiago garante que é exatamente essa questão que justifica o interesse de setores econômicos na proibição da sacola de polietileno.
"Sob o argumento de preservação ambiental, os supermercados passarão a vender as oxibiodegradáveis, mesmo que os custos delas não sejam elevados. Comprando-as por R$ 0,035, tenho informações de estabelecimentos que já vendes esses produtos ao consumidor por R$ 0,19. É um lobby para que o prejuízo com a compra se sacolas se torne fonte de lucro", afirma o engenheiro, que diz já ter sido ameaçado por defender essa tese.
Embalagens x sacolas
O engenheiro Brasil Santiago Silva considera falsa a ideia de que as sacolinhas plásticas sejam grandes vilãs do meio ambiente em razão do longo período para decomposição. O consultor do IPT aponta que elas são responsáveis por apenas 3% de todo o setor de embalagens plásticas no País.
"É só analisar a quantidade de embalagens nas prateleiras dos supermercados e também comparar o peso da sacolinha, de três gramas, em relação a outros materiais, como a garrafa pet de 2 litros, que tem 50 gramas de massa", observa.
Segundo o especialista em plásticos, o material passa a impressão de que polui mais do que outros por conta de algumas condições físicas de sua composição.
"Quando mostram o rio Tietê na televisão, com todas aquelas garrafas de plástico boiando, achamos que apenas elas estão lá. No entanto, as de vidros estão no fundo da água, pois não ficam na superfície. O que precisamos, de imediato, é de garantir educação ambiental às pessoas", afirma Santiago.
Produção mais ecológica, porém mais cara
Segundo o engenheiro Brasil Santiago, não é correto classificar as sacolas chamadas oxibiodegradáveis como biodegradáveis de fato, pois, assim como as de polietileno, elas têm o petróleo como matéria prima.
"O material não some na decomposição. O plástico continua existindo, mas em pó, pois não pode ser reaproveitado nesses casos", explica. Além disso, o especialista afirma que as oxibiodegradáveis não atendem a normas técnicas exigidas internacionalmente e não contam com a aprovação de institutos que regulam o setor.
Já existe, porém, tecnologia para fabricação, no Brasil, de sacolas 100% ecológicas, como já acontece na Alemanha. "O IPT dispõe de tecnologia e pode auxiliar as empresas que tenham interesse em produzir sacolas à base de, por exemplo, amido de mandioca ou de cana de açúcar", garante.
O problema para isso, porém, ainda são os custos. Enquanto as indústrias gastariam cerca de R$ 3,00 por quilo para a produção de sacolas de plástico, o material biodegradável custaria cerca de R$ 25,00; uma diferença de 833%.
Além disso, Santiago explica que haveria resistência do ponto de vista prático. "Se uma dona de casa conservasse no congelador, por seis meses, uma carne embalada com esse tipo de sacola, o material poderia se decompor antes da utilização ou do vencimento da validade do alimento", pontua o engenheiro.