09 de julho de 2026
Cultura

O ?Poeta do Samba?

Neto del Hoyo
| Tempo de leitura: 4 min

Em entrevista exclusiva ao JC, o sambista Jorge Aragão, que encerra os três dias de festa dos 115 anos de Bauru amanhã, às 20h30, no Vitória Régia, em show com entrada gratuita, revela curiosidades da sua carreira e comenta os títulos de "Poeta do Samba" e "Cantor do Amor".

Leia nesta página outros trechos do bate-papo com o músico, que começou na página 1 desta edição do JC Cultura.


Jornal da Cidade:Você é considerado o "Poeta do Samba" e o "Cantor do Amor". Você concorda?

Jorge Aragão: Isso é uma responsabilidade muito grande, e não dá pra manter isso. Essa ligação acontece muito aqui no Estado de São Paulo. Mas o que acontece é que tem hora que, para ficar à vontade com a música, você tem que chutar o balde. Eu quero falar qualquer besteira, tipo o Chico Buarque: "Você não gosta de mim, mas sua filha gosta". Não parece poesia, mas ele estava sendo subjetivo na visão dele na época da ditadura. É bacana quando você tem essa liberdade, não só da criação, mas de colocar sua visão de como acha que são as coisas. Colocar seu modo, seu jeito e assim faz a sua música. Não como uma coisa de cotidiano, mas se puder fazer o que eu sinto é o que eu quero. Não vou escrever coisas utópicas. O que penso é que temos que falar da nossa história, do nosso dia a dia, falando de amor nesse sentido.

JC: E como é falar de amor? De onde vem essa inspiração?

Aragão: Quando fala de amor, você atinge uma grande camada do público. Esse é o grande barato meu. O cantar, o interpretar depende de caras e bocas. Mas têm momentos que parecem fugir da realidade. De repente, você está no palco e ouve: "Lindo". Aí não dá. Dá vontade de dizer: pega um óculos aí minha senhora. Parece que está vendo o Fábio Jr., não está vendo que sou eu (risos). Bota o óculos direitinho aí meu. Não é por aí. Eu falo de amor porque a nossa vida é baseada no amor, em nossos relacionamentos. Essa é a inspiração, por isso que eu preservo meu estilo.

JC: Quais as músicas que ainda são as mais pedidas nos shows?

Aragão: Nossa, aí tem um monte. A campeã, pode-se dizer, que é "Malandro", uma música de 43 anos. Mas têm outras também, como "Coisa de Pele", "Lucidez", "Coisinha do Pai" e tantas outras. Se fosse cantar todas as pedidas não iria aguentar. Todo lugar que eu vou tem gente falando que eu deixei de cantar um monte. Vou numa paulera só, quase duas horas de show, mas sempre vai faltar uma. É um repertório muito vasto.

JC: O que você tira como lição nessa sua carreira?

Aragão: Não tem porque criar expectativas e mitos na minha cabeça. Eu dormia na boca do lixo em São Paulo, na rua Aurora. Depois que o negócio começou a melhorar, começaram a me dar suíte na Paulista. Mas eu não quero isso, quero meu quartinho, com minha mesinha. Sem essa de porta pra lá, quarto pra cá. Falo com Zeca (Pagodinho) e ele pensa a mesma coisa. Eu quero é chegar em cima do palco com meu cavaquinho debaixo do braço e cantar aquilo que o povo quer ouvir. Essa coisa de meu espetáculo não existe. Não tem nada de show não. É uma troca de sonoridade com o público.

A minha grande lição acho que foi conseguir viver minha vida naturalmente como eu vivo. Sem expectativas maiores do que tenho e o que eu sou. Uma coisa é certa, a música me dá tudo que eu quero. Às vezes, dá pra pagar um carnê nas Casas Bahia, comprar um carrinho e fazer feliz uma pessoa (risos).

JC: Depois de fazer o encerramento da festa de 115 anos de Bauru, ainda serão mais dois shows no Brasil e em seguida uma turnê nos Estados Unidos. Como você está se preparando?

Aragão: Será a primeira vez que eu vou cantar em Nova York. Estou esperando com alegria, como sempre faço em todos os lugares que vou. Vai ser bacana estar com os muitos brasileiros que vivem por lá. Já estampam minha cara larga em cartazes por lá. Meu único medo é dos caras quererem jogar uma bomba por lá (risos).

JC: Que mensagem você deixaria e que música você escolheria para homenagear bauru nesses 115 anos?

Aragão: Primeiro, queria deixar meus votos de felicidades à cidade. 115 anos é uma data importante e, como eu disse no começo, me sinto muito feliz em poder participar desta festa. Se fosse para deixar uma canção, bom, são tantas... mas que tal "Coisa de Pele". Podemos sorrir, nada mais nos impede. Não dá pra fugir dessa coisa de pele... E no fim diz: é o povo que produz o show e assina a direção. Arte popular do nosso chão... e por aí vai (risos).