08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Uma gota de tinta num dia sem cor


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Bauru, quinta-feira, mínima de 6°. Possível temperatura de apenas 3° nesta sexta. Tento atravessar a rua para ir pelo caminho que julgo mais seguro para minha casa. Moro perto do shopping, ando pelas calçadas da grande avenida Nações Unidas. Mas o perigo não se intimida pela luz do dia ou pela presença de pessoas e carros. E quantos carros! Resolvo pegar outra rua para economizar o tempo que perderia tentando passar para o outro lado. Avisto um cão na casa da esquina, desses das placas "Não entre: cão bravo". Dou meia volta e resolvo ir pelo caminho de costume, agora ainda mais seguro. É comum meninos de rua fazendo malabarismo com limões ou laranjas no semáforo da rua onde passo. Mas hoje o frio faz o menino ficar sentado, como uma pedra se camuflando na calçada. Ele não era tão novo como os que costumo ver, mas igualmente miserável.

Nossos olhos tornam invisível aquilo que é comum e não nos choca mais. Porém, o menino me chama: - "Moça, me dá um dinheiro?!". Um ser triste se pinta no cinza da cidade. Não entendi direito, porque ele estava tão amontoado no chão, mas certamente foi algo assim. Parar para mendigos, abrir a bolsa. Oh! Que ingênua criatura faz isso hoje? Tudo tão perigoso, todos suspeitos, não se pode confiar em ninguém... mas estava tão frio e ele com as pernas e os braços apertados dentro de uma blusa velha. Só tinha nota de 5 e 10 reais... Muito dinheiro para dar de esmola! Fecha a bolsa, sai disfarçando e diz que hoje não tem. De noite ainda mais frio, será que ele sobrevive? - Toma menino. "-Obrigado", fala baixinho e estica a mão dentro da blusa mesmo para pegar a nota. Não, nada muda com isso. Talvez ele não esteja lá amanhã do mesmo jeito, talvez não esteja nunca mais. Não foi caridade para ele, estava ajudando a mim mesma. Precisava tirar a cena da cabeça, torná-la invisível de novo e assim me sentir menos desprezível.

Lydia Rodrigues - estudante de jornalismo na Unesp