No chão, a pessoa segura um carretel com metros e metros de barbante; no céu, as pipas se digladiam em intensas batalhas. Apesar das inúmeras atividades desenvolvidas ao longo da extensão da Nações Norte, essa é a que predomina. O terreno, onde será o Parque do Castelo, tornou-se um verdadeiro coliseu dessa atividade, na qual a munição - quase que - obrigatória é a ilegal e perigosa linha com cerol.
Nessa batalha, orgulha-se quem mais cortar a pipa do adversário. E isso é bastante frequente. Frases como "já é a décima (pipa) que eu corto" e outros gritos de "corre para pegar que ela caiu" dão ideia desse curto intervalo de tempo. Alguns nem chegam a empinar a pipa: ficam com uma vara de bambu esperando para pegar alguma que foi abatida pelos céus.
O terreno ajuda. Com grande área para correr e poucos fios elétricos, muitas pessoas passam o dia inteiro enfrentando os adversários. Entretanto, essa batalha, concentrada bem distante do solo, pode acabar em tragédia.
É quase impossível encontrar alguém que não utilize cerol em sua linha. O problema já assumiu proporções tão grandes que alguns jovens, cujas identidades foram preservadas, revelam uma situação extrema. "A procura pelo cerol é tão grande que alguns estabelecimentos já vendem a linha com o cortante".
Muitos outros confessam o uso do cerol. Todos afirmam tomar cautela, principalmente, com motociclistas. Os problemas, todavia, não deixam de aparecer. "Esses dias quase que um motociclista foi pego. Por pouco a linha não o acertou", revela outro adolescente.
Há ainda mais um grande perigo quando se usa esse tipo de linha. Caso atinja algum fio de energia elétrica, a possibilidade de que haja descarga elétrica é muito grande. Em alguns casos, o choque chega a ser fatal.
Polícia
Segundo o comandante do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I), tenente-coronel Nelson Garcia Filho, estão sendo feitas fiscalizações na área, entretanto, como é um local novo, ainda há estudos em andamento.
"Apesar de fazermos fiscalizações, ainda estamos estudando o local. A polícia sempre age mediante a demanda que possui. Como é um lugar novo, ainda não existem tais demandas", explica.
Em várias incursões policiais no local, muitas pipas com cerol foram apreendidas. De acordo com o Centro de Operações da Policia Militar (Copom), várias das denúncias feitas pela população são relativas ao cerol, sendo que, grande parte, é na Nações Norte.
"Quando fizemos o estudo do videomonitoramento, que, em breve, contará com 20 câmeras em Bauru, não havia a Nações Norte. Então, teremos que realocar os pontos já definidos. Certamente é uma via que irá necessitar de algumas dessas câmeras", completa o comandante Garcia. Os pontos das câmeras foram definidos recentemente, entretanto, a Nações Norte não foi contemplada.
Acidentes e prejuízos
O último acidente registrado em Bauru, segundo levantamento extraoficial feito pelo JC, envolvendo motociclistas e linha de cerol foi registrado em 2009. Atualmente, grande parte dos condutores faz uso de uma antena na motocicleta para evitar que a linha chegue ao pescoço. No entanto, o restante do corpo fica exposto ao cortante.
Segundo dados divulgados pela Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) de Bauru, no ano passado, o cerol foi responsável por 207 desligamentos de energia elétrica na cidade. A companhia alerta também para o problema de probabilidade de choque através da condução de eletricidade pela linha da pipa.
Velocidade dos carros e imprudência de pedestres assustam
Além da batalha que "rasga" ? literalmente ? os céus, existe outro grande risco: os atropelamentos. Por várias oportunidades, a reportagem flagrou jovens que, entretidos com as pipas, atravessavam a avenida sem sequer olhar para os lados.
Alguns, que querem se manter longe do local onde será construído o Parque do Castelo, até mesmo ficam sobre a pista. A disputa de espaço com os veículos, inclusive caminhões, é assustadora. "Esses espaços foram tomados desses garotos. Antes, existiam terrenos baldios. Agora, com a pista, eles resistem e continuam se comportando da mesma maneira", explica professor de antropologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Cláudio Bertolli.
Sem qualquer redutor de velocidade, os excessos dos motoristas também são frequentes. Além dos carros, existem os motociclistas que vão ao local para demonstrar irresponsáveis acrobacias. O prefeito Rodrigo Agostinho explica que não é possível colocar lombadas na via por conta dos declives. "Além de campanhas de conscientização, iremos comprar radares".
Entretanto, para serem instalados os radares, é necessária a conclusão de um estudo que está sendo realizado pela Empresa Municipal do Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb). Por meio da assessoria de comunicação, a empresa municipal informou que complementou a sinalização horizontal e vertical em parte da avenida.
Em relação ao estudo, informou que os objetivos são analisar o número de veículos na via, comprovar abuso de velocidade e o potencial de risco. A data em que será finalizado, porém, não foi mencionada.
Animais
Outro perigo existente na via é a presença de animais. Recentemente, conforme o JC noticiou, em menos de um quilômetro de distância, um grupo de vacas e outro de cavalos andavam livremente pela Nações Norte. No quilômetro 1 da avenida, cinco vacas pastavam no canteiro central. Já no quilômetro 2, três cavalos atravessavam a pista. Algumas pessoas tentaram espantar os animais, porém, sem êxito. Felizmente, nenhum acidente ocorreu.
Pipas criam até novo empreendedor
Além dos que se divertem com as pipas e do risco envolvido nessa atividade, há aqueles que, com espírito empreendedor, encontraram uma forma de angariar renda extra. É o caso de Alexon Luís Correa dos Santos, ou melhor, Alex Pipa.
Há pouco mais de duas semanas, o mecânico, de 26 anos, passou a vender pipas na Nações Norte durante os sábados e domingos. "Eu sempre vinha soltar pipa aqui. Via que muitas pessoas tinham as linhas cortadas e não tinham mais como brincar. Então, fui para São Paulo, comprei algumas pipas e estou vendendo agora".
Ele garante que a renda extra compensa. Aos sábados, o jovem tem uma média de R$ 70,00 de lucro e, aos domingos, esse valor passa de R$ 100,00.
"Está dando tão certo que comecei com pipa e agora estou vendendo refrigerante e cerveja. A procura é muito grande", completa Alex Pipa.