08 de julho de 2026
Bairros

Uma pro santo!

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

"Na véspera de sua paixão, durante a Última Ceia, Jesus tomou o pão, deu graças, o partiu, e deu aos seus discípulos dizendo: ?Tomai, todos, e comei: isto é o meu corpo, que será entregue por vós?. Do mesmo modo, ao fim da ceia, Ele, tomando o cálice em suas mãos, deu graças novamente e o entregou a seus discípulos dizendo: ?Tomai, todos, e bebei: este é cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos, para a remissão dos pecados. Fazei isto em memória de mim?".

Certamente, quem leu a passagem acima sabe que ela se trata da Última Ceia, protagonizada por Jesus e seus discípulos e narrada em diversas partes da Bíblia. Contudo, muito provavelmente, muitos leitores devem estar se perguntando o que a passagem bíblica tem a ver com esta matéria, que trata de bares bauruenses que adotaram nomes ligados à religião.

A resposta é simples: as histórias bíblicas e os bares da atualidade têm muito em comum. Ambos têm como pano de fundo uma reunião entre amigos, a partilha do alimento, momentos de reflexão e, é claro, o vinho, a bebida da felicidade.

"A partilha e a bebida, em especial o vinho, sempre esteve muito presente na história da igreja. A imagem de Jesus reunido com seus discípulos e dividindo o pão e o vinho é muito forte em nosso imaginário. Por isso, batizar bares com nomes ligados à religião é algo muito comum, mesmo que feito de forma inconsciente", explica Enrique Corthorn, diretor de comunicação e marketing da Universidade Sagrado Coração (USC).

Outro ponto de ligação entre os bares e os santos católicos, é a devoção.

"Antigamente, as pessoas costumavam dar nome de santo a qualquer estabelecimento, seja ele uma mercearia, uma padaria ou um bar. Era uma forma de pedir proteção, de mostrar devoção", explica Rodrigo Capello Leão Peres, proprietário do Bendito Santo Botequim.

Espalhados pelos bairros de Bauru existem vários exemplos desta associação, como a casa noturna Santa Madalena, o Santa Tereza Bar, o restaurante Vila de São Francisco, o Capela Club, o Templo Bar, o Bendito Santo Botequim, o Shiva Bar, entre outros.

Para justificar o batismo do estabelecimento com nomes ligados à religião, a maioria dos proprietários recorre à explicação de que buscavam por um nome forte. Poucos fazem a associação do ambiente com a história da igreja ou admitem devoção.

"Um nome forte é aquele que tem relações com o emocional, que provoca um apelo aos valores. Ninguém irá a um bar que se chame O Demônio Perverso", exemplifica, em tom de brincadeira, e ressalta que, no marketing, o melhor que pode-se tentar é a relação inconsciente.

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Sem problemas


O conservadorismo é uma das principais características da Igreja Católica, contudo, a moda de batizar bares com nomes de santos ou elementos ligados à religião ainda não despertou a ira da instituição. Pelo contrário, alguns religiosos até entendem a escolha e aprovam a homenagem.

"Eu, particularmente, não vejo problema. Existe uma frase que diz: ?Onde reina o amor, Deus aí está?. E eu acredito muito nisso. Se o bar é um ambiente saudável, de diálogo e reunião entre amigos, qual o problema? Se nele reina a harmonia, pode, sim, ser um local santo. Para quem tem fé, todo local é sagrado", defende o padre Luiz Antônio Lopes Ricci, que acredita que nomes ligados à religião jamais seriam atrelados a estabelecimentos inapropriados.

Contudo, o religioso faz questão de ressaltar que, nestes locais, o equilíbrio é fundamental.

"A Igreja não apóia o consumo excessivo de bebida alcoólica nem o vício. É preciso respeito, equilíbrio e bom senso. O espaço pode levar o nome que for, mas deve ser ocupado com moderação", frisa.

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A do santo, vai pra Onofre


Uma das ligações mais comuns feitas entre bares e santos é, certamente, o hábito de, antes de beber a pinga, despejar um pouco no chão. O gesto, apesar de estranho, tem explicação.

Segundo pesquisadores, ele nasceu num ritual chamado libação, criado por gregos e romanos, que consistia em uma oferenda aos deuses para que eles provessem de felicidade, harmonia e fartura. Gesto que passou a ser repetido no Brasil graças à influência dos portugueses.

Foi também na colonização do País que criou-se a aguardente, feita da cana de açúcar, de cultivo abundante no País, oferecida aos escravos para espantar o frio.

Diz a lenda que quem recebe as cachaças no chão despejadas para se cumprir a tradição é Santo Onofre, protetor dos alcoólatras. Seus fiéis acreditam que, logo no início de sua vida, o santo teria superado o terrível vício. Contudo, nada ficou provado nesse sentido.

Por via das dúvidas, não custa nada pedir proteção ao santo, jogando um pouquinho de cachaça no chão. E não se esqueça: logo depois de engolir a bebida, faça uma cara bem feia, pra ajudar a espantar o diabo.