Com a proposta de ensinar normas da língua portuguesa de maneira simples e bem- humorada, a coluna "Diálogo do Português", publicada todo domingo nesta página do JC Cultura, completa seis anos neste mês. O "dono" da iniciativa, o professor Darvino Concer - conhecido pela forma dinâmica com que ensinava o idioma em sala de aula - conseguiu transpor para as páginas do jornal toda a descontração que o aprendizado do português pode envolver.
E o sucesso da coluna se comprova nestes seis anos ininterruptos de publicações semanais, em que o professor divide com o público sua paixão por uma língua tão complexa como cativante. "E, em todos os lugares onde vou, percebo o quanto as pessoas são receptivas a este formato de diálogo", diz.
Autor de quatro livros e com 35 anos de magistério, Darvino idealizou o "Diálogo" a partir da crença de que o aprendizado só acontece quando está associado à emoção. Neste sentido, segundo ele, a coluna foi concebida como uma tentativa de aproximar as pessoas de uma língua tida como "chata" ou "difícil" demais.
"O objetivo foi fazer com que as pessoas tivessem acesso aos conceitos da norma culta, mas de uma forma lúdica. Não me preocupo somente com o que dizer, mas também em como dizer. Eu procuro provocar a mente das pessoas para que elas participem do processo de aprendizado", revela.
Somente a partir desta abordagem menos ortodoxa, segundo ele, será possível conquistar as novas gerações e fazer com que elas dominem a Língua Portuguesa sem grandes dificuldades ou traumas. E, diante do avanço das novas tecnologias, que vem acompanhada pela popularização do "internetês", a tarefa parece ser um desafio ainda maior.
"A geração Y não quer ser mandada, quer ser seduzida. Então, cabe a mim entender como transmitir informação a este público. Acredito que, por ser uma geração altiva, precise ser cativada pelo encantamento, pela emoção, pelo entusiasmo", observa ele, que não se manifesta contrário ao uso de códigos alheios à norma culta para que a comunicação se estabeleça.
Traje
Embora defenda que todos os brasileiros devam dominar as regras formais do idioma, assim como os sociolinguistas, ele acredita que a linguagem deva ser utilizada como um traje. "Não seria adequado ir à praia de terno ou comparecer a um jantar de gala vestindo sunga", compara, acrescentando que as pessoas precisam estar preparadas linguisticamente para enfrentar todo tipo de situação.
"Cada momento, do formal ao mais informal, demanda uma postura. Se a pessoa conhece a norma culta, não há problema em fazer uso do modismo do internetês em uma conversa descompromissada", analisa.
Darvino lamenta, apenas, que ainda seja minoria o número de professores dispostos a ensinar de modo a inspirar seus alunos. Para ele, a postura conservadora diante do processo educativo só reforça a concepção equivocada de que o português é um idioma inacessível à maioria dos brasileiros.
"Sei que os professores sofrem com baixa remuneração, mas há um marasmo muito grande. Acredito que, mesmo diante das adversidades, o ensino deva ser algo prazeroso. Todo aluno, em algum momento da vida, foi influenciado pelo aspecto vibracional de um professor. É este profissional que vai fazer a diferença e sempre será lembrado por esse aluno", acredita.
Além do desafio de conquistar uma geração que recebe inúmeros estímulos e informações através de diversos canais que não o da escola, Darvino lembra que o novo acordo ortográfico - cujas alterações deixam de ser facultativas a partir de janeiro do ano que vem - também precisa ser assimilado pelos brasileiros.
E antes que o estranhamento inicial provocado pela novidade motive as pessoas a se distanciar da língua, ele pretende estimular, através do "Diálogo do Português", a curiosidade dos leitores acerca das novas regras. "Para tanto, durante todo o ano de 2012, a coluna irá tratar somente da reforma", adianta.
Como surgiu
Com 315 diálogos publicados no JC, o professor Darvino Concer conta que o formato da coluna "Diálogo do Português", que explica regras da língua portuguesa por meio de conversas informais entre personagens fictícios, surgiu a partir das dúvidas que seus alunos tinham. "O diálogo entre aluno e professor sempre foi presente nas minhas aulas, por mais simples que fosse o questionamento. A participação ativa no processo de conhecimento é a melhor forma de aprendizado", cita.
Carreira
Além de colunista e professor, Darvino Concer é autor do livro "Diálogo do Português", publicado em 2008, e de outro volume que já está sendo editado. Também escreveu "CAP - Clube Avançado de Português", lançado há 10 anos, e o "Guia prático de radicais gregos e latinos", que chegará às livrarias ainda neste semestre. Concer também ministra palestras em escolas e empresas como consultor motivacional.
Há dois anos, elaborou a Tabela da Reforma Ortográfica, que até hoje é distribuída gratuitamente à população em parceria com a empresa Bauruinfo. "Foram impressas 50 mil tabelas, sendo que 30 mil foram encartadas no JC no início do ano passado. A tabela é objetiva, fácil de manusear e visualizar. É um meio rápido e simples para as pessoas se familiarizarem com as novas regras da língua portuguesa", frisa.
Interessados em obter a tabela podem retirá-la na sede da Bauruinfo, na rua Gerson França, 9-49.
Curiosidades linguísticas - Darvino Concer
? Larápio
Um pretor (juiz), na Roma antiga, de nome Lucius Antonius Rufus Appius, tinha o péssimo costume de fabricar e vender sentenças a favor de quem lhe pagasse mais. Como se percebe o costume é antigo. Por ser o seu nome extenso, ele abreviava e assinava apenas com as três letras iniciais do nome e o último sobrenome: L . A . R . APPIUS, larápio. Por extensão semântica, larápio passou a ser denominada toda pessoa que se apodera ilicitamente de bens dos outros, os ladrões com ou sem toga, os gatunos, pessoas desonestas, de forma geral. Entendeu?! Essa praga vem de looonge!!! Não foi erradicada, ainda. Que o digam os atuais egípcios, tunisianos, líbios, sírios, iemenitas... Mas brasileiro é tão bonnnnzinho!!! Por isso, afirmo: O poder não corrompe, revela!
? Tempo do Onça
"Senhor, nesta terra todos roubam, só eu não roubo", escrevia ao rei João V o governador da capitania do Rio de Janeiro, Luís Vahia Monteiro. Tinha a fama de ser violento, honesto e rigorosíssimo no cumprimento da lei e combate à insegurança nas ruas cariocas. Como a onça era o animal mais temido na época, principalmente por causa dos ataques aos bandeirantes e aos que se aventuravam nas florestas em busca do ouro nas Minas Gerais, recebeu o apelido de Onça pelo medo que todos os bandidos tinham dele. Combatia, rigorosamente, o tráfico de ouro de Minas até o Rio. Hoje, essa expressão quer dizer: tempos antigos, remotos, longínquos, ultrapassados. Tempo da onça é forma popular equivocada, pois se refere ao animal. Portanto, diga sempre: tempo do Onça, com inicial maiúscula por se tratar da alcunha do administrador. Ai, que saudades do Onça!
? Abraço de tamanduá
Em tupi, tá-monduá: caçador de formigas. A expressão tem o sentido de abraço de amigo falso. Quando o tamanduá vê um inimigo, ergue-se nas patas traseiras e abre as dianteiras, anunciando o abraço.O inimigo se aproxima e recebe uma cravada de longas e afiadas unhas nas costas. O desdentado tamanduá nada pode fazer com o cadáver, a não ser esperar pelas formigas, seu banquete. No mundo animal, ele é considerado o maior investidor em curto prazo.