Com o crescimento constante da frota em Bauru, centímetros de asfalto são cada vez mais disputados no trânsito por carros, motociclistas e pedestres. E, como já se tornou frequente, essa procura por território resulta em manobras arriscadas, ofensas, buzinadas e até em acidentes graves. Entretanto, nessa "batalha", não é só quem está motorizado que desrespeita as regras e não é punido.
Segundo estimativa da Empresa Municipal do Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), os pedestres "infratores" são os responsáveis por cerca de 10% a 12% dos acidentes.
A reportagem esteve nas ruas da cidade e não foi preciso procurar muito para encontrar pessoas atravessando com o semáforo aberto para carros, outras cruzando a via fora da faixa e algumas que, para economizar alguns segundos, preferiam se arriscar a acionar o semáforo de pedestres.
Por conta desta realidade, hoje, quando se comemora o Dia do Pedestre, a Emdurb fará uma ação educativa nos cruzamentos do Calçadão da Batista de Carvalho. "Estaremos em um grupo de quase 50 pessoas. Metade estará com uma camiseta escrito ?pare? e a outra metade escrito ?siga?. Conforme o sinal vai mudando, eles vão se posicionando. O pedestre precisa ter mais educação e respeitar o motorista também", explica Nelson Augusto Neto, do setor de educação no trânsito da Emdurb.
A ação ocorrerá por volta das 13h30 e contará com 14 funcionários da Emdurb e 30 alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Cônego Aníbal Difrância. O local foi escolhido exatamente pelo grande fluxo de pessoas que desrespeitam os semáforos existentes.
É o caso da doméstica Solange Laurindo, 46 anos. Mesmo se sentindo desrespeitada pelos motoristas, ela não esperou o "sinal verde" no cruzamento entre o Calçadão e a rua Rio Branco. "Eu vi a oportunidade e passei. Confesso que estou errada. Sei que os motoristas não nos respeitam, mas a gente também não", reconhece.
Para a maioria, a pressa aparece como justificativa. Foi o caso de Otávio Tavares e Larissa Dezan, ambos com 23 anos. Eles se arriscaram entre os carros e quase nem tiveram tempo para falar com a reportagem. "Temos uma compromisso daqui a 10 minutos. É a pressa de sempre", argumenta Otávio, questionado sobre o porquê de ter "furado" o sinal a pé.
Outros alegam desatenção. "Eu nem vi o sinal. Estava conversando com um amigo e passei direto. O que ocorre é que todo mundo acha que está certo. Quando estou de moto, acho que estou certo. Quando estou a pé, mudo meu pensamento", pondera Marcelo Crepaldi, 23 anos.
Imprudência
Outro ponto que evidencia o risco que os pedestres correm pela imprudência é na quadra 17 de uma das avenidas mais movimentadas da cidade: a Nacões Unidas. Lá, existe um semáforo de pedestres, aquele em que a pessoa aciona o botão para que, instantes depois, o trânsito para veículos seja fechado.
Por incrível que pareça, a pressa faz com que as pessoas não utilizem o dispositivo. "Eu não vou ficar esperando, se não estiver vindo carro, né? Olhei e vi que estava seguro e passei", conta José Lopes de Melo, 65 anos.
Outra que preferiu se arriscar a esperar foi a tosadora de animais Ana Cláudia Brega, 20 anos. "Sei que estou errada. Mas é a pressa que faz isso. Vi que não estava vindo carro e resolvi apostar".
A menos de 100 metros dali, Bruna Maria Bragim, 18 anos, atravessava fora da faixa. Ela, que trabalha em um escritório de advocacia na região há três meses e sempre faz o mesmo trajeto, defende-se dizendo que a faixa "está muito longe". "É a pressa por causa do horário. Preciso pegar o ônibus e dificilmente dá tempo. Se eu for lá (a menos de 100 metros) e passar na faixa, vai demorar muito".
De acordo com o gerente técnico de infrações da Emdurb, Gustavo Cardoso, o pedestre não tem como ser multado e, por isso, a melhor maneira de reverter esse quadro é a educação. "É impossível autuar um pedestre que atravessa fora do lugar ou com o sinal aberto. O veículo possui placa para isso. Então, temos que atuar em campanhas educativas para o pedestre respeitar o motorista", completa Cardoso.
Fica sem multa aquele que ignora quem está na faixa
Apesar da sanção ser prevista no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), o motorista que desrespeita o pedestre ainda não é multado em Bauru. Ocorrências como não dar a vez aos pedestres sobre a faixa, não esperar as pessoas a pé terminarem a travessia de uma rua e não dar a preferência aos pedestres em uma curva, começam a ser multadas somente hoje na Capital. Por aqui, ainda não há previsão para que as notificações tenham início.
O gerente técnico de infrações da Empresa Municipal do Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), Gustavo Cardoso, explica que, inicialmente, serão feitas campanhas para conscientização para, em seguida, começarem as autuações.
"É algo que está previsto no Código de Trânsito Brasileiro desde 1997, porém, a Emdurb vai implantar políticas de educação e conscientização em um primeiro momento. Estamos planejando uma reunião com a Polícia Militar (PM) para ver como faremos isso. Depois de tudo feito, poderemos multar", explica.
Pelo CTB, não privilegiar pedestres sobre a faixa e não esperar as pessoas a pé terminarem de atravessar são infrações gravíssimas, com multa de R$ 191,53 e perda de sete pontos na carteira de habilitação.
Já quando o motorista faz uma curva em rua transversal sem dar preferência ao pedestre, comete infração grave, com multa de R$127,69 e menos cinco pontos na carteira.
Motoristas desrespeitam direitos de quem transita a pé pelas ruas
Se os pedestres desrespeitam os motoristas, o outro lado do problema ainda está distante de melhorar. Motorizados, muitos ainda se acham no direito de buzinar ou acelerar o veículo sobre aqueles que, quando o sinal é aberto, já estavam fazendo a travessia sobre a faixa.
Pela lei, em locais onde não há semáforos, o motorista é obrigado a dar preferência ao pedestre que está na margem da faixa de segurança. No cruzamento do Calçadão da Batista de Carvalho com a Rui Barbosa, Larissa Fernanda Mendes Sousa, 20 anos, sabe muito bem que isso não acontece.
"Se acontecesse, seria um milagre. A lei fala que, se colocar o pé, o carro tem que parar. Mas, se eu colocar o pé, o carro me leva", brinca a jovem, que espera por alguns minutos até conseguir concluir a travessia no local.
Em uma curva na Nações Unidas bem em frente ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ? que atende várias ocorrências diárias de acidentes de trânsito -, a atendente Marta Solange Ladeira, 21 anos, não ganhou a preferência. Pelo contrário, ela recebeu uma buzinada.
"Às vezes, algum veículo deixa a gente passar primeiro em curvas, mas é uma exceção. Agora, além dele não dar preferência, buzinou como se eu estivesse errada", afirma. O mesmo ocorreu com Leandro Gabriel Flamino, 21 anos. Em uma curva na avenida Duque de Caxias com a rua Virgilio Malta, ele ficou somente com a falta de educação da motorista. "A mulher fez a curva sem olhar e quase me atropelou. Além de estar errada, ela mostrou o dedo do meio para mim", conta, indignado.
Exceção à regra
Em meio a vários exemplos de descumprimento da lei, tanto de motoristas quanto de pedestres, há muitos que respeitam local e momento adequados para atravessarem as vias. Porém, entre toda essa disputa no trânsito, eles se sentem uma exceção que deveria ser regra.
É o caso de Eliane Regina Santos, 25 anos. Ela, que veio de Lençóis Paulista fazer compras em Bauru com o marido e o filho, esperou, mesmo sem o fluxo de veículos, para atravessar no cruzamento da rua Rio Branco com o Calçadão.
"Estou com meu filho de dois anos e meio e, por isso, temos que ter mais cuidado. Agora há pouco, por exemplo, um carro passou no sinal vermelho e quase nos atropelou. Quem vem de cidade menor, com trânsito sossegado, precisa ficar mais esperto", alerta.